Pinheirinho: Relato dos sentidos

24/jan/2012, 14h11

* Andreia Bianchi

O relato que segue foi feito em tempo real, a partir do que sentia enquanto caminhava e observava o que acontecia. O texto está um pouco caótico, mas também reflete o caos da situação.

22 de janeiro de 2012.
Arredores de Pinheirinho, São José dos Campos, São Paulo.

São 21 horas. Estão todos nas ruas, na frente de suas casas ou aglomerados nas esquinas. Ouve-se alguns barulhos constantes: o murmurinho das pessoas conversando, desconfiadas e apreensivas, o helicóptero que sobrevoa as casas com um intenso holofote, bombas estourando não muito longe.

Estilhaços de vidro, tijolos quebrados, pedras, restos de bombas, chinelos arrebentados. Dois carros tombados e queimados.

Um carro da tropa de choque passa e as pessoas correm. Uma família de seis ou sete pessoas passa, todos carregando sacos de lixo cheios de roupas, se questionando para onde ir.

De longe vejo o cerco policial em torno de Pinheirinho. “Um recém nascido morreu, sufocado por uma bomba de gás lacrimogêneo. O policial tacou a bomba do lado da mãe, que segurava a criança no colo”. As famílias foram todas removidas. Uma parte delas está em grandes tendas montadas pela polícia, onde ocorre um cadastramento. Outra parte delas perambula pelas ruas rumo a igreja, onde ocorrerá uma reunião. Alguns moradores nos levam até lá.

A rua que margeia a igreja foi fechada por uma linha de fogo. Agitação, correria, explosões! Passou.

Na igreja chegam muitas famílias. A maioria com roupas, outras ainda trazem alguns alimentos, além de cachorros, gatos e algumas galinhas. Avisto uma família ao lado de uma carroça que carrega uma moto e algumas malas. Alguns poucos informes são dados no carro de som estacionado no pátio da igreja. Passam três viaturas da PM com muita velocidade, algumas pessoas correm. Uma confusão que tenta se organizar aos poucos.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, o que está acontecendo e muito menos o que vai acontecer. Disseram que estão oferecendo às famílias removidas alguns alimentos e passagens de ônibus para fora da cidade. Nas tendas também estão sendo separadas as mulheres e crianças de seus maridos e pais.

As pessoas não param de chegar. Agora todas, sem exceção, trazem malas. Muitas também entram com carrinhos de bebê.

Um carro da guarda municipal passa com a sirene ligada. Muita correria, tiros. As pessoas se escondem próximo aos muros da igreja. Silêncio. Correria mais uma vez. Um carro da guarda municipal para em frente a igreja. Silêncio. A mínima movimentação da polícia gera correria e desespero. Um dos líderes passa algumas instruções no carro de som para evitar o pânico e enfrentamentos desnecessários. O padre também fala.

Muitas viaturas passam com velocidade. Um carro da polícia rodoviária federal traz um representante da secretaria nacional de direitos humanos. Muitos aplausos e assovios. “De que adianta a gente ficar feliz agora se amanhã não tem onde dormir?”.

As pessoas andam de um lado para o outro, sem rumo, desconfiadas, cansadas, mas ninguém dorme. Duas bombas explodem não muito longe da igreja. O helicóptero voltou a fazer sobrevôos. O holofote ofusca minha visão por alguns segundos. “Tinha que fuder com essa juíza”.

O tempo vai passando, a maioria das pessoas, agora, estão sentadas. Tentam começar a se organizar para passarem a noite ali.

23 horas. Tenho que voltar para São Paulo. Muit@s companheir@s ficarão em São José. Haverá ato no centro da cidade no dia seguinte. E a guerra está só começando.

* Andreia Bianchi é estudante de Geografia na USP e militante do Juntos!

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