Brasil e Peru: a indignação da juventude não tem fronteiras

08/ago/2013, 21h58

* Evelin Minowa

O Peru tem um histórico de muitas tensões sociais e um povo que se manteve sempre em mobilização. Desde a invasão do território pelos espanhóis em busca de ouro e prata e o massacre do povo inca pela guerra e por doenças trazidas com os brancos, passando por vários governos militares e ditos anti terroristas mas de caráter extremamente repressores dos movimentos em geral, muitos agrupamentos políticos diferentes se formaram e polarizaram a conjuntura do Peru. Um grupo de milícia muito conhecido que adotou a prática da guerrilha inicialmente rural e depois urbana foi o Sendero Luminoso, que durante décadas estabeleceu uma guerra civil contra os governos. Até que na década de 90 foi eleito para presidente o empresário Alberto Fujimori, que estabeleceu leis de intenso combate ao Sendero Luminoso e movimentos similares, e após 70 mil mortes causadas pela guerrilha e pela perseguição do governo aos movimentos de esquerda o líder do Sendero foi capturado e se iniciou o desmonte do grupo.

Contudo, na década de 2000 foram descobertos diversos escândalos de corrupção no governo Fujimori, além de se tornarem públicas provas de abuso de poder com opositores internos e externos a seu governo, envolvendo desde revistas a casas sem autorização até torturas, sequestros e desaparecimentos de líderes estudantis e de professores das universidades, feitos por um esquadrão de morte do exército peruano.

Neste contexto, a partir de 2000 se elegeram governos aparentemente progressistas, que condenaram Fujimori à prisão e restabeleceram a atividade política no país. Na última década o Peru vive uma situação semelhante ao Brasil, com crescimento significativo da economia, entretanto mantendo a grande desigualdade social, com um índice de pobreza em 38% da população.

A situação atual do governo peruano

MDG : Mining in Peru : protest against the Conga mining project of US corporation Newmont, in Lima O atual governo, do presidente Ollanta Humala, do Partido Nacionalista Peruano (PNP), guarda bastantes semelhanças com o governo do PT de Lula e Dilma. Ambos foram governos eleitos em bases sociais de trabalhadores e do povo pobre, com programas que prometiam mudanças radicais e inversão da prioridade do investimento público nas áreas sociais. Porém, foram governos que se elegeram progressistas mas se construíram em bases capitalistas. No Peru se pode ver isso, por exemplo, na prioridade em explorar os recursos naturais através de grandes mineradoras com predomínio de capital estrangeiro – no caso, dos Estados Unidos – e às custas do abastecimento de água e da qualidade de vida de milhares de habitantes das comunidades locais, que é o que se vê no projeto Conga, na província de Cajamarca.

Além disso, não houve aumento nos investimentos em educação e saúde, e agora se coloca um projeto de lei de reforma universitária que não foi discutido em nenhuma instância com participação da comunidade universitária: “Falam de democracia, mas qual? Se querem nos impor uma lei que nunca foi debatida pela comunidade. Os protagonistas reais de uma reforma não deveriam ser os estudantes, os professores, a comunidade universitária, o povo? Por que só os deputados?” declarou o estudante Luis Durán, ativista do COEN e vice presidente da Federação dos Estudantes Peruanos (FEP) em entrevista à mídia local.

Enquanto o ensino público básico e universitário padece sem aumento dos investimentos e começa a cobrar dos estudantes medidas de assistência estudantil, por exemplo, cresce significativamente as escolas e universidades particulares: “Nos cobram pela moradia, pelo ensino médio, o diploma, o cartão de meia passagem, serviços de saúde, restaurantes e muito mais. A lei de gratuidade do ensino é letra morta.” em outra declaração de Durán.

Os indignados chegam ao Peru!

calles ocupadas Por esses problemas, e inspirados nas mobilizações de junho no Brasil, o movimento estudantil peruano tem organizado diversas manifestações de rua desde o início de julho, que foram duramente reprimidas, como pudemos ver também no início da luta contra o aumento das passagens no Brasil. Um dos movimentos linha de frente desses protestos é o Comando Estudantil Nacionalista, o COEN, uma organização de estudantes secundaristas, universitários e jovens trabalhadores, que juntamente com o Juntos, a juventude venezuelana do Marea Socialista e a Juventud Socialista do MST argentino organizamos o I Acampamento Internacional da Juventude Anticapitalista e Anti imperialista em março deste ano em Buenos Aires.

Todo este cenário na política peruana, e com a força das mobilizações de juventude em defesa da educação e das comunidades locais em defesa de seus recursos naturais criou cenário para ajudar a despertar e encorajar outros setores de trabalhadores e movimentos sociais que não se contentam mais com as parcas reformas concedidas pelo governo de Humala, em contrapartida a grandes concessões para o capital privado.

