Como a cor não pega, mulata, Mulata eu quero o teu amor
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Como a cor não pega, mulata, Mulata eu quero o teu amor

é preciso acabar com o machismo vinculado à imagem da mulata no carnaval. E a divisão entre etnias para dizer quem é sensual, quem é que é pra casar e quem é só pra se divertir.

Cindy Ishida e Karolina Gusmão 11 fev 2013, 14:28

Cindy Ishida e Karolina Gusmão*

Todo ano, em volta da propaganda do carnaval, existe uma grande ideia de alegria, liberação dos instintos, do “tudo pode”. Mas o período é também marcado por muita violência. Impõem-se comportamentos, tanto para homens quanto às mulheres. Eles devem fazer valer à sua masculinidade e conquistar as mulheres. Elas devem ser coniventes com o comportamento masculino. Impõe-se um padrão de beleza, “o da Globeleza” – da mulata com corpo “de violão”, com curvas “nos lugares certos” e o mínimo possível de gordura. Para chegar nessas condições, muitas mulheres precisam passar por muitos exercícios, dietas e até inervenções cirurgicas. Mas e as próprias “globelezas”? São lembradas apenas nessa época, e valorizadas somente por seu corpo e sensualidade.

A mulata é a mistura do negro com o branco, são descendentes da negra escrava com o senhor descendente de europeu. Tendo tudo isso em mente, podemos retornar ao período colonial, onde só entravam na Casa Grande as negras mais bonitas, à quem eram designadas as tarefas domésticas e afazeres de concubinas. Mais perto do sinhozinho, aproximavam-se também dos desejos não satisfeitos, não só dele, mas também de seus filhos e netos. Eram vítimas de estupro e de muito assédio.

Atualmente, dizem que vivemos uma democracia racial, este mito é atualizado no carnaval, a mulher negra transforma-se em rainha, é desejada. Esta imagem carnavalesca da mulher mulata que é só peito, bunda e coxas é mera reprodução, machista e racista, de padrões comportamentais históricamente construídos, os mesmos que ditam que brancas e louras são angelicais e dignas de serem levadas ao altar enquanto as negras servem somente pra recreação, somente para o carnaval. O mito da mulata sensual é exportado para todo o mundo, reproduzindo essa ideia de que as mulheres negras são libertinas, sensualizadas ao extremo. Afinal, toda mulata deve saber sambar, não é? Ou vai negar a raça?

“A cor do pecado” é símbolo do carnaval pois continua sendo símbolo de tudo o que é profano, contraventoso e avesso a normatividade social vigente. A mulher “mistura de negro com branco” símbolo da dita pacífica miscigenação que o Brasil é modelo, mas que esconde uma série de preconceitos. No limite, a mulata é aceita no carnaval, onde tudo é permitido, porque também fazia parte do profano e proibido as relações entre senhores e escravas.

Infelizmente as consequencias dessa história são vistas até hoje, frequentemente assistimos homens que para manterem a reputação em seu círculo social cometem as maiores violências numa festa que devia trazer alegria para todos.

No fim das contas, o que se vê é que, para demonstrar a sensualidade, quem é o símbolo é alguém com curvas negras, mas também com alguma coisa meio branca. A negra segue não sendo aceita, a não ser como a fantasia da “Nega Maluca”, com um black power falso e toda uma vestimenta que lembra o ridículo. A branca, essa tem que estar em casa, nada de mostrar o corpo.

A Globeleza samba nua na casa de todas as famílias brasileiras moralistas, mas é um símbolo negro de cabelo alisado. A única vez no ano que parece que a beleza negra é finalmente abordada, ela não é apreciada por completo. A luta da mulher não se cala por que é carnaval, é neste momento que ela tem que se fortalecer ainda mais.

Cindy Ishida e Karolina Gusmão são militantes do Juntas e do Juntos! Nas Escolas de São Paulo*


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