Lutar pela legalização do aborto e contra o Estatuto do Nascituro é lutar pelo direito de decidir sobre o nosso próprio corpo!

13/out/2013, 11h11

*Janaína Calu Costa

Aproximadamente 60 pessoas se reuniram no último dia 10 de outubro na Universidade de Brasília (UnB) para debater a legalização do aborto e o absurdo Projeto de Lei denominado Estatuto do Nascituro. Essa foi a primeira atividade aberta realizada pelo Juntas! no Distrito Federal e já demonstrou o quanto o debate feminista é urgente e necessário na capital do País.

Apresentamos a trajetória do nosso coletivo e o projeto que nos move hoje, que é um feminismo não descolado das lutas gerais da juventude. As jornadas de junho foram fundamentais para a saída das mulheres às ruas, lutando pela garantia de muitos direitos historicamente negados e outros que têm retrocedido nos últimos anos, sendo usados como moedas de troca em negociatas políticas.

O tema do aborto é muito caro para nós, mulheres. Esse projeto, defendido pela bancada evangélica da Câmara dos Deputados, nada mais representa do que a consolidação da retirada de direitos sexuais e reprodutivos e intensificação do controle social sobre o corpo das mulheres.

Nossa convidada, representante da Anis Bioética, a pesquisadora Miryam Mastrella, apresentou dados importantes sobre o perfil da mulher que aborta do Brasil; o histórico da luta pela garantia da interrupção da gestação em casos de anencefalia (situação de incompatibilidade com a vida após o nascimento); a importância de um Estado verdadeiramente laico e as razões pelas quais o aborto deve ser descriminalizado no País.

Para concluir as intervenções, foi feito um chamado à luta e à organização, já que somente assim, ocupando as ruas conseguiremos vitórias concretas! A atividade fez parte da Jornada Nacional de Luta Contra o Estatuto do Nascituro, e serviu como espaço potencializador das lutas que se seguirão contra esse projeto e para enfim derrubarmos Marco Feliciano!

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A atividade foi encerrada com uma emocionante participação. Contamos com a intervenção artística mais do que especial das representantes Júlia Nara e Larissa Delfante, do Coletivo ArtSam. Elas trouxeram, através da poesia e do rap, a leitura da periferia para questões que tocam diretamente a vida das mulheres, como a sexualidade, a distância dos centros da cidade e a opressão racial.

Mulheres Negras, do Facção central, foi um dos poemas interpretados:

“Enquanto o couro do chicote cortava a carne,
A dor metabolizada fortificava o caráter
A colônia produziu muito mais que cativos,
Fez heroínas que pra não gerar escravos, matavam os filhos
Não fomos vencidas pela anulação social
Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial
O sistema pode até me transformar em empregada,
Mas não pode me fazer raciocinar como criada
Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo,
As negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo
Lutam pra reverter o processo de aniquilação
Que encarcera afrodescendentes em cubículos na prisão
Não existe lei Maria da Penha que nos proteja
Da violência de nos submeter aos cargos de limpeza
De ler nos banheiros das faculdades hitleristas,
Fora macacos cotistas
Pelo processo branqueador não sou a beleza padrão,
Mas na lei dos justos sou a personificação da determinação
Navios negreiros e apelidos dados pelo escravizador
Falharam na missão de me dar complexo de inferior
Não sou a subalterna que o senhorio crê que construiu
Meu lugar não é nos calvários do Brasil
Se um dia eu tiver que me alistar no tráfico do morro,
É porque a Lei Áurea não passa de um texto morto
Não precisa se esconder, segurança
Sei que cê tá me seguindo, pela minha feição, minha trança
Sei que no seu curso de protetor de dono praia,
Ensinaram que as negras saem do mercado com produtos em baixo da saia
Não quero um pote de manteiga ou um xampu,
Quero frear o maquinário que me dá rodo e URU
Fazer o meu povo entender que é inadmissível,
Se contentar com as bolsas estudantis do péssimo ensino
Cansei de ver a minha gente nas estatísticas,
Das mães solteiras, detentas, diaristas.
O aço das novas correntes não aprisiona minha mente,
Não me compra e não me faz mostrar os dentes
Mulher negra não se acostume com termo depreciativo
Não é melhor ter cabelo liso, nariz fino
Nossos traços faciais são como letras de um documento
Que mantém vivo o maior crime de todos os tempos
Fique de pé pelos que no mar foram jogados,
Pelos corpos que nos pelourinhos foram descarnados
Não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria,
É atrair gringo turista interpretando mulata
Podem pagar menos pelos mesmos serviços
Atacar nossas religiões, acusar de feitiços
Menosprezar a nossa contribuição na cultura brasileira,
Mas não podem arrancar o orgulho de nossa pele negra
Mulheres negras são como mantas Kevlar,
Preparadas pela vida para suportar
O racismo, os tiros, o eurocentrismo,
Abalam mais não deixam nossos neurônios cativos.

Finalizamos esse primeiro espaço, convencidas que só com muita luta, comprometimento e mobilização teremos vitórias para as mulheres. Nossos próximos passos serão levar esse e outros debates para espaços além do plano piloto, nos organizando também nas cidades satélite, na periferia; Juntos! com todos os indignados.

Assista ao vídeo:

Uma história Severina: documentário conta a saga da agricultora pernambucana Severina Ferreira, grávida de um anencéfalo, em busca de licença para interromper a gestação .

*Janaína é nutricionista e militante do Juntas! no Distrito Federal