Jornalismo e punhetação

26/jul/2011, 14h44

Originalmente postado em http://marjorierodrigues.com/?p=129*

Caros colegas jornalistas,

JÁ DEU arranjar musa para tudo, né? É a musa da Flip. A musa da posse presidencial. A musa da Copa do Mundo de Futebol Feminino. A musa do movimento estudantil brasileiro. A musa do movimento estudantil chileno. E por aí vai.

Só não elegem musas para as tragédias e notícias ruins porque ainda resta um tiquinho de noção correndo em suas veias. Mas do jeito que a banda toca, não me surpreenderia se pinçassem uma desabrigada bonita para musa do próximo tsunami. Ou uma professora bonita para a próxima vez que um maluco invadir uma escola atirando em todo mundo. Vai vendo.

Nada contra reparar que as pessoas são bonitas. Não há nada de errado nisso. Reconhecer a beleza é automático, sentir-se atraído pelo belo é mais automático ainda e todos nós o fazemos o tempo todo. Marcela Temer, a goleira Solo e a deputada Manuela D’Ávila são mesmo muy belas. Mas olha, querido jornalista, você pode não escrever uma matéria como se fosse um adolescente de 12 anos cheio de hormônios, sabe.

Primeiro, porque, por mais que o seu vaidoso coraçãozinho se regozije ao ver o próprio nome assinando as matérias, a maioria esmagadora dos leitores não liga a matéria do jornal a você. Sorry. Para ele, não é o Fulano de Tal que o está informando, mas a Folha, o Estado, o Globo. Por isso existe manual de redação. Por isso existe linha editorial. A maior ilusão que um jornalista pode ter é achar que seu texto é autoral. Mas isso a gente descobre cedo, trabalhando. Sendo assim, quando você escolhe falar da copa, da posse ou da Flip como um adolescente de 12 anos cheio de hormônios, é como se o jornal fosse um adolescente de 12 anos cheio de hormônios.

Nossos coleguinhas do marketing vivem fazendo pesquisas para definir a identidade das empresas e suas marcas — dizem: “a manteiga X é percebida pelo público alvo como uma pessoa mais velha e experiente, do sexo feminino, que te conta os segredinhos das receitas”. Ou “a empresa X é vista como alguém do sexo masculino, com valores como eficiência, integridade e compromisso”. Então, querido jornalista, quando você escreve desse jeitinho hormonal 6a série B, você estabelece que o discurso do jornal tem um olhar masculino e heterossexual. Reflita: quando o jornal diz que Fulana tem “um charme irresistível” é irresistível a quem, cara pálida?

Agora, a que serve o jornalismo? A retratar o ponto de vista masculino heterossexual? Se você foi bom aluno na faculdade, certamente responderá que não. Por que você escolheu essa profissão? Com que propósito? Aposto um dedo mindinho que não era para personificar apenas um tipo de público.

Então tenha em mente que escolher musas para as notícias é MACHISTA. Afinal, cadê os musos? Cadê jornalista elegendo o muso da copa, da Flip, da posse? Homens bonitos existem por aí aos montes. Por que nunca são eleitos musos de nada? O meu olhar, de mulher heterossexual, não é assumido pelo discurso do jornal. O olhar da mulher lésbica também não. O olhar do homem gay também não. E nós também somos leitores e consumidores dos teus jornais. Sobretudo, nós também somos impactados pelo que decide publicar o seu jornal. Fazemos parte da mesma arena pública.

Se o argumento do olhar masculino não te convence, então eis a segunda razão por que ficar pinçando musas pra cobertura é machista. Isso reduz as mulheres envolvidas nas notícias à sua aparência física. Vamos voltar ao primeiro ano da faculdade, de novo. Aula sobre valor-notícia. Cão mordendo a velha, velha mordendo o cão. Lembrou? Pois então. A deputada é notícia porque é deputada. Ser bonita é um detalhe. É apenas uma parte do que ela é. A escritora palestrante da Flip é notícia por ser escritora palestrante da Flip. Se os demais palestrantes têm a cobertura centrada em suas obras e trabalhos, por que a escritora bonitinha tem que ter sua obra jogada em segundo plano na matéria, só porque é bonitinha?

Uma cobertura jornalística que se centra na beleza das personagens femininas envolvidas nas notícias trata as mulheres como deleites para o olhar primeiro, escritoras, políticas e artistas depois. Isso é redutor. Isso é desrespeitoso. É machista porque os homens são retratados como escritores políticos e artistas primeiro, bonitinhos (quando isso é mencionado) depois. Veja que a “musa da Flip” é classificada pelo Estadão como linda primeiro, e só depois erudita.

Pelamordedeus, vamos pensar nisso. Deixa pra comentar o quando a Solo é bonita na mesa do bar. Deixa pra bater uma punheta pra ela em casa. Vamos aprender a separar a hora de trabalhar e a hora da punhetação. Só isso.

Grata,

M.

* Marjorie Rodrigues, autora do texto e do blog Marjorie Rodrigues, é jornalista .

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