Quantos mais precisarão morrer para que essa guerra acabe?

18/jun/2018, 19h44

Por Juntos Feira de Santana

A cidade de Feira de Santana, na Bahia, viveu neste fim de semana uma onda de violência absurda. Foram registrados somente entre sábado e domingo 19 homicídios, chegando ao número de 200 somente este ano na “Princesa do Sertão” como é conhecida a cidade. No sábado, durante a madrugada, um policial militar foi morto após reagir a uma tentativa de assalto. Situação semelhante aconteceu em Salvador no fim de semana passado, onde foram registradas mais de 30 execuções por mascarados no intervalo de um dia. Em Vitória da Conquista, também na Bahia, quatro adolescentes foram alvejados em frente a uma escola pública também esta semana. Todas as mortes por execução têm um perfil semelhante: jovens, negros e de bairros da periferia.

A situação vivida pelos municípios baianos não e única, isolada e nem é atual. O grave problema de segurança pública tem um alvo concreto e tem feito parte da realidade de várias cidades do país. Chacinas aconteceram e acontecem em massa em cidades como Osasco-SP, Fortaleza-CE, Natal-RN, Belém-PA, Rio de Janeiro. O perfil da maioria das vítimas sempre se repete independente da região. Enquanto nas grandes cidades a violência atinge principalmente as áreas mais afastadas dos centros, nos interiores encontramos uma situação de “periferização extendida” que se manifesta na ausência de políticas públicas gerais para grande parte da cidade acompanhada da militarização intensiva, o que se estende também nos números de violência em múltiplas áreas urbanas e rurais. Segundo o Fórum Nacional de Segurança Pública, somente entre 2006 e 2016 foi registrado um aumento de 23% do número de jovens vítimas de homicídios, a Bahia liderando o ranking de execuções de homens jovens e têm em seus interiores grandes taxas de violência. Além do fator idade e território, o fator racial também é central na avaliação, segundo matéria da Folha “Em 2016, a taxa de homicídio de pretos e pardos (40,2/100 mil) era duas vezes e meia maior que a de não negros (16/100 mil). Já a taxa de mortes violentas intencionais de mulheres negras era 71% mais alta que a de não-negras”. A demonstração do quanto 130 anos após a Abolição ainda somos os que mais sofrem com os regimes violentos. O perfil principal das vítimas do péssimo modelo de segurança pública que temos está desenhado: jovem, negro e das periferias das grandes cidades ou dos interiores.

Marielle Franco, vereadora do PSOL executada no Rio de Janeiro e ainda sem justiça, em sua última postagem nas redes sociais questionou “Quantos mais precisarão morrer para que essa guerra acabe?”. Vivemos de fato uma guerra contra negros e pobres que leva séculos. A atual política de drogas é sempre a justificativa para ter nossos corpos tombados e encarcerados, enquanto milionários donos de helicópteros de cocaína vivem soltos e ocupam vagas nos cargos políticos. Não a toa, quando um de nós é executado logo tem suas imagens circuladas em correntes de whatsapp e viram chacotas e memes em comentários de Facebook, mesmo quando não se relacionam com nenhum crime como é o caso da maioria das vítimas do fim de semana tenebroso em Feira de Santana, que em trabalho realizado pelo advogado Rodrigo Lemos em pesquisa no site do Tribunal de Justiça da Bahia ficou evidente que não constam dados criminais sob maior parte dos mortos.

É mais que necessário e urgente modificar o modelo de Segurança que temos no país e pra isso é preciso outra política de drogas, uma reforma no judiciário, uma política de ressocialização que acabe com os antecedentes em situações criminais leves, apontando a necessidade de empregabilidade, de moradia e de educação como fatores centrais e, sobretudo, colocar os sujeitos que mais sofrem com o problema da insegurança para gestar a territorialização do problema com a criação de Fóruns Populares em áreas violentas onde se debata e proponha soluções para os problemas.

Por fim, exigimos que o poder público investigue todas as mortes e se posicione sobre a situação. Não deixaremos que nossas vidas sejam tratadas de forma descartável e seguiremos resistindo.

#ParemDeNosMatar

#NossasVidasImportam