Olho por olho, dente por dente e o mundo acabará cego e banguela

21/nov/2012, 10h08

Cleiton Monteiro*

A política, claramente militar, adotada pelo governo do Estado de São Paulo para lidar com os “problemas” de ordem social começa a engendrar seus reflexos. Quem não se lembra da ação para retomada do campus da USP em nome de um moralismo ridículo e ultrapassado? Quem não se lembra da ação direcionada aos dependentes químicos da “Cracolândia”? Quem não se lembra da ação que expulsou covarde e impiedosamente os moradores de pinheirinho?

Em todos esses casos de naturezas não muito distintas as soluções que raiaram no horizonte tucano foram as mesmas: Policia neles! Engraçado como, mesmo vivendo numa “Democracia”, os problemas de ordem social são tratados como assunto do Y° Batalhão de Policia. Temos, com essa politica, um Estado que, em vez de garantir o Bem-Comum, garante a Vala-Comum da sociedade civil. Como comprovar tal afirmação? Simples, vou usar um pouco da minha curta trajetória politica para explicar. Eu e alguns com alguns ilustríssimos amigos estivemos em Pinheirinho poucos dias antes da operação militar que desocupou o bairro de São José dos Campos. Foi um período de tensão, pois nós e os moradores não tínhamos quaisquer informações sobre o futuro do bairro que, dias depois, viria a ruína.

O que eu e meus amigos presenciamos em pinheirinho jamais será esquecido. Famílias inteiras estavam sem saber para onde iriam, as crianças vagavam entre os adultos com uma expressão de dúvida e medo ao mesmo tempo em que empunhavam pedaços de ferro e madeira com os quais protegeriam suas casas dos invasores [a policia]. Pois bem, faremos agora, para dar inicio a conclusão da tese acima colocada, um exercício de imaginação: imaginemos que entre as 9 mil pessoas desapropriadas, covardemente pela policia em pinheirinho, houvessem 05 crianças de 12 à 15 anos de idade que presenciaram a ação policial e cujos parentes têm envolvimento com o crime. Como o que propus é um singelo exercício de imaginação, continuemos: Imaginemos, ainda, que essas 05 crianças, após certo período, optem pelo mundo do crime e “filiem-se” ao PCC (Primeiro Comando da Capital). Pois bem, para que saibamos resultado de nosso exercício de imaginação basta ligar a tv em algum telejornal e apreciar as noticias:

– “PM é executado com 10 tiros.”

– “Cidades convivem com toque de recolher.”

– “Soldado é assassinado ao voltar do trabalho.”

– “Cresce o número de policiais mortos em confronto com traficantes.”

As crianças que presenciam diariamente a ação da policia nas favelas são marcadas para sempre com uma imagem comum: A policia destrói, humilha e mata. As outras crianças, filh@s dos policiais mortos são marcad@s com outra imagem comum: O crime destrói, humilha e mata.

A politica militarizada do governo do Estado de São Paulo acaba por fomentar o ódio entre pessoas e instaurar cada vez mais uma guerra civil no seio da sociedade. Pessoas que pertencem a mesma classe, a classe dos não-proprietários e que, por conta das mistificações cotidianas, pensam estar de lados opostos. São, estas pessoas, os policiais e classe trabalhadora. Não acredito que o problema da criminalidade resolver-se-á do dia para noite, mas acredito que uma politica mais humana e menos militar já seria um grande avanço para a solução do problema. Pois, só uma politica mais social e menos militar será capaz de permitir que alcancemos algum patamar considerável de segurança que apenas será pleno com o fim da propriedade privada e o triunfo da educação. Até lá, caso nossos governantes continuem com essa ideia de tratar o problema dos menos favorecidos com a policia, o futuro que teremos será, sem sombra de dúvida, cego e banguela.

*Cleiton Monteiro é estudante de direito da FACAMP e militante do  Juntos! Campinas