Uma discussão sobre o ato de 14/08 em São Paulo e a “ocupação” da Câmara: nossa luta deve ser com o movimento!

15/ago/2013, 16h28

Thiago Aguiar*

Ontem, no centro de São Paulo, foi realizado por diversos movimentos sociais e organizações políticas e sindicais, como MPL, Sindicato dos Metroviários, Juntos!, MTST, Rompendo Amarras, entre outros, o primeiro ato contra o propinoduto tucano – denunciado pela imprensa e investigado pelo Ministério Público e o Cade a partir de declarações da Siemens –, um escândalo de superfaturamento e propinas nas obras do Metrô de São Paulo e da CPTM.

1185104_666474613365355_1622969826_nA população de São Paulo sabe que Alckmin e os tucanos são os responsáveis pelo escândalo de corrupção no metrô e nos trens. A política neoliberal, truculenta e agora comprovadamente corrupta de Alckmin e do PSDB à frente de São Paulo é sentida por todos como responsável pelo caos urbano, pela falência dos serviços de transporte e pelo sucateamento dos serviços públicos. Por isso, a palavra de ordem “Fora Alckmin”, mesmo não sendo o mote principal da convocatória do ato, contaminou naturalmente os milhares de presentes. É preciso derrotar nas ruas o governo tucano porque sabemos que não é possível ter nenhuma confiança na oposição petista na ALESP, sempre conivente com os ditames da supermaioria tucana, que transformou a assembleia num cartório. Por outro lado, todos se lembram de que Alckmin e Haddad estiveram unidos no aumento das tarifas, no chamado à repressão e à criminalização de nosso movimento.

Apesar de ter ocorrido no meio da tarde, num dia frio e chuvoso e mesmo tendo um percurso que não criou, como nos atos de junho, aprofundamento da polarização, o ato reuniu cerca de 5 mil pessoas e marcou o início de uma campanha que precisa continuar. O ato atraiu a atenção, nas redes e nas ruas, e mostrou que é preciso seguir a pressão. A unidade entre diversos setores, um dos importantes motores das jornadas de junho, precisa estar presente para que possamos dar os próximos passos. É com esta orientação que o Juntos! tem buscado, em todo este período, relacionar-se com os vários movimentos com quem temos lutado em conjunto nas ruas.

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A “ocupação” da Câmara de Vereadores promovida pela ANEL/PSTU

Por tudo isto, causou enorme estranhamento a postura da ANEL/PSTU durante o ato e, especialmente, no final, quando seus militantes saíram da manifestação para organizar, sozinhos, uma “ocupação” da Câmara de Vereadores de São Paulo. Tratou-se de um ato planejado, organizado e executado somente por este setor, por fora do movimento, com vistas à autoproclamação de que a “ANEL/PSTU ocupou a Câmara”. É preciso, em primeiro lugar, debater o significado de uma ocupação da Câmara de Vereadores, num momento em que NÃO HAVIA SESSÃO, debate em plenário, nem nenhuma mobilização real dos milhares que ocupavam às ruas que justificasse esta ação. Na verdade a “ocupação” resumiu-se à presença de cerca de 20 militantes da ANEL/PSTU que se instalaram nas galerias, onde permaneceram durante uma hora, e estenderam faixas já prontas de que a ANEL havia ocupado a Câmara, além de uma bandeira do PSTU. Do lado de fora, militantes da ANEL/PSTU protestavam em apoio à “ocupação”, levando com eles outros grupos e militantes independentes q ue estavam no ato, muitos dos quais não sabiam de fato o que se passava por ali. Como resultado, os cerca de 200 ativistas presentes tiveram um enfrentamento com a Polícia Militar, que resultou em alguns militantes agredidos e poderia ter levado a consequências piores, como prisões e ferimentos mais graves aos companheiros. Uma postura completamente equivocada e irresponsável, construída por fora do movimento, e distracionista. A ida à Câmara, para supostamente exigir a aprovação de um projeto de passe-livre estudantil, apesar da justeza da reivindicação, foi vista por muitos como descabida, fora do eixo das mobilizações daquele dia. O único interesse do ato foi, na verdade, divulgar as fotos do punhado de militantes da ANEL/PSTU, que passou pouco tempo sentado na galeria de espectadores do plenário, na pretensa “ocupação”.

Nenhum outro setor do movimento foi procurado para debater e construir esta atividade. Na última reunião de organização do ato, ocorrida na terça-feira, esta proposta não foi apresentada, sequer insinuada. Pelo contrário. Companheiros metroviários do PSTU e vários outros setores presentes colocaram-se explicitamente contra a realização de qualquer ação direta no ato, o que demonstra que a “ação exemplar” da ANEL/PSTU foi construída intencionalmente por fora do movimento do dia 14/08 e de suas pautas. Uma iniciativa que lamentavelmente visava somente à autoproclamação deste setor. Nós, do Juntos!, quando percebemos a movimentação dos companheiros da ANEL/PSTU no fim do ato, buscamos conversar e saber o que pretendiam, com o intuito de inclusive contribuir, junto a outros setores, com novas ações. Após muitas evasivas de alguns dirigentes, Zé Maria, presidente do PSTU, explicou o que pretendiam. Nós buscamos, então, os outros movimentos, para saber como se posicionavam. TODOS, incluindo MPL e MTST, disseram que NÃO iriam construir esta iniciativa porque não foram convidados a debatê-la anteriormente e nem a construí-la. Mesmo assim, chegamos a ir à Câmara para ver do que se tratava a iniciativa. Confirmamos o que já era claro: tratava-se uma atividade de um punhado de militantes da ANEL/PSTU sem nenhuma disposição de contribuir para o movimento que ocorria no centro e suas pautas.

Consideramos este episódio lamentável e preocupante. As jornadas de junho mostraram que é preciso aprofundar nossa presença no movimento, a unidade entre diversos setores e a necessidade de diálogo com os ativistas, o movimento de massa e as pautas que construímos conjuntamente. A lógica de submeter o movimento à autoconstrução partidária e à prioridade de reprodução dos velhos aparatos da esquerda foi testada e derrotada nas ruas. Consideramos que os companheiros do PSTU, que nas últimas semanas se dedicaram a fazer críticas, no mais das vezes equivocadas, e a dar “conselhos” a setores tão diversos quanto os “Black Blocks” e os vereadores do PSOL do Rio de Janeiro, deveriam olhar para suas próprias práticas e revê-las. A luta contra a corrupção do governo Alckmin e pela ampliação de nossos direitos, contra a velha política de PT, PMDB e PSDB, não passa por iniciativas isolacionistas, autoproclamatórias, irresponsáveis e que viram as costas aos milhares que seguem em luta. Estas, pelo contrário, dispersam energias e ajudam o governo Alckmin a recuperar fôlego. Esperamos que os companheiros da ANEL/PSTU estejam na luta pelo Fora Alckmin COM O MOVIMENTO. É a melhor contribuição que todos podemos dar para construir “o novo” em São Paulo e no Brasil.

*Membro do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos!