No país dos indignados, Juntos constrói o I Acampamento Internacional da Juventude

04/jan/2013, 20h57

*Pedro Serrano

DSC03311Ainda nos últimos dias de 2012, estive em Madrid, na Espanha, acompanhando a forte mobilização social que se passa no país e construindo o I Acampamento Internacional da Juventude Anticapitalista. Hoje, a Espanha é um dos países que mais sofre com a crise econômica mundial. A economia está em recessão, o desemprego dispara e, em resposta a isso, o governo do país aplica duras medidas de austeridade. Enquanto os bancos e os grandes capitalistas recebem a ajuda do Estado, a grande maioria da população sofre com aumento de impostos, redução dos salários e precarização dos serviços sociais. Assim como em Portugal e na Grécia, o governo espanhol se utiliza da crise para desmantelar o Estado de bem-estar social conquistado a duras penas pelos trabalhadores do país.

As respostas a isso por parte do povo têm sido muitas. Há menos de 2 anos, foi nas praças da Espanha, e em especial da capital, Madrid, que surgiram uma série de novos movimentos contestatórios que inspiraram a mobilização da juventude em todo mundo. Os “indignados” espanhóis, a partir do histórico dia 15 de maio de 2011 (o 15-M), passaram a ser o símbolo de um novo período histórico que estamos vivendo. Com a exigência de “Democracia Real Já” e a atuação arrojada de uma juventude que se autodenomina “Sem Futuro e Sem Medo”, deixaram claro que capitalismo é incompatível com democracia, e que a única maneira de superarmos essa situação é através da política e da reapropriação dos espaços públicos. O novo, a indignação e o combustível para a construção de outro futuro estão sem dúvidas surgindo das praças da Espanha.

A crise, a austeridade e as “mareas” dos 99%

A crise na Espanha surgiu após um período de bonança econômica no país. Ainda há pouco tempo, o consumo crescia, havia empregos e as famílias se endividavam, acreditando em um futuro feliz dentro do próprio capitalismo. Esse crescimento, no entanto, não foi sustentável, e esbarrou na crise que hoje vive o país. O modelo de crédito, sobretudo no setor imobiliário, ruiu. Hoje, centenas de milhares de famílias, vítimas da especulação imobiliária, já não têm condições de pagar as prestações de suas casas, e são despejadas. Os governos e os bancos, impiedosamente, roubam as casas das pessoas e ainda as obrigam a continuar pagando duas “dívidas”.

As respostas do povo espanhol às políticas de austeridade aplicadas pelo governo de Mariano Rajoy vêm de todos os lados. Pelo país, se espalham as chamadas “mareas”, as marés em defesa dos direitos sociais básicos. A “Marea Verde”, um movimento pela educação pública, somente em 2012 realizou 12 jornadas de greve no país. A Marea Blanca, pela saúde, tem ganhado cada vez mais força diante da ofensiva privatizante do governo na área. Os funcionários do metrô e dos transportes paralisaram suas atividades aos menos uma vez por semana ao longo dos últimos meses de novembro e dezembro. E, unificando todas essas frentes, duas greves gerais aconteceram na Espanha no ano passado, nos dias 29 de março e 14 de novembro.

Somente no período de 3 dias em que estive em Madrid, deparei-me com 3 atos de rua. O primeiro, de trabalhadores do sistema de rádio e televisão, em oposição à demissão de mais de 900 funcionários da empresa. O outro de um movimento em oposição aos despejos familiares pelo não pagamento das hipotecas. E, por fim, um ato de milhares de jovens em frente ao palácio do governo de Madrid, na Praça Puerta Del Sol, exigindo a liberdade imediata do ativista “Alfon”, preso na greve geral do 14-N. No ato organizado pela Plataforma dos Afetados pela Hipoteca (PAH), aproximei-me de uma senhora, que tinha cerca de 60 anos, e perguntei-lhe: “isso tudo acontece por causa da crise?”. Ela, em resposta, foi clara: “Não, não é a crise. É o roubo. O governo nos rouba, os bancos nos roubam. Na saúde, na educação, na moradia, em tudo.”.

