Organize sua indignação: Junte-se!

01/jul/2013, 22h05

Aqui está o manifesto do Juntos. Diante de tanto agito na vida política do país, decidimos atualizar nossas proposições. Fizemos o esforço de reunir neste manifesto algumas bandeiras que devem nortear nossa ação nas ruas na próxima temporada, bem como propostas de iniciativas. Aproveite ao máximo! Imprima o manifesto, indique aos amigos, leve para debater nas próximas reuniões. Faça bom proveito. E, mais importante, aproveite o nosso pontapé e faça o mesmo para sua escola, universidade, bairro ou local de trabalho. Pense em propostas, bandeiras a serem reivindicadas e (re)invente novos protestos!

Boa leitura!
Juntos Brasil

Organize sua indignação: Junte-se!

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Que tempos são esses? Devem se perguntar milhões pelo Brasil afora. São tempos politicamente intensos, isso se sabe. A Copa das Confederações cedeu lugar a Copa das Mobilizações. Pouco se comenta de futebol e muito se fala de política por ai. A pátria não calçou as chuteiras, na verdade, a camiseta e a bandeira do Brasil serviram de uniforme para os milhares de manifestantes que fizeram da rua sua arquibancada. Após semanas de grandes atos que reuniram milhões, o povo segue em atividade. Agora mais descentralizadas, as manifestações ainda reúnem milhares por melhorias em distintas localidades. Praticamente toda cidade brasileira, bem como inúmeros bairros, favelas e comunidades, estão tendo suas manifestações. Mesmo após a redução das passagens do transporte público, os atos de rua não cederam.

A presidenta, em conjunto com governadores e prefeitos, propôs um “pacto com cinco pontos” para amenizar as tensões no país. A proposta aparentemente mais progressista, a realização de um plebiscito sobre a reforma política no país, já está atravancada nos palácios de Brasília. Sobram 4 pontos, tudo mais do mesmo, sem nenhuma sinalização concreta de mudanças efetivas. O povo deu de ombros, mesmo após o pronunciamento da presidenta, ocorreram importantes mobilizações. Com destaque, para as periferias de Rio e São Paulo. E também pra Belo Horizonte. Diante da permanente cobrança e vigilância, os deputados decidiram derrubar a PEC 37, que até então tinha sua aprovação quase dada como certa. Agora se somam duas importantes conquistas nacionais: a redução das tarifas nas principais cidades e a derrota da PEC 37. Mas o povo quer mais.

O país vive uma ebulição social. Segundo pesquisas, cerca de 80% da população apoiam a ação da massa que toma as avenidas para protestar. O Brasil está mudando, e rápido. Há uma completa desconfiança em relação às velhas estruturas, tudo aquilo que se assemelhe com o velho modo de se fazer política está em xeque. A maioria dos políticos, palácios de poder, casas legislativas, mídia, polícia e os próprios partidos estão desacreditados. A relação promíscua daqueles que colocam os seus privilégios particulares acima do interesse público é alvo das principais críticas. A gastança desenfreada com a(s) Copa(s) e Olimpíadas no país também é motivo de muita revolta. Gera ainda mais indignação, a mão de ferro com que o Estado trata os insatisfeitos. A repressão policial às inúmeras manifestações só faz aumentar a raiva da maioria contra esta instituição e contra a inabilidade da maioria dos governantes. O aumento acelerado do custo de vida veio apimentar este universo de insatisfações.

Felizmente, pelas televisões e nas redes sociais saltam aos olhos bons exemplos de resistência juvenil e popular. São muitos países onde protestar e tomar as ruas tem surtido efeito. Por meio da ação coletiva e da revolta de uma maioria, derrubou-se ditaduras no Norte da África; questionou-se o poder de antigas partidocracias na Europa; chacoalharam-se países inteiros contra os efeitos da crise econômica. Esta combinação, aumento da indignação no Brasil e fortes exemplos de mobilização pelo mundo, alcançaram efeitos surpreendentes. Como dizia um cartaz, “colocaram Mentos na geração Coca-Cola”. A insatisfação extravasou e transbordou pelas ruas. Após algumas semanas o povo já tirou uma conclusão, só a ação coletiva de uma maioria mobilizada pode arrancar verdadeiras conquistas.

