Ajude a construir o programa LGBT do Juntos!

28/jun/2018, 19h04

Todos os dias morre pelo menos uma LGBT no Brasil vítima de crime de ódio, preconceito e exploração. Somos o país que mais mata lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no mundo, e o aprofundamento da crise socioeconômica parece desnudar essa condição, já que a cada ano que passa o Brasil bate os próprios recordes nos índices de violência LGBTfóbica. A cada 19 horas, a intolerância e o conservadorismo leva uma de nós, e a resposta pra esse dado terrível é ligada às raízes profundas da sociedade e do Estado brasileiro.

Enganam-se aqueles que acham que em um país como o nosso o conservadorismo representa algo arcaico, atrasado e caduco. Não existiria capitalismo no Brasil se não houvesse uma sustentação conservadora. Sem as bancadas fundamentalistas não existiria o parlamento da forma como é, legislando sob a lógica que legisla. Sem as oligarquias latifundiárias descendentes diretas das Casas Grandes escravocratas, não existiria balança comercial positiva brasileira, já que boa parte do PIB do país se origina da exportação de produtos agrícolas.

Pro povo pobre de um país tão brutalmente desigual como o nosso essa raiz conservadora tem um objetivo nítido e bastante atual: o controle, a separação e a hierarquização dos nossos corpos e da posição social que ocupamos. Corpos com marcas de gênero, raça, sexualidade, e que implicam, muitas vezes diretamente, em lugares sociais bastante distintos. Essa distinção é fundamental para a sustentação da desigualdade gritante a qual estamos submetidos. É preciso uma ideologia que justifique porque dentro de um povo tão maltratado como o nosso, existam corpos ainda mais maltratados, explorados e violentados, e que mesmo assim, essa realidade possa encontrar legitimação dentro da própria população.

Desse ponto de vista o Estado cumpre um papel de cristalizar e legitimar essa lógica social a partir de sua legislação. Quando as leis nos dizem que nosso afeto é menor, menos importante e sem nenhum reconhecimento legal, elas reforçam o nosso lugar subalterno na sociedade. Quando os programas governamentais de moradia não reconhecem como válidas nossas famílias para concorrerem ao sonho da moradia digna, ele reafirma que não existe direito à cidade para a nossa população. Quando um governo da velha esquerda se alia aos conservadores do pior tipo pra derrubar o debate sobre a LGBTfobia nas escolas sob a desculpa de “Não fazer propaganda de opção sexual (sic)”, esse governo reafirma o sofrimento psíquico das crianças LGBTs, legitima a evasão escolar e, em última medida, o nosso lugar nos empregos mais instáveis e precários. Quando, às pessoas trans, se nega até mesmo o acesso aquilo que existe de mais básico para uma pessoa, como o direito ao nome, o Estado brasileiro reafirma que o lugar das pessoas trans é nos lugares de sub gente, sendo na melhor das hipóteses em empregos precários, mas na maioria das vezes (90 por cento) tendo de recorrer a prostituição como forma única de se manter.

Esse panorama determina qual movimento LGBT nós defendemos: Somos diversos, porque nossas vidas não cabem nos padrões brancos, masculinos, heteronormativos e endinheirados que a mídia tenta nos impor. Somos radicais porque somos herdeiras das lutadoras de Stonewall, que lá em 1969 nos ensinaram que não se questionam estruturas tão arraigadas de maneira lenta, gradual e segura e que apenas a luta direta e radical é capaz de responder a dura realidade a que estamos submetidas. E somos, fundamentalmente, anticapitalistas, porque acreditamos que enfrentar o conservadorismo de maneira abstrata, sem questionar o papel que ele ocupa pra sustentar o regime de opressão e exploração capitalista, não nos levaria a lugar algum, somente ao aprofundamento da nossa condição. Ser um movimento LGBT das de baixo, daquelas que nada tem a perder, não pode ser visto como uma mera opção, mas como única forma de dar conseqüência ao nosso objetivo de transformar a nossa realidade. E lado a lado com esse perfil de movimento, deve existir um programa político, que consolide em propostas concretas esse espírito transformador.

Queremos construir um programa que dê resposta aos problemas que vivem as LGBT e seja radicalmente diferente do que está aí. Os governos do PT, embora com apoio de uma parcela do movimento, não avançaram na nossa luta. O congresso nunca aprovou leis voltadas para os direitos das LGBT, mesmo quando a coligação petista tinha maioria na Câmara, e Dilma vetou o kit anti LGBTfobia nas escolas em 2011, em uma negociação para salvar a pele do Palocci. E com Temer, a coisa ainda piorou. A violência contra as LGBT aumentou, as bancadas fundamentalistas ganharam mais espaço e o projeto Escola Sem Partido busca nos colocar em um lugar ainda mais marginal na sociedade, tentando apagar nossa existência. Assim como as milícias do RJ apagaram uma das nossas, Marielle. É também pra dar continuidade ao legado dela, que era LGBT, que lutamos e construímos esse programa.

Elencamos assim 6 eixos que consideramos serem os principais pontos que podem condensar nossas propostas políticas. São eles: Segurança Pública (com enfoque no combate a violência e a situação do encarceramento, especialmente da população T e negra); Empregabilidade; Saúde (mental, física e sexual); Educação e Cultura; Moradia (com enfoque no acolhimento às LGBT expulsas de casa); e Cidadania e acesso à cidade (debatendo nesse ponto também as questões da população de rua, transversalmente com moradia). A partir disso começaremos a debater em todo o Brasil quais propostas queremos que preencham esses eixos, e que representam melhor a política que defendemos para as LGBTs. Faremos atividades, piqueniques, debates, rodas de conversa no maior número de estados que for possível com esse objetivo, mas também colheremos idéias de qualquer pessoa que queira contribuir através desse link: bit.ly/JuntosLGBT.

Vamos Juntos! derrotar o conservadorismo e construir um futuro melhor pra todas e todos!