Quem manda no futebol da pátria de chuteiras

11/maio/2013, 02h34

por Daniel Faria*

O Engenhão é, segundo o governo estadual, o grande legado que os Jogos Pan Americanos deixaram ao Rio de Janeiro. Orçado inicialmente em R$ 60 milhões, o custo final do estádio foi de R$ 380 milhões. Esse ano foi interditado por problemas na cobertura, deixando a cidade sem estádio, e não há previsão de retorno ou orçamento das obras. O nome oficial do Engenhão é “Estádio Olímpico João Havelange”.

Mas quem é João Havelange? No último dia 30, renunciou à presidência de honra da FIFA; em 2011, já havia pedido sua demissão do Comitê Olímpico Internacional.  Em ambos os casos, para fugir de punições por denúncias de corrupção.

A principal denúncia contra Havelange, provada por documentos divulgados pela própria FIFA, é que ele recebeu R$ 45 milhões da empresa de marketing suíça ISL para favorecê-la na obtenção de contratos.

Os donos do futebol: Marin, Havelange e Teixeira.

Os donos do futebol: Marin, Havelange e Teixeira.

João Havelange presidiu a CBD (Confederação Brasileira de Desportos, que daria origem à CBF) entre 1956 e 1974, e depois presidiu a FIFA até 1998, período em que ele se gaba de ter transformado a entidade em um órgão “maior que a ONU”.

Em 1989, conseguiu emplacar seu então genro, Ricardo Teixeira, na presidência da CBF. Apesar de vir do mercado financeiro e não ter nenhuma experiência prévia no futebol, Teixeira fez o que quis no futebol brasileiro por 23 anos, transformando a seleção brasileira em um negócio extremamente lucrativo.

Renunciou em 2012, também em meio a denúncias (incluindo o mesmo caso da ISL). Nunca mais apareceu publicamente, e hoje vive em um condomínio de luxo em Miami.

Quem sucedeu Teixeira na CBF foi o vice-presidente mais velho da entidade, José Maria Marin.

Marin foi vice-governador de São Paulo na gestão de Paulo Maluf (78-82), e assumiu o cargo quando Maluf se desincompatibilizou. Na época, era filiado a ARENA, o partido de sustentação da ditadura militar.

Em 1975 fez um discurso criticando a TV Cultura, que hoje é considerado como uma das causas para a prisão, tortura e assassinato do diretor do canal, o jornalista Vladimir Herzog. Em 1976, fez um discurso defendendo Sérgio Fleury, talvez o mais notório dos torturadores da ditadura, que ele considerava um injustiçado.

Marin, que também é presidente do Comitê Organizador Local da Copa de 2014, disse que só sai morto da presidência da CBF.

Acima da CBF, há o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), entidade máxima do esporte no país, presidido por Carlos Arthur Nuzman desde 1995. Também presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos, Nuzman vai acumular os dois cargos até 2016. Ele também foi o presidente do Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos de 2007, onde houve um superfaturamento de 1000% em relação ao orçamento original.

Aldo Rebelo, Eike Batista e Carlos Nuzman. Peças centrais nas negociatas dos megaeventos.

Aldo Rebelo, Eike Batista e Carlos Nuzman. Peças centrais nas negociatas dos megaeventos.

A CBF e o COB são empresas privadas, mas o futebol é um patrimônio cultural do povo brasileiro. E se o governo não pode ser responsabilizado diretamente por essas entidades, não quer dizer que ele tem tratado bem os esportes.

Durante os 10 anos de governo do PT até aqui, o Ministério do Esporte foi ocupado pelo PCdoB: primeiro por Agnelo Queiroz, depois por Orlando Silva (demitido em 2011 por denúncias de corrupção), e agora por Aldo Rebelo. Sem tirar o fato de um partido que se diz comunista comandar uma pasta responsável por eventos bilionários, é altamente questionável a ideia de que um ministério pertença a um determinado partido.

Além disso, Aldo Rebelo já demonstrou não ter capacidade para ocupar seu cargo, como ao rebater críticas à construção de estádios em cidades que não atraem grandes públicos (os chamados elefante brancos) dizendo que se trata de preconceito contra o Norte e o Nordeste, e ao dizer que o dinheiro da Copa e da Olimpíada é o “mais fiscalizado do país”.

Não há símbolo maior do processo de preparação do país para a Copa do Mundo e a Olimpíada do que a privatização do seu principal estádio, o Maracanã. Depois de uma obra que custou mais de 1 bilhão de reais (sem contar obras passadas, como a para  Pan) o estádio foi entregue por 35 anos para um consórcio privado, que envolve a IMX (propriedade de Eike Batista) e a empreiteira Odebrecht. O consórcio deverá pagar, durante toda a sua administração, apenas 181,5 milhões; além de ter que investir outros R$ 594 milhões em todo o Complexo. Entretanto, a assinatura do contrato foi suspensa, na tarde desta sexta-feira, pela juíza Gisela Faria, que acatou o pedido do Ministério Público para que a licitação seja avaliada pela justiça. (Confira aqui as inúmeras irregularidades do processo de licitação)

Ainda há várias pendências jurídicas envolvendo o Maracanã (como o uso dos camarotes e a demolição do Parque Aquático Júlio de Lamare), mas uma coisa é certa: a privatização do Maracanã coroa um processo de elitização do futebol, onde a paixão pelo esporte mais popular do país é usada como uma forma de enriquecer uma minoria.

O slogan oficial escolhido pelo governo para a Copa é “A pátria de chuteiras”. O da Coca-Cola, “A Copa de Todo Mundo”. Na inauguração do “novo Maracanã”, os operários que ajudaram a construir o estádio foram convidados a assistir o jogo. A questão é: será que eles vão conseguir voltar?

*Daniel Faria é estudante de Comunicação da UFRJ e militante do Juntos-RJ.