O que representa a censura ao twitter para os revolucionários?

09/mar/2012, 20h54

*Por Marcello Barra

O ato da Advocacia-Geral da União (AGU) em relação ao twitter da lei seca é de censura à liberdade de expressão e à inovação. O impacto se dá sobre a possibilidade de democracia e desenvolvimento econômico. Concretamente, tenta-se censurar a internet, tornando ilegal o que é legal, colocando-se uma sombra de semi-legalidade sobre o conjunto do conteúdo da rede.

A medida da AGU não está isolada da realidade internacional. A censura que a AGU tenta, como órgão da Administração e, portanto, com baixo grau de legitimidade democrática, impor à sociedade está no contexto do SOPA, a chamada “Lei de Combate à Pirataria Online”, nos EUA, do ACTA, o “Acordo Comercial Anticontrafação” e da prisão de Julian Assange, do WikiLeaks. De modo desigual, no Brasil, a ação é capitaneada pelo ex-senador, reeleito depois apenas como deputado, Eduardo Azeredo (PSDB).

Há duas contradições centrais no caso da censura ao Twitter: limitar o avanço da produtividade da economia no meio da crise do capitalismo e o avanço da maneira como o homem produz sua vida, com retrocessos nas relações entre os homens, como este representado pela AGU.

Em primeiro lugar, os maiores defensores dessa tecnologia são as empresas de telecomunicações e de redes sociais, como o Twitter, que são justamente os setores econômicos que mais crescem de valor na bolsa de valores e mais ampliam a produtividade da economia. A velha mídia burguesa e os porta-vozes do neoliberalismo falam muito em inovação tecnológica (exclusivamente para o mercado), inclusive defendem as empresas fisicamente dentro das universidades, e com isso criaram outra lei, que essa mídia tradicional chamou de “Lei do Bem”. Mas, quando surgem inovações pela própria dinâmica do desenvolvimento econômico do capitalismo, pretende-se proibi-las. Em segundo lugar, os setores que mais criticam o avanço das tecnologias da informação e comunicação (TICs) são justamente aqueles que têm os maiores prejuízos e vêem seus modelos de negócio se mostrarem inviáveis, ou seja, as empresas da velha economia.

Essa contradição, somada à perseguição à liberdade na internet que os governantes e poderosos empreendem, revela algo muito maior: a ameaça que a internet representa ao monopólio do poder do Estado. Em outras palavras, o medo do Poder Dual. Todas as revoluções da história dividiram o Poder, constituindo-se a dualidade do Poder, ou seja, destrói-se o monopólio do Estado, com seus aparelhos ideológicos. As revoluções começam a surgir quando se derruba tal monopólio.

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Com a construção da lei ocorrendo de uma maneira nada legítima para a democracia, através de um órgão da Administração, a AGU, é ainda mais necessário se perguntar para que e a quem serve a lei, em outras palavras, a lei está a serviço de quem? Se a lei é feita pelos homens, então a quem a lei vai beneficiar e prejudicar? A Lei deve impedir o desenvolvimento tecnológico ou o desenvolvimento social? Por que se discute a criação de uma nova legislação e não se debate a fiscalização e cumprimento de outras leis do trânsito, como o respeito à sinalização, setas, faixas de pedestre, semáforos? Por que se prefere discutir algo que cerceia a liberdade?

Se os cânones da academia (burguesa) não conseguem mais responder à realidade, dever-se-ia punir a realidade? Ou a formação que suporta os homens da Lei se tornou obsoleta para este mundo? Ou mesmo os conteúdos que a universidade transmite à sociedade foram ultrapassados pela velocidade da história?

Há um avanço da tecnologia, que muda o modo como o homem produz sua vida. No entanto, quer se limitar e proibir esse avanço da tecnologia, ao invés de se avançar na compreensão do fenômeno objetivo. Há, portanto, um problema central na geração de conhecimento. O surgimento das redes, bem como a censura delas, está situado no campo das tecnologias e do saber. Portanto, fazer a reflexão sobre a censura ao twitter da lei seca é usar a arma da crítica em relação à geração do conhecimento e à formação dos homens. Mais: trazer o conhecimento gerado pela classe trabalhadora para a própria classe. Apenas assim se pode dar o salto da classe em si à classe para si, isto é, se pode alcançar a liberdade e a emancipação.

Deve-se recorrer ao maior autor “esquecido”, negligenciado, escondido mesmo (Freitas, 2005; Robaina, 2011). Aquele que precisa ser “resgatado” é Vladimir Ilich Ulianov, o Lenin. Maquiavel é o grande pensador da união italiana, mas era tão somente um conselheiro do Príncipe. O avanço do processo histórico levou a uma síntese do conhecimento com a ação. Lenin é essa personificação, o gênio da classe proletária que, além de intelectual, era político. A síntese entre saber e política.

As figuras clássicas no saber e na política são o filósofo-rei socrático e o político demagogo weberiano. Lenin representa a ruptura e a possibilidade da falência histórica desses dois tipos com o advento da revolução. É justamente a existência de Lenin que demonstra a possibilidade da mudança. Lenin é a revolução. Todavia, a genialidade de Lenin tem estado hoje sob o monopólio político da direita e da classe burguesa. Como pode ser usado por pessoas como Sarney e não constar nas bibliografias da universidade? Como que pode Lenin não ser lido pela juventude e pelos trabalhadores? É um verdadeiro crime de lesa-humanidade o gênio da classe trabalhadora ser escondido da própria classe!

Avanços no cerceamento a liberdades, tolhendo-se o que há de democracia formal, resultado de séculos de luta dos trabalhadores, levantam o questionamento: vivemos em uma democracia de verdade? @s indignad@s da Espanha, que no dia 15 de outubro de 2011 se internacionalizaram com manifestações em 89 países, dizem que não. Por isso, a palavra de ordem da geração da internet livre é Democracia real já!

* Marcello Barra é sociólogo e militante do PSOL

Bibliografia

FREITAS, Francisco Máuri de Carvalho. Lenin e a educação política: domesticação impossível, resgate necessário. Tese (doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Campinas, 2005. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?down=vtls000349343&idsf=>. Acesso em: 22 nov. 2011.

ROBAINA, Roberto. Em defesa do leninismo: algumas considerações sobre a teoria da revolução em Lenin. Rio de Janeiro: Fundação Lauro Campos, 2011. Disponível em: <http://www.socialismo.org.br/portal/filosofia/155-artigo/2157-em-defesa-do-leninismo>. Acesso em: 22 nov. 2011.

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