Socializar o cuidado!

03/maio/2018, 10h31

Por Adriana Herz Domingues, do Juntas RJ

No Brasil as mulheres são as principais responsáveis pelos trabalhos de cuidado como cuidar da casa e da comida, das crianças, dos idosos e dos doentes. Mulheres dedicam 73% a mais de tempo com cuidade e/ou afazeres domésticos do que homens, segundo o IBGE (1). No mundo a situação se repete, com as mulheres dedicando de 1 a 3 horas a mais em afazeres domésticos, 2 a 10 horas a mais cuidando de crianças, idosos ou doentes (2). Ao mesmo tempo que assumem essas responsabilidades em suas próprias casas, as mulheres também são aquelas que executam esses trabalhos no mercado, por exemplo 92,3% dos trabalhadores domésticos e 88,2% dos enfermeiros são mulheres (3). Esses acabam sendo também os trabalhos mais precarizados, situação que se agrava no caso dos postos de trabalho ocupados por mulheres negras.

Engels postulou que a condição subalterna da mulher na sociedade não seria fruto de uma diferença natural entre homens e mulheres, mas sim uma construção histórica interligada ao surgimento da propriedade privada e das classes sociais. Enquanto as mulheres das classes dominantes foram excluídas do trabalho produtivo, sendo responsáveis apenas pelo trabalho reprodutivo, seja no sentido biológico ou do cuidado e de afazeres domésticos, as mulheres das classes trabalhadoras além de cumprirem esse papel, estiveram nas lavouras e nas fábricas. Com o avanço do capitalismo, as mulheres de classe média perdem parte de suas funções sociais, por exemplo com o advento das fábricas fábris que substituíram a manufatura. Ao mesmo tempo a maior parte das mulheres brancas trabalhadoras continuam sendo superexploradas em suas duplas jornadas. Para as mulheres negras que são escravizadas se coloca inicialmente uma ambivalência entre uma relativa igualdade em relação aos homens negros nas lavouras e a completa desigualdade racial. Com o fim da escravidão essas mulheres ou permanecem em seus postos de trabalho, como empregadas domésticas por exemplo, ou são completamente postas de lado tendo que lutar para sobreviver. Eventualmente, a ideologia da família nuclear dos detentores da propriedade privada dos meio de produção prevaleceu em um mundo completamente dominado pelo Capitalismo.

O ideal da mulher recatada e do lar, cuidadora e submissa coloca a mulher fora do público e do social. Isso pode ocorrer porque ela não tem tempo, que deve ser dividido entre sua participação no mercado de trabalho e os cuidados do lar e da família, ou porque ela não é vista como pertencente a esses espaço. Privadas do debate e do poder político, a situação das mulheres haveria de piorar vertiginosamente, não fosse a luta coletiva e o feminismo. Os trabalhos relacionados ao papel social das mulheres também passam por processos de precarização, seja a disparidade no status e remuneração de enfermeiras e médicos, ou o fato de que as empregas domésticas só alcançaram direitos trabalhistas da época Vargas em 2013. Uma das contradições colocadas por esse lugar social, é que as mulheres desafiam o individualismo capitalista, estabelecendo laços sociais e comunitários. Ultrapassar as barreiras colocadas pela sobrecarga das mulheres é necessário, não apenas para a emancipação das mesmas, mas porque traz mais da metade da sociedade para a luta por sua transformação.

Para mudar esse cenário, é necessário tirar o trabalho de cuidado do âmbito privado e o trazer para a esfera pública, além de combater a cultura machista que coloca todas essas responsabilidades exclusivamente sobre os ombros das mulheres. Nesse sentido, é urgente lutar por creches públicas, restaurantes populares e debater a condição dos idosos na sociedade. Ao mesmo tempo, debater e investir na saúde pública e dar valor a profissões tipicamente femininas. Para transformar a cultura é necessário pautar o espaço que a mulher ocupa na mídia tradicional, questionando por exemplo porque anuncios de itens de limpeza são quase que exclusivamente direcionados a mulheres. Ao mesmo tempo, é de extrema importância pautar o debate de gênero nas escolas para que os meninos aprendam desde cedo sua responsabilidade no cuidado do outro e na reprodução do trabalho e para que as meninas possam ser empoderadas a perseguir outros interesses. O trabalho do cuidado é responsabilidade da sociedade como todo e não apenas das mulheres.