Para que nossas saias continuem rodando

22/nov/2012, 15h14

 Frederico Sosnowski*

Eu não cheguei a conhecer o Lucas Fortuna, nem suas saias, que rodeavam pelos encontros universitários, provocando a desconstrução dos padrões impostos por nossa sociedade, mas reconheço o impacto que uma má notícia pode causar… As falas do diálogo se tornam pausadas, a respiração profunda ocupa o lugar dessas falas e, então, um silêncio torturante explode após a despedida e o final da ligação. Retornávamos da 17ª Parada do Orgulho LGBT, em Copacabana, para Seropédica – local onde ocorria o Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual – quando o telefone tocou e tudo ficou silencioso.

Dias antes lembrávamos o ocorrido na Avenida Paulista, durante a manhã de 14 de novembro de 2010 e, subindo as escadas do alojamento, me deparei com o cartaz abaixo, sobre a Lei 16780/02 de Recife, 40 quilômetros distante de Cabo de Santo Agostinho.

Eu não conhecia o Lucas e suas saias, mas poderia conhecer! Sempre penso em meus amigos quando chegam estas dolorosas notícias, sempre espero que não sejam meus conhecidos e sempre torço para que estes crimes acabem e sejam punidos! Em 2011, 266 LGBT foram assassinadas no Brasil em razão de sua orientação sexual (lésbica, gay ou bissexual) ou identidade de gênero (travesti e transexuais), outras inúmeras LGBT sobreviveram a violências de todo tipo: apanharam e foram insultadas pela própria família, foram expulsas de casa, foram vítimas de violência na escola, não foram promovidas ou não foram empregadas no trabalho, muitas LGBT foram maltratadas em lojas e restaurantes, foram impedidas de utilizarem o banheiro conforme sua identidade ou passaram por situações vexatórias por fazerem um carinho na parceira ou parceiro ou por se portarem de modo afeminado/masculinizado, algumas chegaram a se suicidar.

Apesar de tanta homofobia, somente 79 dentre 5565 municípios possuem alguma legislação de combate à homofobia, e tudo indica que os números no relatório do GGB (Grupo Gay da Bahia) serão ainda maiores para 2012 e que mais pais e mães perderão suas filhas e filhos, outros perderão suas irmãs e irmãos, seus colegas de estudo ou trabalho por conta da intolerância.

A luta LGBT é a mesma luta de todos os outros grupos oprimidos: por cidadania plena e respeito. As LGBT querem ser tratadas iguais a qualquer outra pessoa, poder casar, ter tratamento de acordo com sua identidade de gênero e receber proteção legal contra as agressões sofridas em uma sociedade que ainda não respeita as pessoas, impondo segregação de cidadãos, calando e matando. E, partindo da situação atual, nos vemos cada vez mais frios e duros, nos tornando inertes às coisas que passam ser corriqueiras: matar/espancar um gay na Paulista; botar fogo num índio; maltratar/reclamar/não tratar de um idoso subindo no ônibus/na fila banco/no atendimento do hospital; espancar uma mulher; abandonar uma criança…

Eu não conheci o Lucas Cardoso Fortuna, como já disse, mas deveria ter conhecido! Os relatos de quem o conheceram dizem de alguém combativo, que acreditava nos seus ideais, que sonhava com um mundo melhor e mais justo e lutava pela criminalização da homofobia. Nesse sentido torna-se tão urgente a aprovação do PLC 122, para que assassinos, espancadores, quem comete injúria e outros desrespeitos tenham sua punição garantida por homofobia e não precisemos mais perder outros Lucas, Fernanda, Wagner, Mônica, Marcos, Melissa, Lucio, Sara, Vinicius, Rayza, Luan…

Para que nossas saias continuem rodando, a Junt@s! Pelo direito de amar convida a todas a estarem presente no ato contra a homofobia.

LUCAS FORTUNA, PRESENTE! Ato contra a homofobia e pela aprovação do PCL 122

24/11, este sábado

Às 14h no vão do MASP, São Paulo

https://www.facebook.com/#!/events/218805188253069/

Frederico Sosnowski é geofísico, estudante de Transportes e militante do Junt@s Pelo Direito de Amar*

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017