É necessário construir uma alternativa política

ato mpgt Neste contexto se organizou o Movimento Por uma Grande Transformação (MPGT), que se propõe a resgatar o programa abandonado por Humala e reorganizar os ativistas e movimentos em torno da construção de uma alternativa política que inicie uma transformação real do modelo econômico e de exploração que existe no Peru. No último sábado, 03 de agosto, foi realizado o Congresso Fundacional do MPGT, que reuniu mais de 300 pessoas, de diversos movimentos e grupos políticos que romperam com o governo de Ollanta Humala e o PNP e buscam um espaço que supere todas as falsas saídas vividas até agora. Foi um congresso bastante representativo das lutas no Peru, com participação de várias províncias de norte a sul do país, como Cajamarca e região que lutam contra o projeto da grande mineradora Conga, representantes de sindicatos da construção civil, mineiros e outros, jovens ativistas do movimento estudantil e indígena.

O Juntos! se fez presente no Congresso Fundacional do MPGT a convite do COEN, para compartilharmos a experiência acumulada com as jornadas de junho no Brasil. A juventude peruana, especialmente através de COEN, tem sido muito protagonista na construção deste movimento, e se espelha muito no que a juventude brasileira construiu a partir de junho ocupando as ruas, chegando a 2 milhões de pessoas e derrubando o aumento das tarifas de ônibus em várias cidades pelo Brasil.

Também tivemos momentos de plenárias dos jovens do COEN e independentes, em que pudemos socializar as experiências, diferenças e semelhanças entre Brasil e Peru, o papel fundamental da juventude em ser protagonista deste novo período de lutas no mundo e como podemos conectar nossas lutas e nos comunicar através do grande potencial das redes sociais.

Brasil como exemplo para o Peru

juntos e coen Pude visitar a Universidade Nacional La Cantuta, símbolo do movimento estudantil peruano, onde representei o Juntos! em uma roda de conversa organizada por estudantes ativistas do COEN. Discutimos a reforma universitária que o governo de Humala quer empurrar, a luta em defesa da educação pública, como as mobilizações de jovens pelo mundo se assemelham e se aceleram nos últimos meses, e a importância do “gigante Brasil ter despertado”, porque após o levante de junho a burguesia e o governo peruanos não podem mais usar o Brasil como país modelo de desenvolvimento e em que essa mesma política limitada aplicada por Lula/Dilma no Brasil e Humala no Peru é suficiente para atender aos anseios da população.

A juventude peruana, assim como a brasileira, tem experimentado que não basta um discurso diferente e aparência de mudança, mas que é necessário que os governos se comprometam concretamente com as reivindicações do povo, que acabem com a corrupção, dando fim aos privilégios que os políticos desfrutam, abrindo as discussões de reformas sociais e políticas à participação direta da população, aumentando os salários dos professores e diminuindo dos deputados e senadores, nacionalizando os recursos naturais e respeitando as comunidades originais e territórios indígenas, investindo em saúde, educação e transporte públicos ao invés de construção de estádios, especulação imobiliária e acordos com grandes empresários e bancos.

Nós do Juntos, que entendemos que a juventude que se levanta em vários países em defesa da educação como no Chile, por democracia como no Egito e Turquia, contra as medidas de austeridade impostas na Espanha, Portugal e Grécia, e muitas outras juventudes indignadas, defendemos que toda essa revolta tem centro no modelo capitalista e imperialista de economia e sociedade que está no mundo inteiro, e por isso a construção de outro futuro passa pela organização da luta internacional. Nesse sentido, reafirmamos nosso compromisso com a luta da juventude peruana, através da parceria com o COEN. E reiteramos, a partir do grande avanço que tivemos com o I Acampamento Internacional de Juventude em Buenos Aires, a perspectiva da construção do II Acampamento, no Brasil.

O capitalismo não tem fronteiras, portanto nossa luta também deve ultrapassá-las!

“No hay fronteras en esta lucha a muerte, no podemos permanecer indiferentes frente a lo que ocurre en cualquier parte del mundo; una victoria de cualquier país sobre el imperialismo es una victoria nuestra, así como la derrota de una Nación cualquiera es una derrota para todos.” (Ernesto Che Guevara)

“Não há fronteiras nesta luta de morte, nem vamos permanecer indiferentes perante o que aconteça em qualquer parte do mundo; uma vitória de qualquer país sobre o imperialismo é uma vitória nossa, assim como a derrota de qualquer nação do mundo, é uma derrota de todos.”

* Evelin Minowa é membro do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017