A força da juventude, a falência da partidocracia e a necessidade de uma nova política

DSC03190Mas é sem dúvida da juventude que surgem as mais intensas e radicais respostas à crise. Os movimentos “Juventude sem Futuro” e “Democracia Real Já” movimentaram milhões de jovens em toda a Espanha. E não à toa: hoje, 50% dos jovens espanhóis não têm emprego. Dos poucos que arrumam ocupação, a grande maioria é obrigada a trabalhar em condições precárias. 6 em cada 10, entre 18 e 30 anos, continuam vivendo com os pais, dependendo deles financeiramente. Muitos emigram. Toda uma geração se vê alijada de seu direito ao futuro. Os projetos de vida e os sonhos são cada vez mais inatingíveis, por conta de um sistema político e econômico que coloca os mercados e o capital na frente das pessoas.

Além da ditadura dos mercados, esses jovens se insurgem contra a chamada ditadura do “bipartidarismo”. Os principais partidos do país, PP e PSOE, revezam-se no poder e se igualam cada vez mais na aplicação da austeridade. Até o fim de 2011, o presidente do Governo era José Luis Zapatero, do PSOE. Agora, é Mariano Rajoy, do PP. E a situação continua a mesma. O rechaço à partidocracia no país é gigantesco e evidencia o fato de, atualmente, o capitalismo transformar as próprias instituições políticas do Estado e os grandes partidos do regime em correias de transmissão dos seus interesses. O esvaziamento da política institucional tem como contrapeso, por parte da juventude, a prática radicalmente democrática predominante nas praças e nas assembleias.

 A construção do I Acampamento Internacional da Juventude e as lições para o Brasil

DSC03216Mergulhado nessa atmosfera, encontrei-me com Raul Camargo, da executiva nacional da Izquierda Anticapitalista, no dia 28 de dezembro. Boa parte das reflexões que apresento é resultado da rica conversa que pude ter com ele. Entreguei-lhe nosso jornal do Juntos! e estendi à Esquerda Anticapitalista o convite para nosso I Acampamento Internacional da Juventude. O companheiro, além de manifestar disponibilidade de participação, convidou-nos também para um acampamento de jovens da IA que acontecerá em agosto de 2013 em Madrid!

A iniciativa do I Acampamento Internacional da Juventude — construído pelo Juntos, do Brasil, Marea Socialista da Venezuela, MST da Argentina e La Lucha Continua do Peru — é fundamental no sentido de elaborar sínteses acerca do novo período histórico que vivemos, nos preparando para as lutas que já existem e para as que virão. Para a juventude brasileira, em especial, as lições são muitas. Somente no caso espanhol, os paralelos que podem ser feitos são vários. O período de crescimento econômico baseado no crédito e de forte especulação imobiliária, que antecedeu a crise espanhola, por exemplo, deve nos servir de alerta no atual período brasileiro. O desgaste da grande política e a falência dos principais partidos, igualmente. E, assim como na Espanha, os jovens no Brasil são também privados de seu direito ao futuro, sobretudo os que moram na periferia e a juventude negra. A saúde pública, a educação, os transportes e demais direitos sociais, agora retirados dos espanhóis, no Brasil nunca sequer chegaram a sair das páginas da constituição. E nossa juventude, em resposta a isso, foi e continua sendo protagonista de resistência e luta.

Está claro que somos afetados por um sistema que se articula mundialmente. A ditadura dos mercados e dos “políticos” é a consequência de um modelo de sociedade desigual, individualista, injusto e opressor, incapaz de estabelecer a democracia real. Por isso, é principalmente o exemplo da luta da juventude espanhola que deve estar em nossas cabeças. Uma luta que coloca na ordem do dia a política e a reocupação dos espaços públicos. De maneira radical, anticapitalista, democrática e sem medo.

Estive em Portugal e Espanha como parte do esforço do Juntos! na construção de nosso Acampamento Internacional. Convido a todas e todos que querem construir uma alternativa para a juventude no Brasil e no mundo a somar-se a nós, de 28 a 31 de março, em Buenos Aires. Além disso, o Juntos! realizará atividades preparatórias. Em São Paulo, nos dias 25, 26 e 27 de janeiro, realizaremos nosso III Acampamento Estadual, em que estarão presentes todas essas discussões, organizaremos nossas lutas para 2013 e prepararemos nossa caravana para março. Saiba mais sobre o Acampamento Estadual aqui.

*Pedro Serrano é militante do Juntos-SP. Em dezembro, esteve em Portugal e na Espanha, acompanhando as mobilizações contra a crise e construindo o I Acampamento Internacional da Juventude Anticapitalista.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017