Universidade para quem (d)ela pertence

Por Cilas Machado, estudante de Administração Pública e Social (UFRGS), militante do Juntos! RS e do movimento negro. E Patrick Veiga, estudante de História (UFRGS) e militante do Juntos! RS

Desde o fim do processo eleitoral estamos sendo bombardeados por notícias e discursos catastróficos da turma de Jair Bolsonaro. Apontávamos, há muito tempo, o quão despreparado e questionável era Bolsonaro ao longo de seu percurso como figura pública da extrema-direita brasileira, mas a cada dia nos surpreendemos mais com a qualidade de sua turma. Desta vez foi o momento do Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues, suas declarações na última segunda-feira (28) ao jornal Valor Econômico confirmam nossas análises que, finda as eleições, apontavam que a vitória da extrema-direita representava uma mudança qualitativa de regime, neste sentido, elevando o patamar da disputa ideológica no país.

Segundo Vélez, na entrevista, “a ideia de universidade para todos não existe” e que esta “deve ficar reservada para uma elite intelectual que não é a mesma elite econômica” [do país]. Destas afirmativas, importante situar que a educação superior no Brasil sempre foi um espaço reservado para a formação das elites e, portanto, uma máquina reprodutora das injustiças sociais. Contudo, essa realidade, embora tímida, começou a mudar nos últimos anos. As políticas de flexibilização de acesso ao Ensino Superior, como as Ações Afirmativas são o resultado mais acabado da entrada da classe trabalhadora no espaço que desde sempre lhe fora apartado. Não à toa, as declarações do Ministro desnudam o projeto do atual governo à educação: uma guerra contra o nosso povo, sobretudo, as conquistas históricas que a luta dos movimentos sociais, negros e indígenas, alcançaram no último período.

Importante lembrar que a indicação de seu nome foi uma resposta à bancada evangélica. Vélez é considerado um dos ideólogos do novo governo e amigo próximo de Olavo de Carvalho, “guru” da extrema-direita. Em texto intitulado “um roteiro para o MEC”, escrito em novembro de 2018, o Ministro afirma que sua proposta “pretende seguir a caminhada patriótica empreendida pelo nosso Presidente eleito”. De acordo com ele, nos últimos anos, as instituições brasileiras foram aparelhadas pelos “vermelhos petistas” a serviço de uma revolução cultural gramsciana. No mesmo texto, assim como na entrevista, declarou-se favorável ao projeto “Escola Sem Partido”.

O combate à suposta doutrinação ideológica dos Ministros da Educação e da Família, Mulher e Direitos Humanos aliada à agenda ultraliberal do Ministro Paulo Guedes representa um perigo para a Educação Pública, seja em seu caráter de perseguição a professores ou pelas enxurradas de privatizações. Ricardo Vélez falou que a cobrança de mensalidades nas Universidades Federais ainda não foi à discussão, mas obviamente sabemos que seria uma boa forma de reservar a Universidade para as elites, como querem. Sem falar dos projetos de ensino à distância e domiciliar, enfraquecendo a relação de sociabilidade que a Escola permite e precarizando e comercializando a relação de Ensino sem a presença do estudante.

As declarações de Ricardo Vélez confirmam nossas certezas sobre os rumos da educação no novo governo. O novo Ministério expressa a vontade do governo em retomar o espaço da Universidade Pública para as elites, alijando nosso povo do acesso à educação. Aliado a isso não podemos esquecer que Bolsonaro já mostrou sua aversão às políticas de cotas nas universidades, dizendo inclusive que não viajaria em um avião com um piloto cotista, mostrando seu completo desconhecimento de política pública e destilando seu ódio racial. O presidente deixou claro que o novo governo não reconhece qualquer dívida histórica, afinal de contas, “eu não escravizei ninguém”, como disse em entrevistas ao Jornal Nacional e ao Roda Viva durante a campanha.

Disso tudo, uma apreensão é certa: eles não vieram para brincar. O despreparo e desconhecimento é uma tática do avanço de suas posições conservadoras representados nos interesses de classe que defendem. Tal iniciativa do governo evidencia a disputa ideológica que há muito nos avizinhava e que, neste momento, se apresenta como projeto mais acabado. De nossa parte, resta resistirmos. E apontarmos em nossos espaços de atuação que nunca foi tão necessária a nossa organização. Os embates que travamos enquanto movimento universitário no segundo turno eleitoral serão cobrados. A direita ideóloga da branquitude universitária que sempre fora contra as cotas se encontra hoje no poder. Nós precisamos elevar nosso grau de atuação e disposição para as disputas que virão. Trabalho e enraizamento são palavras mais que necessárias, mas a consequência política deve tencionar o movimento estudantil no próximo período. Se eles não estão aqui para brincar, nós também não. E que tenham medo, pois a Universidade vai servir a quem (d)ela pertence: ao povo!