BBB e o machismo nosso de cada dia

16/jan/2012, 22h15

* Paula Kaufmann

Define-se reality show como um programa de TV que se baseia na vida real. Pois bem, Big Brother Brasil cumpriu com o papel de mostrar a realidade que as mulheres vivem cotidianamente. Neste fim de semana, em uma festa da casa, um dos participantes que, segundo relatos, tentava ficar com todas as participantes do programa a qualquer custo durante a noite, abusou de uma das participantes. Monique havia bebido demais e estava praticamente inconsciente em sua cama quando o sujeito se deita ao lado dela embaixo do edredom e passa a fazer movimentos claramente sexuais com a menina que aparenta estar desacordada. Transtornada e sem lembrar o que aconteceu, a moça passou todo o dia seguinte tentando entender o que havia acontecido, enquanto o rapaz apenas dizia que foram alguns beijos e mãos aqui e ali. A Rede Globo (a mesma emissora que vê graça em quadro de comédia de abuso sexual em metrô) vem fugindo da responsabilidade, dizendo que nada aconteceu. O âncora do BBB, Pedro Bial, acha que o caso é uma linda história de amor.

Com a grande repercussão do caso, ouvimos comentários como “quem mandou beber tanto” ou “a menina deveria se comportar melhor” ou ainda “quem mandou ser maria chuteira”. A culpabilização da vítima é recorrente nos casos de estupro e deve ser combatida. É comum vermos a vida sexual e o comportamento das vítimas de estupro e abuso sexual serem questionados já que se estabelece como ideal o comportamento assexuado, puro e dócil para a mulher. Quando se foge a esse padrão a culpa da violência é atribuída, nem sempre inteiramente, mas pelo menos parcialmente à mulher. Ela que não deveria ter bebido demais. Ela que não deveria usar uma roupa curta. Ela que não deveria andar pela rua escura. Como as Marchas das Vadias ao redor do mundo mostraram em 2011, a roupa que usamos não é um convite, o nosso comportamento não é o culpado. A culpa é do agressor. A culpa é do machismo com que somos obrigadas a conviver diariamente.

Casos de estupro de vulnerável (que é crime, segundo o Código Penal) acontecem cotidianamente. Casos como esse, veiculado em rede nacional e ainda acobertados pela emissora reforçam que abusar do corpo de mulheres que não se encontram em estado de possível reação é uma atitude tolerável e que passa impune.
Acaba de ser anunciado ao vivo no programa que Daniel foi expulso do reality show. Essa é uma vitória da luta contra o machismo dando o exemplo de que atitudes como essa são inaceitáveis e não podem passar impunes! No entanto, a eliminação do participante era a mínima atitude que a Rede Globo deveria ter. A responsabilização de Daniel pelo crime que cometeu em rede nacional bem como da emissora devem ser garantidas o quanto antes para que não se reproduza a impunidade dos agressores em casos de violência contra a mulher, como vemos cotidianamente. A Globo é uma emissora de alcance nacional e por isso deve ter responsabilidade social com o conteúdo que veicula e não atender os interesses dos grandes conglomerados econômicos que mantêm financeiramente o canal. Atitudes como a de Daniel são também resultado de um conteúdo constantemente veiculado pela Rede Globo que objetifica e reifica o corpo da mulher.
Ao contrário do que disse Pedro Bial ao anunciar a eliminação de Daniel, o show não deve continuar. Exclusão do programa não basta! Exigimos que os culpados sejam responsabilizados e que a reprodução de valores machistas não siga sendo encarada com naturalidade. O combate a esse tipo de atitude deve ser firme e inflexível. Não toleraremos nenhuma violência ou abuso! Pela autonomia de nosso corpo!

Paula Kaufmann é estudante de Ciências Sociais na USP e militante do Juntas! – A luta das mulheres muda o mundo!