A revolução árabe e um giro histórico também na juventude: vamos Juntos!

11/maio/2011, 11h40

Gustavo Rego*

Desde o início do ano, o mundo parece ter se voltado para a região árabe. Onipresente na mídia, nas universidades, nos debates de boteco, a “Revolução Árabe” parece ter chacoalhado nossa realidade. O destaque que recebeu, e a denominação “revolução” não são por acaso. Esta é a maior mobilização política que a geração nascida entre os 80-90 já viu. Pela primeira vez, vimos a hegemonia do imperialismo sendo golpeada de forma significativa. Em meio à constante apatia e conformismo que vivemos, em que a participação política é vista com indiferença ou repulsa, presenciamos milhões de jovens e trabalhadores indo às ruas lutar por melhores condições de vida e por um mundo mais justo. Essas pessoas não ficaram presas ao seu individualismo e não consideraram naturais a miséria e a opressão, mas buscaram, juntas, a superação dos seus problemas. Nada poderia chocar mais a nossa (aparentemente) morna vida política. Apenas por isso, já é possível dizer que essa foi uma revolução em nossas consciências. Sobretudo para os jovens, não só pelo caráter inédito desses fatos, mas porque esse setor cumpriu um papel fundamental nas revoluções.

Mas esta revolução não se explica apenas pela excepcional coragem do povo árabe. É preciso contextualizá-la. Entre julho e agosto de 2007 o estouro da bolha financeira imobiliária nos EUA deu início a uma séria crise econômica mundial. Ao contrário do que dizem muitos economistas, o cenário de crise ainda não foi superado: o governo dos EUA continua sem saber o que fazer para manter sua economia estável e os governos da Europa não conseguem conter a crescente revolta popular. Após um longo ciclo de expansão desenfreada do capital, vivemos um verdadeiro giro histórico na situação mundial. A crise que se iniciou no campo da economia colocou as massas em movimento e deu origem a uma crise no campo da política. Até o momento, os Estados árabes representam (ou representavam) um dos principais focos do imperialismo mundial, seja por sua importância geopolítica estratégica, ou pela enorme importância econômica das reservas de petróleo presentes no norte da África e Oriente Médio. Governos ditadores de países como Egito, Turquia, Líbia, e, principalmente, Israel serviram como importantes aliados do imperialismo reprimindo qualquer iniciativa popular que ameaçasse seu domínio na região. Entretanto, os países árabes se tornaram extremamente dependentes da economia externa (principalmente da Europa), e quando a crise chegou até eles, os ditadores não conseguiram conter o impulso combativo dos jovens e trabalhadores. Deu-se início a uma revolução democrática que derrubou dois ditadores, conquistou diversos direitos civis e importantes avanços sociais. Sem dúvida, uma desestabilização do imperialismo dominante na região até o momento.

O processo que se desenrola, no entanto, está em aberto. Não é possível dizer ainda quão profundas serão as transformações no Egito e na Tunísia. Se avançam até uma radical reestruturação da economia e rompimento com o imperialismo, ou se apenas alteram o regime político, permanecendo em uma situação de desigualdade social e dependência externa. No caso da Líbia, onde a revolução ganhou feições de guerra internacional, está colocada a disjuntiva de se o movimento de massas será vitorioso contra o ditador Gadaffi, mantendo até o fim sua autonomia e seu caráter democrático, ou se o imperialismo conseguirá manobrar o processo fazendo com que o próximo governo lhe seja igualmente dócil. Muito depende de como se darão os processos nos demais países árabes, como Arábia Saudita, Síria e Bahrein onde a luta popular tem encontrando dificuldades para avançar em função da repressão. Mas o sucesso da revolução árabe como um todo depende principalmente do desenvolvimento da conjuntura política global, tendo em vista que esta revolução localiza-se em um contexto geral de crise. Ao mesmo tempo, as revoluções causam sérios impactos na conjuntura internacional, tanto pela subida no preço dos barris de petróleo, quanto pela influência política (na China, por exemplo, o governo já se preveniu proibindo a busca da palavra “Egito” na internet).

Portanto, o Brasil não está isolado do que acontece no mundo árabe hoje. Bem verdade que o nosso país vive uma condição de estabilidade muito maior do que a daquela região. Entretanto, temos motivos de sobra para acreditar que o Brasil não passará ao largo de toda essa crise. O corte de 50 bilhões no Orçamento anunciado pelo governo federal e o aumento da inflação são apenas mostras disso. Portanto, para aqueles que desejam ver o processo de transformação mundial se aprofundar, chegando também ao Brasil, colocam-se duas tarefas: a) adotar uma política conseqüente no país, aproveitando as brechas deixadas pela elite dirigente; e b) praticar solidariedade ativa à Revolução Árabe.

O PSOL tem procurado agir nestes dois campos. No parlamento, demonstra conseqüência na luta contra a corrupção e a injustiça social, construindo uma alternativa a setores da população desiludidos com a traição do PT. Ao mesmo tempo, engaja-se nos processos de mobilização popular que se desenrolam (como no caso dos atos contra aumento da tarifa de ônibus em São Paulo) e constrói, através do jornal Juntos!, um setor de juventude voltado para ação política combativa e ampla.

No terreno internacional, o PSOL enviou dois correspondentes, um ao Egito e outro à Tunísia, para trocar experiências e construir aliança com os revolucionários. Com isso, trouxemos ao Brasil um dirigente sindical tunisiano para compartilhar conosco sua experiência e ajudar na construção de um novo partido, semelhante ao PSOL, na Tunísia.

Para nós, jovens acostumados ao individualismo e a apatia, a discussão sobre revoluções e a construção de um mundo mais justo pode parecer puro sonho distante. Mas até pouco tempo antes da revolução árabe estourar, poucos apostariam que esta região seria palco de tantas transformações. É preciso fazer como os jovens árabes, que tomaram as ruas pois enxergaram que por trás do véu escuro da opressão se escondia a possibilidade de uma sociedade mais justa. É preciso lembrar de dois jovens mártires que foram o estopim das mobilizações no Egito e na Tunísia: Khaled Said, jovem egípcio morto por protestar contra policiais, e Mohamed Bouazizi, jovem tunisiano que se auto-imolou em protesto contra a situação de pobreza na Tunísia. Juntos! é uma tentativa de tentar resgatar esse espírito de luta e esperança na transformação. Vamos juntos! Façamos a nossa praça Tahrir!

 

*Gustavo Rego é estudante de Ciências Sociais, diretor do DCE da USP, militante do MES-PSOL e colaborador do jornal Juntos! (juntos.org.br)

 

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