53º Congresso da UNE: cresce a voz dos estudantes indignados

10/jun/2013, 11h23

Marcado para começar oficialmente dia 29 de maio, o 53º Congresso da UNE iniciou na prática um dia antes. A passeata contra o aumento das passagens de Goiânia concentrou-se na Praça Universitária Honestino Guimarães, a mesma que no dia seguinte se realizaria o Congresso. Duas horas depois, a cidade estava conflagrada. A Tropa de Choque da Polícia Militar feriu estudantes, disparou balas de borracha contra os manifestantes e bombas de gás que davam ares de guerra. Doze ônibus incendiados foram a marca da indignação da juventude. Dezoito jovens foram presos, sete menores de idade. E como durante os anos de chumbo, a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás foi cercada. O ambiente não ficou devendo nada aos dias vividos pelo movimento estudantil durante a ditadura. Depois da vitória do movimento de 10 mil pessoas que revogaram o aumento da passagem em Porto Alegre, da revolta do busão em Natal, Goiânia saudou as delegações que chegavam de todo o Brasil com o vigor das ruas.

Governismo ou Autonomia: a polêmica que dividiu o 53º Conune

485541_624382504241233_541268269_nFoi um Congresso que demonstrou o declínio estratégico da União da Juventude Socialista (UJS) – principal força que dirige a UNE há quase duas décadas. Foram à Goiânia ansiosos por irem embora. Não apresentaram nenhuma orientação política própria para além da emulação da própria UNE. Apoiando-se em novos aliados e garantindo a manutenção dos antigos nos postos principais da entidade, a UJS foi burocrática na cena política do 53º Conune. No quinta-feira, data dos principais debates, deixaram seu senador Inácio Arruda do Ceará como figurante ilustre do debate entre Luciana Genro do PSOL e Ricardo Gebrim da Consulta Popular. Não tiveram o que oferecer ao conjunto dos estudantes, nem política nem políticos de referência.

Três chapas disputaram a direção da UNE. Porém o marco da polarização do Congresso ficou por conta da divisão entre os adesistas às políticas do Palácio do Planalto e àqueles que defendem a autonomia do movimento estudantil e à crítica ao projeto desenvolvimentista e de educação do governo petista.

A Direção Majoritária da UNE ganhou um novo aliado neste Conune, o Levante Popular da Juventude, que defendeu abertamente o apoio crítico ao governo. Infelizmente, eles “esqueceram” o abandono da Reforma Agrária, o novo Código anti-Florestal, as megaobras como Belo Monte que atacam a natureza e os povos originários, a expansão do agronegócio, dos transgênicos e dos agrotóxicos, políticas fortalecidas nos 10 anos de governos do PT. A terceira via da UNE silenciou sobre os métodos da UJS no comando da UNE. Nada falaram sobre as manobras na eleição dos delegados, nem das dificuldades impostas ao longo do Congresso. Optaram pelo enfrentamento à Oposição de Esquerda.

A correlação de forças da Executiva da entidade manteve-se a mesma, que segue com 14 diretores vinculados ao governismo e 3 da Oposição de Esquerda. A diferença é que diminui de 13 para 12 os diretores do bloco da UJS e aliados e a terceira via saiu de 1 para duas cadeiras. Os números não dizem por si o que foi o 53º Congresso da UNE. Fortaleceu-se a luta pela construção de uma nova direção para o movimento estudantil brasileiro.

Oposição de Esquerda: construindo uma nova direção

934060_383983695054005_409440463_nA Oposição de Esquerda (OE) da UNE merece um capítulo à parte. Após dois Congressos, a greve das Universidades Federais permitiu o fortalecimento da Oposição, que obteve um enorme salto de reconhecimento público no Congresso. Surgida como uma chapa para o 51º Congresso da UNE de 2009, a Oposição de Esquerda sai como um movimento ainda mais forte de Goiânia. Aproximadamente 1800 ativistas lotaram as arquibancadas do Goiânia Arena, fizeram uma linda passeata nas ruas de Goiânia e fortaleceram a luta no enfrentamento às juventudes governistas.

Há a compreensão comum, generalizada entre os coletivos que compõem organicamente a OE, da necessidade de seguir o processo de unificação de nossas forças em todos os espaços do movimento estudantil. Já expressamos isso na maioria das eleições de delegados para o Congresso da UNE.

Aprofundamos nosso programa. Enfrentar nas ruas, com respeito às diferenças, a luta pela superação da burocracia estudantil que seguirá mais dois anos no comando da União Nacional dos Estudantes. A OE ainda buscará alianças que permitam ampliar o conjunto dos lutadores contra o projeto educacional do MEC, apoiado pela UNE.

Somos entusiastas da chapa que agregou a diversidade dos lutadores do movimento estudantil brasileiro, composta por independentes e pelos coletivos Juntos, Rebele-se, Rompendo Amarras, Domínio Público, Coletivo Nacional Levante, JSOL, Vamos à Luta, Construção e que também contou com o apoio da Esquerda Marxista.

