Juntos! por um movimento estudantil diverso e sem armários

27/nov/2012, 12h11

Entre os dias 15 e 20 de novembro o Juntos! esteve em Seropédica-RJ, no Encontro Nacional Universitário sobre Diversidade Sexual (ENUDS). O encontro está na sua décima versão e reuniu cerca de 600 lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e, completando a diversidade, heterossexuais para debater sobre “Práticas de enfrentamento e resistência: corpo, política, discurso e poder”.

Neste encontro podemos aprofundar o debate em torno do direito ao próprio corpo e do seu uso como um campo de batalha contra o conservadorismo e as opressões presentes em nossa sociedade, até mesmo nas universidades e em seu principal movimento, o estudantil. No mesmo fim de semana 1,5 milhão de pessoas estiveram presentes na Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, onde corpos e práticas afetivas foram expostos como enfrentamento à homofobia, que infelizmente foi reproduzida no mesmo dia em Pernambuco com a morte de Lucas Fortuna, militante LGBT.
A cada momento e em cada espaço que vivemos somos obrigados pela sociedade capitalista a agir e pensar de uma única forma possível. Se nascemos com um pênis, devemos brincar de carrinho, vestir azul, coçar o saco, jogar futebol e gostar de mulheres. Se nascemos com uma vagina, brincamos de boneca, usamos rosa, não jogamos bola, no máximo queimada, e devemos gostar de homens.

Quando o tema é o corpo humano, esse determinismo se mostra mais autoritário e inflexível. O padrão de beleza hegemônico impõe que mulheres adquiram peitos e bundas de silicones cada vez maiores e que homens malhem para deixar seus músculos definidos e sem nenhuma capa de gordura. Em contrapartida a sociedade condena a mulher que ousar decidir pelo seu próprio corpo, negando a ela o direito ao aborto e ridiculariza a negra e o negro que resistir em alisar ou raspar seu cabelo. Cirurgias plásticas e outras intervenções médicas sobre as genitálias são amplamente utilizadas pela medicina e aceitas pela sociedade, exceto se estas tiverem a intenção de alterar o “sexo” da mulher ou do homem em questão.

Esses dois pesos e duas medidas revelam como a sociedade atua controlando corpos e mentes, esvaziando ambos de qualquer subjetividade. A lógica capitalista tem aprofundado as opressões ao reduzir homens e mulheres a meros objetos, imprimindo a lógica do consumo nas relações sociais afetivas. Nosso corpo deve ser padronizado para estar de acordo com as antigas opressões: como se movimentará, para onde irá, se permanecerá vivo por mais tempo.
Entretanto, na ousadia de vestir uma roupa tida como do sexo oposto, de se mover como deveria se mover o corpo do sexo oposto até a ousadia de um homem ao colocar silicone a fim de produzir seios, ou mesmo de mulheres ao retirá-los, surge a transformação do corpo, agora não mais como objeto, passivo, mas com subjetividades, individualidades, afirmando assim o que a sociedade insiste em negar: somos donos do nosso próprio corpo.

A máxima “meu corpo, minhas regras” tem sido negada mesmo nos espaços mais progressistas, como a universidade. A comunidade universitária praticamente não é composta por homens e mulheres transexuais e travestis, uma vez que estas mal conseguem terminar o ensino fundamental, tamanha a opressão que sofrem e até mesmo o movimento estudantil carece de representação LGBT. A isso se soma a ausência de debate institucional e por parte do movimento de temas envolvendo diversidade sexual e de gênero, mantendo o ambiente intolerante, homofóbico, de tal forma que o movimento estudantil e a convivência no ambiente universitário também são espaços opressores a quem se assume diverso.

Com isso está colocada a necessidade das LGBTs da universidade de se voltarem para este espaço, problematizá-lo, criticá-lo, a fim de que possamos construir uma universidade plural, defendendo um movimento estudantil para todas, de fato. Devemos encarar o ENUDS como um espaço onde, reunidas, podemos nos formar, mas também nos auto-organizar.

Para defender universidades públicas, gratuitas, democráticas, com qualidade, para todas e todos, é necessário que as universidades façam o debate sobre a diversidade e assumam para si a responsabilidade de levá-lo para além dos seus muros. A revolução na forma como pensamos nossos corpos dentro e fora da universidade passa pela auto-organização das LGBTs, da sua luta no movimento estudantil e fora dele, contra o capitalismo, por uma sociedade libertária de verdade.

Se você é estudante univesitário em São Paulo, venha para nossa reunião, debater a necessidade de organização das LGBTs para conquistar nossos direitos:

LGBTs por Nenhum Direito a Menos

08/12, sábado, às 14h

Faculdade de Saúde Pública da USP, Avenida Doutor Arnaldo, 715, Metrô Clínicas.

Chamamos também a participarem do III Acampamento Estadual do Juntos-SP, que discutirá a luta LGBT ao redor do mundo e diversas outras iniciativas da juventude em luta em 2012. Será nos dias 25, 26 e 27 de janeiro! Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/447980871925955/