Ontem, há 37 anos

26/abr/2011, 00h47

Israel Dutra*

Há 37 anos o mundo conhecia a Revolução dos Cravos. O levante popular e dos soldados e capitães do MFA colocou ponto final no governo de Marcelo Caetano, último salazarista no poder. O Regime autoritário do Estado Novo impos uma das mais longevas ditaduras do mundo ocidental no século XX. O autoritarismo “corporativista” da ditadura de Salazar levou o país ao desatre da guerra colonial, jogando vidas, armas e dinheiro numa luta desesperada contra os movimentos de libertação nacional da África portuguesa.

A baixa oficialidade, jovem, cansada com a guerra e carente de projetos alternativos abriu a “janela” do descontamento social, naquele dia 25 de abril. A luta dos camponeses, dos estudantes, da classe trabalhadora acabaria se encotrando na confraternização entre tanques, soldados e o povo. O cravo serviu como instrumento e símbolo desta socialização.

A luta política dentro do regime que se origina do processo revolucionário vai levar a choques dramáticos entre concepções reformistas e revolucionárias. Os  partidos majoritários no movimento operário, o PS de Mário Soares e o PCP ( o mais radicalizado e influente PC europeu), junto com os setores mais atrasados do MFA, após intensa luta política, acabaram por institucionalizar um projeto reformista socialmente. Depois da derrota do dia 25 de novembro de 1975, quando um golpe da ala mais reacionária da oficialidade impos uma estabilização definitiva.

Quase quatro décadas depois, uma vez mais o povo português está diante de um colapso. Desta vez não é a guerra colonial e o regime autoritário que conduzem ao “fundo do poço”: são os governos neoliberais. Na esteira da crise que “quebrou” vários países como a Grécia e a Irlanda, Portugal  é a próxima estação.  A ajuda externa, comprometida com o o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e com o Fundo Monetário Internacional (FMI) causou a demissão do governo do PS.

 

Para enfrentar o corte de gastos, o desemprego, a submissão ao FMI e a falta de perspectivas, é necessário um novo 25 de abril.

 

A “geração à rasca”, jovens que lutam por um futuro melhor, aponta o caminho, saindo às ruas e repudiando os planos de ajuste. A primeira manifestação, convocada quase que espontaneamente, nas redes sociais, reuniu quase 300 mil pessoas nas principais cidades do país.  A greve geral do ano passado também foi uma demonstração do que poderá vir pela frente. As discussões entre setores de esquerda(Bloco de Esquerda e PCP) para apresentar uma plataforma comum passa pela auditoria da dívida e por um novo plano econômico.

Como o hino da revolução dos cravos nos ensina, na voz do grande Zeca Afonso: “O povo é quem mais ordena”.

*Professor de Sociologia e membro da Direção Nacional do PSOL