Usamos a cor que queremos: LGBTs e mulheres em defesa da vida e das liberdades

Por Aline Schmidt, estudante de Ciências Sociais na Unicamp, diretora do DCE Unicamp e militante do Juntos SP,  e João Filho, bacharel em Ciências Sociais na USP e militante LGBT do Juntos SP

O governo Bolsonaro assumiu o país no dia primeiro de janeiro e, menos de 48 horas depois, os movimentos sociais e os setores oprimidos da sociedade já tem muito com o que se preocupar. Em pouco tempo, Jair Bolsonaro e sua equipe declararam guerra às mulheres, às LGBTs e ao povo trabalhador do país.

Logo nas primeiras horas, Bolsonaro já deu a deixa de como tratará a população LGBT. No decreto que distribui as atribuições de cada ministério, o presidente assumidamente homofóbico não explicitou a proteção à população LGBT nas competências do ministério que deveria cuidar dos Direitos Humanos, e excluiu a Secretaria da Diversidade do MEC. Por conta da repercussão negativa, colocaram a pauta LGBT na alçada da Secretaria Nacional de Proteção Global, sob o comando de um pastor, escanteando completamente nossas demandas.

Isso é um absurdo sem tamanho! O Brasil não é qualquer país quando se pensa a LGBTfobia no mundo. Nós amargamos vergonhosamente o posto de país que mais assassina a população LGBT mundialmente, vítimas de crimes de ódio. Um grande exemplo de luta para nós foi Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro brutalmente assassinada em Março passado. Exigimos há quase um ano respostas sobre quem matou e quem mandou matar Marielle! O que eles não sabiam é que somos sementes e que não vamos aceitar sermos silenciadas. Vamos continuar nas ruas organizadas exigindo um futuro para nós!

A cada 19 horas uma de nós, LGBTs, é morta. Metade da população trans que morre no mundo anualmente morre no Brasil. Quando Bolsonaro determina que não existe responsabilidade do governo federal em combater essa realidade brutal ele assume seu lado nessa escalada de violência. Devemos encarar o fato como ele é: Bolsonaro dessa forma não apenas se torna omisso a esses índices de guerra contra a população LGBT, como também ele e sua equipe se tornam cúmplices daqueles que nos matam.

O novo ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) – investigado por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois na implementação de um sistema de prontuário eletrônico enquanto era Secretário de Saúde de Campo Grande – já deixou claro em entrevista recente à Folha de São Paulo que a política de HIV/Aids do SUS, referência mundial no combate ao vírus e à doença, tem que ser revista “para não ofender as famílias”. Esse é mais um recado nítido. Em nome da família tradicional e da moral e dos bons costumes, o governo Bolsonaro quer nos ver mortos, em qualquer situação.

E isso é apenas uma parte dos retrocessos já anunciados. Damares Alves, nova ministra do Ministério da Família, Mulheres e Direitos Humanos, tomou posse em Brasília dizendo que agora “uma nova era começa”. Com um primeiro discurso marcado por preconceitos sexistas como “menina veste rosa e menino veste azul”, Damares Alves demonstra não compreender a centralidade de se combater a violência contra as mulheres como principal objetivo em um governo que tenha como norte a promoção de políticas públicas que visem acabar com esse cenário trágico relegado à nós.

A frase anunciada e repetida por Damares após o discurso de posse, esconde por trás de seu conteúdo o combate à “ideologia de gênero”, que o governo de Bolsonaro promete aos conservadores ser um dos principais focos de combate em seu governo. Isso só demonstra como o recém eleito e seus ministros estão descolados da realidade sórdida das mulheres no país. Para se ter uma ideia, o jornal Folha de S. Paulo apresentou alguns dados divulgados pela 12° Anuário Brasileiro de Segurança Pública, sobre a situação alarmante de violência contra as mulheres no país. Cerca de 606 mulheres sofrem com a violência doméstica e 164 são vítimas de estupro por dia. Ainda, 22 mulheres por hora acionam a lei Maria da Penha, dando um total de 530 por dia no Brasil. As taxas de feminicídio também estão entre as maiores do mundo e, diante desse lamentável cenário, toda preocupação esboçada pela ministra se dirige às vestimentas das meninas e meninos.

Um discurso desses só poderia vir de setores que não compreendem o avanço e o poder da luta das mulheres em movimento. O último dia 29 de Setembro de 2018 foi marcado por diversas manifestações #EleNão, espalhadas por todo o território nacional, que reuniram milhares de mulheres junto às LGBTs, juventude e negritude e pessoas dispostas a enfrentar Bolsonaro e seus comparsas do atraso. Demos o recado: Não vamos aceitar nenhuma retirada de direitos e não vamos mais tolerar nossas mortes! As mulheres mobilizadas foram capazes, no mundo, de dizer desde Trump nos EUA ao congresso reacionário argentino que quando estamos mobilizadas e organizadas somos capazes de barrar todo tipo de retrocesso. Não será diferente no Brasil, nas ruas está o caminho para derrotar o atraso e conquistar um futuro livre e digno para nós!

O próximo 08 de março no país terá uma importância fundamental, as mulheres e todos aqueles contrários às medidas de Bolsonaro devem construir uma grande mobilização nacional. Chamamos todas e todos a participarem de mobilizações nesse dia, é preciso construir uma oposição organizada nas ruas a esse governo! Por isso, apostamos na nossa organização coletiva como única forma de barrar todos os ataques. Só juntos conseguiremos ser resistência a todos esses retrocessos e derrotar o projeto da casta política que no momento de grave crise econômica, política e social opta por retirar nossos direitos e intensificar os ajustes neoliberais.

O governo dos fundamentalistas é nosso inimigo frontal! Não existe margem para diálogo ou amenidades. Nossa tarefa nesse momento é declarar guerra contra esses cretinos que querem nos ver mortos, ou no melhor dos casos, submissos aos seus desmandos. Não aceitaremos e não vamos recuar! As mulheres não voltarão para a cozinha, os negros e negras não voltarão para a senzala e as LGBTs não voltarão ao armário. Muito pelo contrário. Nos encontraremos Juntos nas ruas para derrotar esse projeto antipovo e antiliberdades que Bolsonaro, Damares, Mandetta e toda essa corja representa. Nenhum passo daremos atrás. Ninguém solta a mão de ninguém. E nos vemos no próximo dia 10 de Janeiro pra dar o nosso recado ao novo governo e no 08 de Março incendiaremos as ruas do país!