Aprovamos como calendário de lutas do segundo semestre a construção do Dia Nacional Contra o Aumento das Passagens. Voltaremos às nossas cidades para a disputa das entidades estaduais para diminuir a força governista e conquistar importantes e históricas UEEs, como a União Acadêmica Paraense. No Pará, inclusive, fizemos história. Nem as fraudes, manobras e pressões impediram a vitória da Oposição de Esquerda sobre o governismo. A Maré se transformou numa pororoca democrática, por acesso, por permanência estudantil e por mais democracia.

Juntos viramos a Maré: por todas as nossas lutas

936805_624377880908362_781208197_nFoi de arrepiar a participação do Juntos e de todos os signatários da tese Vai Virar a Maré. A surpreendente delegação de 550 pessoas, vindas de caravanas de todas as regiões do continental Brasil, sacudiu o Congresso da UNE e foi protagonista da Oposição de Esquerda. Faixas, bandeiras, barras coloridas, sinalizadores, megafones e centenas de vozes entusiasmadas pela transformação, pela Revolução. Isso tudo pouco mais de 2 meses de participarmos com 300 jovens do Acampamento da Juventude Anti-Imperialista e Anticapitalista em Buenos Aires. Levantamos a luta internacionalista com uma grande saudação a heroica jornada de lutas na Turquia e entoamos a principal música da Oposição a qual foi inspirada nas canções das torcidas argentinas.

“Outra vez, outra vez / tô na rua outra vez / Somos da Oposição lutamos pela educação”

A militância do Juntos transformou a tese da Maré em destaque durante todo o Congresso. Nos debates, na passeata e na plenária final. Foi necessário muito sacrifício para atingir a expressiva votação de 163 delegados, que alavancou o Juntos ao patamar dos maiores movimentos da UNE. Novamente os números são insuficientes. Reconhecido pelos principais movimentos adversários, o Juntos adquiriu nova estatura política. Desde as viagens mais longínquas de Pelotas/RS e de Santarém/PA, até a máxima organização dos alojamentos e superação das dificuldades de um Congresso de 10 mil pessoas, o Juntos em nenhum momento esmoreceu. Cada sinal de cansaço foi rapidamente transformado em energia. A recompensa veio com a apuração dos votos e a continuidade na Executiva da UNE, bem como o crescimento do número de diretores. Thiago Aguiar, estudante da USP, e mais três importantes dirigentes nossos serão indicados para compor a direção da UNE.

A polarização que estabelecemos desde o primeiro Grupo de Discussão na quinta-feira, dia 30 de maio, foi ganhando apoios ao longo do Congresso. Expressamos a luta contra a governabilidade conservadora que permitiu a ascensão de Marco Feliciano à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. O Junt@s pelos Direito de Amar, movimento LGBT, deu o colorido do amor e da tolerância na luta contra o fundamentalismo. E o Juntas trouxe à tona a luta das mulheres por direitos e respeito, representada recentemente nas Marchas das Vadias. Contagiamos o Congresso com o ânimo da vitoriosa jornada de 10 mil pessoas que derrotaram o aumento das passagens em Porto Alegre.

Fomos longe. Viemos do interior do Ceará e do Maranhão, das cidades de Sobral e Imperatriz, de Natal no Rio Grande do Norte. De importantes capitais como São Paulo, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Belo Horinzonte. Multiplamos nos interiores dos principais Estados como Campinas, São Carlos, Lorena, Itapevi, Uberlândia, Montes Claros, Mariana, São Gonçalo, Niterói, Pelotas.

Do Pará veio uma centena de jovens lutadores que enfrentam o governo desde as obras de Belo Monte até a precarização da Universidade Pública, que junto aos indígenas e sem terras enfrentam o latifúndio. Trouxeram na bagagem a vitória sobre a Direção Majoritária da UNE na tiragem de delegados. Registramos com alegria e responsabilidade os 3 votos que o Movimento Honestinas da UnB conferiu ao Juntos na eleição da Diretoria. Bem como aos ativistas goianos que conhecemos nas lutas das passagens e que já estão dispostos a impulsionar o Juntos em Goiás.

“E vamos de novo / Contra esse governo / Pra que a Educação tenha mais investimento
Por mais permanência e democracia / A nossa saída é a luta todo dia”

O compromisso repactuado entre os ativistas que formam as diversas frentes de mobilização do Juntos é seguir a luta, todos os dias. Estamos desde já encarnados na divulgação e solidariedade à luta dos indignados turcos, que fecham as fronteiras de um Mediterrâneo indignado de Portugal à Turquia. Estivemos em Goiânia, São Paulo e Natal no dia 6 de junho, com a empolgação vitoriosa dos jovens de Porto Alegre, preparando com entusiasmo a próxima jornada nacional de luta contra o aumento da passagem. O Juntos deixou profunda sua marca nessa 53º Congresso da UNE. Apenas começamos.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017