O retrato da paúra

01/maio/2013, 10h26

Daniel Serrano*

É tendenciosa a manchete publicada pela Folha de S. Paulo no domingo (28/4). No momento em que, impulsionado pela deficiente proposta do Pimesp (Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista), mais uma vez vem à tona o debate sobre a implantação de ações afirmativas no processo de seleção das universidades brasileiras, a Folha sai-se com uma manchete enviesada que radiografa com precisão o desespero de certo setor da sociedade ante a possibilidade de ver diluídos os privilégios de que historicamente sempre gozaram.

São dois, a meu ver, os equívocos da Folha: primeiro, o de produzir afirmações categóricas a partir de pesquisas escassas; o segundo, o de dar destaque desproporcional aos dados sobre desempenho eevasão dos universitários cotistas.

1. Para sustentar o título que estampa a primeira página (“Cotistas têm pior resultado entre universitários”), a reportagem evoca “estudos acadêmicos recentes” – plural correto, mas desonesto, pois que não passam de dois os trabalhos citados. Ao identificá-los, a Folha cita os autores, mas omite título e referência. O primeiro deles, suponho, é o artigo Cotas aumentam a diversidade dos estudantes sem comprometer o desempenho?, de Fábio D. Waltenberg e Márcia de Carvalho, disponível neste link. Não consegui localizar o segundo. Seria saudável que o jornal nos franqueasse acesso mais fácil a esses trabalhos.

Não há, na primeira página do jornal, qualquer menção à metodologia empregada pelo primeiro estudo. O leitor que a queira conhecer tem de saltar para o caderno Cotidiano e procurar – mas quantos não ficam pelas manchetes? – pelo quinto parágrafo da reportagem, que informa serem do Enade 2008 os dados utilizados. Resultados pontuais, portanto, que mereceriam formulação jornalística concorde – detalhe a que Folha não parece ter dispensado a devida atenção.

Ao traduzir pesquisa em reportagem e reportagem em título, o jornal opera, em dois lances, uma transformação que apaga o referencial de tempo do estudo e forja, a partir da pontualidade de um fato, uma verdade atemporal. O fato: alunos cotistas apresentaram notas inferiores no Enade 2008. A reportagem: cotistas “têm apresentado desempenho inferior”. O título: “cotistas têm pior resultado”.

Foramtêm sidosão: eis como o jornal gradua a investida. Gritam os dados que os cotistas foram menos exitosos no exame; a Folha grita-lhes de volta que têm sido – e, portanto, são – os piores. Não ignoro que a sucintez dos títulos exija malabarismos por vezes arriscados. Mas tampouco julgo descabido exigir precisão. A Folha, por exemplo: há quem afirme que é, e tem sido, publicação desonesta. Eu posso afirmar que foi infeliz. Mesmo uma leitura mais atenta do estudo em questão revelaria que os autores veem a disparidade nas notas como “um preço relativamente modesto pago pela sociedade em prol da diversidade e da equalização das oportunidades”. E concluem asseverando que as políticas afirmativas “têm sido bem-sucedidas no objetivo de proporcionar maior diversidade nas universidades” (p. 37).

2. Já ao final da reportagem, aparece a primeira menção a um segundo estudo, de autoria de Alvaro Mendes Junior. Muito de passagem, o jornal aponta que esse trabalho teria revelado menor o nível de evasão entre cotistas, quando comparado ao dos demais alunos. O texto da reportagem interrompe a novidade com um rotundomas, e volta a falar de desempenho. Por que não desenvolver melhor esse ponto?

Afinal de contas, que seja menor a evasão entre os cotistas, apesar das precárias condições de permanência estudantil oferecidas por nossas universidades, parece-me informação tão relevante quanto a medição episódica de seu desempenho. Uma edição responsável dos dados de pesquisa teria reservado mais espaço a essas informações, conferindo destaque proporcional à relevância dos dados sobre evasão e desempenho.

Mas é evidente que o jornal, alinhado com o clamor por uma suposta meritocracia, prefere alçar a manchete os dados de seu interesse, espremendo os inconvenientes num parágrafo. Ao fazê-lo, reforça o raciocínio segundo o qual os cotistas, por apresentarem pior desempenho, prejudicariam a qualidade do ensino. E se presta a estandarte daqueles que, arvorados em privilégios, se insurgem contra uma mudança já em curso e insistem numa batalha que já se lhes afigura perdida.

Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa.

*Daniel Serrano é jornalista e professor da Rede Emancipa de Cursinhos Populares em Campinas

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