Uma questão de respeito, escolha e opinião

20/out/2011, 12h44

Contribuição enviada por Ella Oliveira (Campinas)

Certa vez ouvi numa palestra Marcelo Freixo dizer que algumas pessoas puxam tudo tão pra esquerda que acabam saindo pela direita.

A imagem acima fala de direitos a serem preservados. Na minha breve leitura é quase um “cuide da sua vida que eu cuido da minha”.

Tá bem, então vamos ao que interessa. Acho um cartaz simplista e irresponsável, beirando a alienação. Generaliza, pra não dizer banaliza, questões muito delicadas.

A impressão que tenho é que a pessoa entra numa onda de defender direitos sem entender nem questionar a essência das leis de proibição ou permissão.
Não que eu não concorde com algumas coisas, como o casamento gay, mas colocar outras questões no mesmo nível é muita falta de senso crítico.

Fico pensando se a pessoa que criou o cartaz realmente tem essa opinião assim como está exposta, sem tirar nem por.

Uma vida em sociedade exige regras, independente de qual seja a dinâmica desta sociedade. Senso crítico é quando você reconhece a necessidade de regras para viver em harmonia, sem se privar do direito de lutar por questões que garantam sua dignidade.

Sou heterossexual, fumante, não tenho filhos (mas nunca precisei de um aborto para não ter) acho necessária uma discussão acerca das drogas, não assisto filme pornô (no entanto assistiria sem problema se o roteiro rendesse uma boa história, afinal eu adoro cinema) bebo e não tenho armas em casa.

Apoio o casamento gay. A questão principal é o afeto. Essa escolha tem que ser respeitada, negar isso é negar dignidade a pessoas que querem ficar juntas por se gostarem. Se o estado é laico, por que a Igreja tem que impor seus valores? Não entendo!

Sou fumante, mas não fumo dentro de casa, essa escolha é minha e não de quem não é fumante. Saio de casa, fumo embaixo do guarda chuva. Enfim, a decisão foi minha.

O aborto ainda é para mim uma incógnita. Respeitar a vida é, no meu ponto de vista, ser responsável pelos nossos atos que podem impactar diretamente ou indiretamente na vida de outro ser humano, uma criança não tem que pagar por uma atitude impensada. Mas também não posso ignorar que mulheres pobres morrem em procedimentos mal sucedidos, enquanto as ricas o praticam com a segurança que o dinheiro pode pagar. Nesse caso sinceramente, não tenho uma opinião formada.

Acredito ser imprescindível uma discussão honesta e aberta sobre drogas, a criminalização só joga mais a margem quem precisa de ajuda, coloca monstros onde não existem, e tira o foco no real problema, que na minha opinião é a falta total de estrutura na vida de um viciado. Eu não usar drogas não impede que elas ainda continuem prejudicando, destruindo famílias e negando futuro pra quem já pensa não ter nada.

Quanto ao álcool, acho legítimo que uma lei proíba uma pessoa alcoolizada, mesmo que levemente, de dirigir. Isso protege quem não fez a escolha de beber de pagar pela escolha de alguém que se julga bom o suficiente para assumir um volante e colocar vidas em risco. E mesmo que seja apenas a vida do bêbado em questão a que estivesse em risco, eu ainda apoio a lei. Afinal essa pessoa com certeza tem família, e mais uma vez alguém vai pagar pela escolha de quem acha que é uma ilha.

Uma arma em casa não garante segurança. Garante talvez que uma criança ou adolescente, ou até mesmo um adulto desavisado invente de brincar com um revolver e a brincadeira acabe mal, garante quem sabe mais uma desgraça, numa briga de trânsito ou entre vizinhos.

Enfim, vi essa imagem pelo menos em três perfis de conhecidos no facebook e até agora não consigo acreditar que essas pessoas coloquem no mesmo patamar a busca da garantia por respeito às escolhas de parceiros e irresponsabilidade de dirigir embriagado.

Sugiro uma breve leitura e reflexão, antes de compartilhar tudo que aparece no facebook.

Bom, mas essa é só minha posição.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017