Esta conclusão muito importante se soma à lista de conquistas destas últimas semanas. É decisivo que a população brasileira saiba por A+B que é possível mudar tudo que está ai por meio da ação coletiva nas ruas. O Juntos aposta num projeto de sociedade que supere o capitalismo enquanto modelo. E sabemos que só é possível revolucionar o Brasil e o mundo quando se unem os jovens com aqueles que conformam a maioria da sociedade brasileira, com todos aqueles que sobrevivem por meio do suor de seu trabalho. A ação comum entre os jovens e aqueles que representam a base da pirâmide social no país é decisiva para se conquistar vitórias mais profundas e de longo prazo. Nós do Juntos, a partir da rebelião de junho de 2013, pretendemos aprofundar esta aliança, batalharemos para que cada vez mais esta seja uma realidade presente em todas as nossas lutas.

Diante do exposto, o Juntos lança uma campanha: ORGANIZE SUA INDIGNAÇÃO! Sabemos que para seguir avançando sobre a velha ordem, para sermos capazes de revolucionar tudo o que está ai, é preciso avançar em nossa organização. Temos que unificar nossas reivindicações e propostas. Necessitamos somar forças e organizar ações em comum. Muito ainda pode ser conquistado. Pensando nisso, o Juntos lança este manifesto. Nele destacamos 6 pontos para reivindicação, os quais consideramos mais latentes nas recentes manifestações, e algumas propostas de ação. Vamos a eles!

O que reivindicamos?

Aqui pretendemos unir os principais gritos presentes nas passeatas de norte a sul do país. Estamos num outro momento da luta social e política no país, a população demonstrou sua força, os donos do poder – em suas distintas esferas – estão contra a parede. Mais do que nunca é possível conquistar. Aqui apresentamos um esboço das propostas mais latentes e urgentes. Agregue a elas tudo que for preciso reivindicar a partir da sua própria realidade.

Ponto 1. Transporte público, gratuito e de qualidade é um direito! As tantas mobilizações pelo país evidenciaram o problema do transporte público nas principais cidades, em geral muito caro, de péssima qualidade e superlotado. É sabido que o transporte coletivo é um filão bastante lucrativo para o empresariado. Em muitas cidades, existem verdadeiras máfias dos transportes. São cartéis que controlam os preços e nivelam por baixo o oferecimento do serviço. Assim como a saúde e a educação, o transporte também deve ser um direito assegurado pelo Estado. Por isso lutamos por passe-livre já e defendemos a tarifa zero no transporte público!

Ponto 2. Queremos saúde e educação no padrão FIFA! Defendemos que sejam investigados todos os contratos e licitações referentes às Copas e às Olimpíadas. Desde o anúncio que estes grandes eventos ocorreriam no país, foram gastos bilhões em obras e empreendimentos possivelmente superfaturados. Em contrapartida, centenas de famílias são removidas de suas casas. Se gasta o dinheiro público na viabilização de obras para “inglês ver”, ao mesmo tempo em que a população conta com serviços públicos de baixíssima qualidade. Defendemos que todo o lucro da FIFA com estes eventos sejam destinados para investimento em saúde e educação.

Ponto 3. Queremos virar do avesso toda a velha estrutura política. As antigas formas de participação política não nos contemplam mais. Queremos interferir diretamente em como se organizará nossa escola e nossa Universidade, em como são tomadas as decisões em nossas cidades, queremos tomar as principais decisões políticas em nosso país. Não nos basta votar de dois em dois anos, precisamos participar e intervir, discutir e decidir. Basta de políticos corruptos, basta de fazer do Estado balcão de negócios privados. Por uma reforma política que assegure uma verdadeira e intensa participação popular na política do país. Que o deputado ganhe o mesmo que o professor!

Ponto 4. Abaixo a repressão policial, pela desmilitarização da polícia! Seria engraçado, se não fosse triste, mas é percebido que determinada pessoa se dirige a uma manifestação pelos trajes. Lenços enroladas no pescoço mesmo debaixo de muito sol, óculos de natação na testa e odor de salada exalando da mochila. Não tem erro, tem protesto é quase certo que também tem repressão da polícia. O direito à manifestação foi conquistado no país a duras penas. Infelizmente, ele não tem sido respeitado. A polícia age com brutal violência. A repressão, as ameaças e o medo são cotidianos nas periferias. Defendemos a desmilitarização das polícias no Brasil. As forças de segurança, segundo sugestão da própria ONU, não podem responder ao Código Militar, no qual a ação violenta e a morte são uma conduta necessária às situações de guerra.

