Por uma escola de feministas

06/fev/2013, 13h22

Samara Castro*

Recentemente em Uberlândia foi criada a Escola para Princesa, uma instituição educacional para meninas entre 4 e 15 anos e que causou polêmica na cidade. Rapidamente já estava no Jornal local, nas mídias sociais e na boca do povo.
A escola tem como objetivo ensinar as meninas a serem princesas, ou seja, meigas, educadas e perfeitas. Elas aprendem a fazer sua maquiagem discreta e delicada, tomar chá e sentar-se a mesa com elegância, a usarem roupas adequadas. Aprendem a ter bons modos, a serem recatadas e a respeitarem o marido, a se guardarem para ele. Aprendem também as regras de etiqueta e a serem femininas. Além é claro do caráter e de comportamentos que estejam de acordo com valores éticos e morais. Mas acima de tudo a Escola de Princesas existe para ensinar os ditos princípios universais do que é ser mulher.
A criação dessa Escola para Princesas não poderia ficar de fora do nosso Jornal. Nós do Juntas! A luta das mulheres muda o mundo, acreditamos que essa escola apenas escancara uma realidade presente no dia a dia de nós mulheres: a padronização e comercialização de nossa beleza e a nossa submissão aos homens.
Nesse sentido, mais uma vez nós somos moldadas para servirmos da melhor maneira a sociedade que nos cria. Devemos ser recatadas e belas, com ar de inocência, sermos agradáveis aos olhos daqueles que nos veem. Nunca sermos melhores em coisas de homens, como dirigir ou jogar futebol. É importante sermos educadas e respeitarmos o marido, o pai, o chefe, o professor, eles são mais sábios e eles podem pensar por nós, afinal eles são homens e nós apenas mulheres.
Acreditamos que a existência de uma escola de princesas precisa causar incômodo e não parecer algo bonitinho. É importante que as meninas em especial nessa idade tenham a oportunidade e sejam incentivadas a escolherem como caminho de suas vidas a liberdade.
A Escola de Princesas reflete o pensamento machista de grande parte da nossa sociedade. Isso é, reforçando os estereótipos, incentivando a submissão da mulher, unificando gênero e sexualidade gerando pensamentos e colocações homofóbicas. As mulheres são submetidas a múltiplas violências – a maioria silenciosa – e veem seus movimentos de desejo paralisados, sendo restritas e territorializadas nos papeis de mãe e de esposa. Assim, a mulher acaba habitando a sombra do marido, sendo vista como um objeto de desejo que deve ser conquistado, como alguém que deve seguir um padrão, deve despertar o interesse do homem para, assim, poder se realizar afetivamente.
Em um modelo de sociedade patriarcal, em que o sistema masculino de opressão das mulheres permanece de forma disfarçada, uma Escola para Princesas só reforça esse disfarce mais ainda. A imposição de um padrão também é violência contra a mulher.
Nós do Juntas não acreditamos em contos de fadas, não vivemos em castelos encantados e não esperamos por nosso príncipe de cavalo branco. Não queremos aprender a nos sentar com postura ou mesmo a limpar com a pontinha do guardanapo apenas os cantinhos da boca para não tirar o batom. Queremos ser livres para nos vestirmos, nos maquiarmos, trabalharmos e escolhermos as nossas parceiras e parceiros sem nos tornarmos as bruxas más, que tem verruga no nariz por isso.
A luta das mulheres muda o mundo, e uma Escola para Princesas não é a mudança que queremos ver. Nós lutamos para que cada vez mais as mulheres e homens eduquem seus filhos e filhas dentro dessa perspectiva igualitária, sem barreiras construídas com base no preconceito e na falta de diálogo familiar. E que nas escolas e em todos os espaços as meninas e os meninos aprendam que o belo é ser livre e que o legal é aceitar as diferenças.
Lembrando que a criação da Escola para Princesas teve uma resposta nas reder sociais que foi a criação da Escola de Ogras. Uma excelente iniciativa bem humorada e bem consciente. Vale a pena dar uma olhada!

*Samara Castro é militante do Juntos! Uberlândia e do Juntas!

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