CLIMA DE REVOLTA – Por Escolas Democráticas e Antifascistas
Tese de Oposição do Congresso da UBES
Passamos por um momento em que ser jovem e estudante torna-se progressivamente um desafio maior. Enquanto nossas escolas passam pela falta de merendas e de professores, pela oferta de disciplinas que em nada nos agregam e pelo aumento do racismo, do machismo e da LGBTfobia na sala de aula, o mundo parece reduzir as perspectivas. A crise climática e as temperaturas crescentes, a escala de trabalho 6×1, os ataques de fascistas e imperialistas pelo mundo e a podridão do sistema corrupto revelado por escândalos como o do Banco Master nos mostram uma coisa: ou mudamos esse mundo, ou somos derrotados por ele.
MUDAR O MUNDO: POR ESCOLAS ANTIFASCISTAS
O capitalismo está em crise em escala global. Para se manter, os bilionários apostam no autoritarismo, na repressão e na violência, impulsionando governos como o de Donald Trump. Eles tentam impor um clima de medo: quando o sistema já não garante a vida, só resta governar pela violência. Enquanto bilionários e poderosos constroem bunkers, financiam guerras e fantasiam rotas de fuga para outros planetas, tentando se salvar do colapso que ajudaram a criar, nós escolhemos outro caminho. Apostamos na organização coletiva, na luta e na construção de um futuro que não seja governado pela barbárie. Está na hora de criar um clima de revolta!
Em diversos países, a juventude da Geração Z ocupa as ruas contra governos que administram a miséria, a destruição ambiental e a negação do amanhã. Enquanto nos EUA a polícia de imigração prende e mata pessoas, a população se organiza coletivamente para dar a resposta. Na Palestina e no mundo, no ano passado, milhões de pessoas se organizaram demonstrando que a barbárie não vai ser aceita sem luta. No Brasil, precisamos fortalecer esse exemplo. Se queremos mudar nossa realidade, precisamos tomar o futuro pelas nossas próprias mãos.
Para isso, precisamos reconstruir um movimento estudantil combativo, antifascista e enraizado na realidade da juventude. Um movimento capaz de romper com a apatia, ocupar escolas e ruas, incendiar consciências e dizer sem medo seu nome e seu inimigo. A juventude sempre foi ponta de lança das transformações históricas e da luta antifascista e é exatamente por isso que a extrema direita nos teme. Em 2016, as ocupações de escola mostraram esse potencial. Retomar esse legado é transformar o clima de revolta em organização permanente e luta antifascista dentro das escolas. A pergunta não é se há motivos para a revolta, mas quem irá organizá-la.Nossa tese é um chamado: transformar o clima de revolta em projeto político. Ocupar, organizar e lutar para que as escolas sejam trincheiras de democracia, de antifascismo e de futuro. É nesse sentido que chamamos todos os estudantes a construírem a I Conferência Internacional Antifascista Pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março, em Porto Alegre. Não como um simples espaço de debate, mas como uma ferramenta concreta de propaganda, organização e unidade para enfrentar o avanço do fascismo. Um momento de transformar indignação em linha política, revolta e estratégia.
ESCOLAS DEMOCRÁTICAS
A crise que as escolas vivem não é por acaso, é um projeto. O Novo Ensino Médio (NEM), os cortes no orçamento, a falta de investimento e a repressão à organização estudantil não são problemas isolados, mas parte de um projeto político que transforma a educação em mercadoria e esvazia seu caráter público, crítico e emancipador. O objetivo é claro: empurrar a juventude para a precarização, condenando-a aos subempregos e à escala 6×1. O NEM foi implementado exatamente com esse objetivo. Junto à precarização da universidade pública, ele representa um projeto de poder que objetiva ver nossa juventude como futura mão de obra precarizada, não como quem pode ter sonhos para o futuro. Essa lógica também nega condições básicas de permanência, como o passe estudantil, dificultando o acesso à escola e, na prática, expulsando estudantes pobres da educação e negando o direito à cidade.
Por isso a escola tem fechado portas para os estudantes. Estudantes que tentam denunciar as condições em que estudam são perseguidos, e casos de racismo, machismo e LGBTfobia são abafados. Além disso, grêmios que respondam aos estudantes e não às diretorias são impedidos de serem fundados e mantidos. Querem calar os estudantes, impedir o pensamento livre, e isso só será combatido com nossa luta. Defendemos outro tipo de educação, uma que coloque o estudante no centro. Por isso, lutamos em nossos grêmios e entidades estudantis, mas também construímos a Rede Emancipa de Educação Popular, que organiza cursinhos baseados em uma educação libertadora para demonstrar um caminho que veja os estudantes como pessoas, não mercadoria.