Ponto 5. Por liberdade, igualdade e respeito! Queremos eliminar da sociedade brasileira todas as formas de discriminação e opressão. Queremos uma sociedade livre de racismo, machismo e homofobia. Por isso lutamos pela garantia de direitos às mulheres, aos LGBTTs e à comunidade negra. Para isso é preciso defender mecanismos legais que criminalizem todo o tipo de ação discriminatória e violência contra estes setores. Lutamos, portanto, por um Estado laico, pela criminalização da homofobia, pelo direito da mulher ao seu próprio corpo, por cotas e ações afirmativas em todas as esferas de poder. Basta de violência, opressão e discriminação!

Ponto 6. Pela democratização dos meios de comunicação! Como dizia o grito nas manifestações: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura!” Globo e cia não conseguem esconder que sempre foram um editorial a serviço dos interesses da classe dominante deste país. A grande mídia faz de tudo para favorecer a hegemonia dos donos do poder. Lutamos pela democratização da mídia. Defendemos um novo marco regulatório para as comunicações no país. Além disso, incentivamos que todos os coletivos e indivíduos façam sua parte na democratização das informações. Ferramentas como blogs, vídeos e as redes sociais são muito importantes na produção de ideias e opiniões livres de cabrestos. Mas para isso não é possível que sejamos controlados, não é mesmo Obama? Não podemos permitir que o Facebook e nossas contas na rede sejam investigadas pela CIA e pelo Governo Norte-Americano. A liberdade de informação e comunicação passa pela livre produção de ideias. Tome parte neste movimento e utilize todas as ferramentas possíveis para produzir, divulgar e compartilhar ideias livres, além de outras fontes de informação!

A rua é nossa! O trabalho, a escola, a universidade e o bairro também!

São novos tempos, onde tudo que parecia impossível pode estar ao alcance de nossas mãos. As últimas semanas marcarão a História de nosso país. E de nossa geração. Parece até que a consciência política das pessoas deu um salto triplo carpado. Todo mundo fala de política agora. Além disso, a confiança na força da mobilização é tão grande que todos acreditam que é possível conquistar mais. Para tudo isso, o Juntos propõe, organize-se! São três propostas simples:

1. Reúna a sua galera: seja na escola, no trabalho, na faculdade, no bairro, entre os amigos, a turma do movimento estudantil, a galera da igreja, os moleques que fazem um rap lá na quebrada ou a geral que curte um baile funk. Chame quem quiser falar e ouvir e marque uma discussão, uma conversa, um bom debate. Agora é a oportunidade que temos para politizar ainda mais nossa juventude. Aproveitem a galera reunida e listem suas próprias reivindicações. Agora é hora de conquistar mais: eleição direta para diretor da escola, passe-livre na cidade, mais bibliotecas, aumento nas bolsas de assistência estudantil, maior participação. Junte-se, reúna, debata, organize-se e conquiste mais!

2. Organize reuniões do Juntos em sua cidade, sua escola, universidade ou frente de atuação. Seja um construtor de nosso movimento, leve nossas e suas ideias para mais lugares. É fácil, entre em contato conosco e tome a iniciativa! Multipliquemos o Juntos em todo o país! Se em sua cidade já tem Juntos, esteja convidado para nossas assembleias! Venha contribuir!

3. Vamos reinventar nossas formas de organização. Temos que pensar em formas criativas e diversas para juntar gente. Novas metodologias de reunião, a contribuição das redes, assembleias que permitam ouvir e ser ouvido, além de organizar nossos próximos passos. Estes grandes momentos de efervescência política são ótimos para reinventar nossas formas de atuação. Para dar um exemplo, na Turquia a polícia reprimiu as manifestações na Praça Taksin e o Estado proibiu aglomeração de pessoas nela. A população driblou a lei e encontrou outra forma de protestar, grandes atos silenciosos. Se as pessoas não falam entre si, não podem dizer que elas estão aglomeradas. Esta ideia deu novo fôlego às manifestações e juntou muita gente num protesto criativo e calado. Vamos usar a criatividade para ajudar a manter a atividade política em nosso país. Estamos parindo, ainda que pouco a pouco, um mundo novo! Queremos que ele tenha expressão, forma, cheiro e cores diferentes. Vamos lutar por um mundo onde todos sejam socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres, como diria Rosa Luxemburgo. Está em nossas mãos a construção deste futuro. Só depende de nós! A rua é a maior arquibancada do Brasil! E como aprendemos nestas semanas, só a luta muda a vida. Vamos Juntos!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017