Humanizar o parto: uma pauta feminista

30/jul/2013, 19h59

Samily Maria*

O que é parto humanizado?

É a ideia revolucionária de a mulher parir como quiser, na posição mais confortável para ela e o/a bebê, na presença de pessoas que tragam segurança, com uma equipe médica comprometida com o bem estar tanto da mãe quanto da criança, onde não sejam utilizados métodos de intervenção de maneira abusiva e desnecessária, como por exemplo:

  • a indução/aceleração do trabalho de parto através da aplicação de ocitocina sintética e outros medicamentos;
  • manobras como a de Kristeller (aquela de empurrar a barriga da mãe para baixo, alguém sentar em cima… é, fazem isso!);
  • episiotomia (cortar o períneo da mulher);
  • puxar o/a bebê em vez de deixa-lo sair naturalmente, e quando ele “nasce” se quer vai pro colo de sua mãe, é bombardeado por uma série de procedimentos sem ao menos antes ter havido este contato entre mãe e filhx que já comprovadamente faz toda a diferença para a saúde de ambos.

Além disso, cerca de 23% das mulheres sofrem também violências verbais como estas frases ouvidas durante o parto:

  • “não chora não que ano que vem você ta aqui de novo”;
  • “Na hora de fazer tu não reclamastes”;
  • “Se ficar gritando vai fazer mal pro neném, ele vai nascer surdo”;
  • “Se gritar eu paro agora o que to fazendo, não vou te atender”.

Isso tudo, claro, se a mulher conseguir ter um parto normal, coisa rara na atualidade.

Parto Cesário. Benefício para quem?

Hoje, infelizmente, a lógica capitalista toma conta até mesmo da maneira como devem nascer as pessoas. Sistema Único de Saúde e Sistema Privado seguem a metodologia do sistema de produção industrial, onde “tempo é dinheiro”, os bebês são meros produtos e a mãe? Ah, essa é apenas uma máquina nessa produção. Não tem voz nem autonomia se quer na hora de parir. E não há nada mais perfeito para o sustento disso do que “optar pela cesariana”.

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A cirurgia criada para salvar vidas, sendo restrita a partos de risco, hoje é a primeira opção de muitos médicos obstetras na artimanha de ganhar tempo e trabalhar em prol apenas do benefício próprio, além de muitas mães preferirem o bisturi, por medo ou insegurança, reforçados na maioria das vezes pela pressão médica, que se encarregam de inventar mil e um falsos motivos para realização da cirurgia e de sustentar na mulher o sentimento de praticidade e falsa segurança jogando sua autonomia água abaixo. Mas e os benefícios do parto natural? Os riscos de uma desnecesária? E o/a bebê? Tu combinaste com elx que nascerá no dia 5 de junho às 17h? Será que elx tá prontx para esse momento?

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Um médico pode fazer em média até 10 cesarianas em um dia, com dia, hora, local marcado. Então, podem se organizar assim: marcam-se todas as cirurgias para uma quarta-feira, nos demais dias da semana, o/a medicx atende os pacientes em pré-natal na clínica, sem perder seus benefício($) de consulta, sem ser interrompido por alguma chamada de emergência para um parto. Daí na quarta elx faz as cesáreas, na sexta dá alta na galera e no fim de semana tá livre para descansar, viajar, fazer uma extra pra ganhar mais um trocado. Isto é um resumo grosseiro talvez não tão fiel e respeitoso com muito trabalhadores da saúde, mas uma realidade dentro da lógica produtivista empregada a saúde. Afinal, com o pouco que se investe em saúde nesse país, qual obstetra irá se dispor a ficar por horas acompanhando uma paciente em trabalho de parto? Uma solução talvez fosse o governo promover campanhas informativas e de incentivo ao método natural de nascimento e seus benefícios, afinal muitos médicxs nunca nem escutaram falar sobre isso na universidade, a prova da nossa educação machista, mas isso o governo não se importa.

Humanizar o parto e conquistar soberania

Em tempos de Papa no Brasil, um tal “bebê real” roubou a cena. O nascimento do príncipe britânico ocorreu após a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, passar por 11h de trabalho de parto. Se há algo que realmente nos importe e seja de tamanha realeza nisso tudo, é a divulgação da mídia em torno disso que indiretamente abre as cortinas sobre os benefícios do parto normal, algo incomum por estas bandas plebeias.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que apenas 15% dos partos sejam feitos da maneira “anormal”. No Brasil, 36,8% dos partos na rede pública são cesarianas e esse número sobe para 80% com relação a partos na rede privada.

A cirurgia cesariana, se usada devidamente, pode salvar vidas, nossa luta não é contra a cesárea, mas sim contra esta ser empurrada útero à dentro. Ou será que as mulheres que ao longo de tantos séculos pariram seus/suas filhxs naturalmente, de repente, de alguns poucos anos para cá sofreram uma grotesca mutação que as impede de parir? Hum… Acho bastante improvável!

Precisamos lutar pela humanização do parto, e isso nada mais é do que lutar por um parto onde seja assegurado o direito da mulher à informação, a garantia de poder parir de forma natural, a assistência, respeito ao bem estar de mãe e filhx, é ela ter ao seu lado alguém que a acompanhe, se assim for sua vontade, seja companheirx, mãe, amigx, pessoa que lhe traga carinho, afeto e segurança. Que isso tudo seja garantido, mesmo que de forma consciente esta mulher tenha optado por uma cesariana. Que a mulher seja sujeita ativa nesse acontecimento, consciente do poder que carrega em si, que suas vontades sejam atendidas, sem indisposição da equipe médica ou qualquer forma de violência. Que a liberdade possa se fazer realmente presente na vida deste ser desde seu nascimento, tal como a liberdade da mulher nesse momento. Que este seja mais um passo contra toda a opressão sofrida nos diversos momentos de sua vida, que esta mulher tenha direitos, seja livre, seja EMPODERADA. Muitas mulheres e homens estão levantando-se mundo a fora por esta revolução. Vamos Juntas! e Juntos! nessa luta feminista, pela humanização do parto. Vamos mudar o mundo, começando pela forma de nascer!

*Estudante de Pedagogia da UFPA, membro do DCE-UFPA militante do Juntas Belém – PA

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