Esse ataque ganha forma na ofensiva moralista da extrema direita, que disputa a escola como espaço de controle social. Sob o discurso hipócrita da “neutralidade”, da “ordem” e da “disciplina”, avançam projetos autoritários que censuram o pensamento crítico e tentam domesticar a juventude. A militarização do ensino sintetiza esse projeto. As escolas cívico-militares não irão superar a precarização da educação pública nem a evasão escolar; ao contrário, instauram uma lógica de quartel baseada na hierarquia, na obediência e no medo. Nossa escola não é quartel! Esse modelo transforma a escola em espaço de vigilância permanente e de punição, aprofundando desigualdades raciais, sociais e de gênero e atingindo de forma mais dura a juventude negra e periférica. A privatização em nada ajuda também, nossa escola não é lucro, é nosso lugar. O MEC não pode seguir priorizando as relações com fundações privadas de bilionários, como a Fundação Lemann, ele tem que priorizar a educação pública de qualidade.
Essa disputa também se expressa no interior do movimento estudantil e, em especial, na UBES. O Congresso da UBES não é um espaço neutro, ele reflete a luta entre dois projetos de educação e de sociedade. De um lado, o setor que hoje dirige a entidade aposta na conciliação, na institucionalização do movimento estudantil e na adaptação às reformas neoliberais, esvaziando a capacidade de mobilização da base. De outro, nós da Oposição de Esquerda entendemos a necessidade urgente de reconstruir uma UBES combativa, democrática e enraizada nas escolas públicas, capaz de enfrentar o Novo Ensino Médio, a militarização, os cortes na educação e o avanço da extrema direita. Disputar a UBES é disputar se o movimento estudantil será linha auxiliar de governos e burocracias ou instrumento real de organização da juventude, com grêmios fortes, assembleias, ocupações e luta nas ruas. Defender escolas democráticas passa, necessariamente, por retomar a UBES como ferramenta de combate e auto-organização. Lutamos por uma UBES que sirva à luta.
POR UM MOVIMENTO ESTUDANTIL CONTRA O FIM DO MUNDO
Nossa tese é construída por estudantes de todas as regiões do país, gremistas, militantes do coletivo Juntos e da Rede Emancipa de Educação Popular, a partir de uma convicção simples e urgente: só vamos mudar nossa realidade com independência, organização e luta. Enquanto a UBES se afasta da base e se preocupa mais em cumprir um papel institucional para governos do que em organizar os estudantes, nós queremos reunir todos aqueles que não aceitam esperar enquanto o mundo e a educação colapsam.
A crise que atravessa nossas escolas é a mesma que ameaça a própria existência no planeta. Tudo isso é fruto de um mesmo sistema produtivista que explora a natureza e o trabalho até a última gota, impõe jornadas exaustivas, rouba da juventude o direito ao descanso, ao estudo e ao lazer, e concentra riqueza nas mãos de poucos, enquanto condena a maioria a um futuro descartável. Esse modelo cria zonas de sacrifício em escala global. Do Sul Global explorado às periferias das grandes cidades, povos indígenas, comunidades negras, trabalhadores e jovens pagam o preço de um sistema organizado para e pela exploração. Nossas escolas vivem diariamente o abandono, a falta de infraestrutura, o calor extremo e a negação de direitos básicos, reproduzindo o racismo ambiental que empurra a população pobre e negra para territórios degradados.
Diante disso, não basta denunciar, é preciso agir. Defender Escolas Contra o Fim do Mundo significa lutar pela criação de protocolos climáticos nas escolas, que garantam condições mínimas de permanência diante do colapso ambiental — como infraestrutura adequada, acesso a água, a alimentação e a ventilação, além da suspensão de atividades em situações climáticas extremas. A situação da nossa escola e do nosso mundo não vão ser superadas apenas esperando. Defendemos a bandeira do ecossocialismo porque acreditamos que é necessária uma mudança radical nessa sociedade. Estivemos junto com os povos indígenas do Baixo Tapajós ocupando a Conferência Climática da ONU, demandando mais voz para aqueles que não são escutados, porque achamos que é assim que conquistamos mudanças reais.
Nossa tese expressa isso: independência e vontade de lutar. A necessidade de revolucionar nossas escolas para, ao invés de serem espaços que nos calam, sirvam para nossa emancipação e para revolucionar o movimento estudantil, onde grêmios tenham direito à voz, todo estudante possa ser quem realmente é sem ser perseguido e que a UBES sirva como instrumento dessa mudança.

