Cotas para entrar e direitos a se conseguir: é hora de emancipar o negro!

18/nov/2013, 09h47

Guly Marchant*

 

A educação pode ser uma importante ferramenta para a emancipação do individuo, dizia Freire. Com o domínio dela o sujeito seria capaz de compreender e intervir na sociedade, bem como em seu destino. O sonho do Freire ainda encontra obstáculos de norte a sul do nosso país, seja pela lógica mercadológica com que a educação é pensada desde as universidades até as escolas básicas, seja pela falta de investimento que limita e prejudica o desempenho de profissionais e estudantes. Nesse sentido, pode-se dizer que a educação segue exercendo seu papel de dominação, formando indivíduos que ao invés de compreender a realidade, aceitam, que ao invés de intervir, acomodam-se.

Escolas públicas e particulares sofrem com a lógica mercadológica, mas ainda são das particulares que saem os chefes e das públicas, os empregados. Pode-se contestar essa afirmação a partir da aplicação das cotas, contudo, sua recente aplicação ainda não foi suficiente para equilibrar a balança da desigualdade. São os estudantes das escolas públicas, principalmente da periferia, que sofrem e sentem na pele a dominação imposta por está educação, ainda que existam cotas. Também são os estudantes das escolas públicas da periferia que deixam a escola antes de se formar seja para ajudar a família, seja pelo tentador dinheiro do tráfico. Não coincidentemente são nessas escolas que encontramos o maior número de estudantes negros, as principais vítimas da dominação imposta pela educação. Estamos na Semana da Consciência Negra e não há como falar em consciência sem fazer um importante debate a cerca da relação entre educação e população negra.

A dominação pode ser aplicada de duas maneiras: a imposição física e a imposição ideológica, como disse Antonio Candido. Felizmente a modernidade fez com que a primeira ficasse a margem, o que não impede sua utilização ainda hoje, principalmente quando se trata da polícia. Foi com a imposição física que os europeus subjugaram os povos africanos e desencadearam o processo de escravização, que no Brasil durou até 13 de maio de 1889, ao menos na forma física e oficial. Desde então, nós, negros, temos lutado contra a dominação ideológica. Esta que impõe um padrão de beleza, cabelo bom e um ruim, entre outros.

O reconhecimento do dia 20 de novembro como data de comemoração e de luta para a população negra do Brasil é um aspecto importante no combate à educação dominadora. Pois é fruto de uma importante luta travada pelo movimento negro para reconhecer a história de luta construída pelos antepassados negros que se negaram a ouvir a história contada pelos “vencedores”. Claro que não somos apenas um dia no calendário, mas o contraponto que o 20 de novembro faz com o 13 de maio tem um importante significado e nos ajuda a compreender como a educação ainda hoje está a serviço da dominação do negro.

Na sociedade história das civilizações a educação assim como as outras instituições sempre desempenhou o papel de reproduzir a ideologia das classes dominantes sobre de forma a evitar contra tempos. Foi assim quando discutiram se a terra era redonda,quando a educação era eclesiástica, quando mulheres não podiam ler e ainda hoje quando o kit anti-homofobia é vetado. Assim, o racismo também acaba entrando nas salas de aula. Um simples exercício nos permite fazer essa analise, vá à biblioteca de uma escola infantil e veja quantas princesas negras existem nos contos de fadas. Ou quantos super-heróis negros têm seus bonecos guardados na brinquedoteca. Coisas simples, mas que fazem uma criança se perguntar sobre seu lugar no mundo, uma vez que vê pessoas como ela na página policial dos jornais e não nas histórias de heróis e heroínas.

Todavia, é no campo da história real, e não no mundo imaginário das crianças, que a educação dá seu golpe mais violento. Quantos heróis, heroínas, princesas e príncipes negros não tiveram sua história negligenciada pelo eurocentrismo que domina a educação no Brasil? Infelizmente a história do negro no mundo iniciasse somente com os primeiros navios negreiros. No Brasil, a abolição segue sendo lida como uma concessão da excelentíssima princesa Isabel. E as religiões de matriz africana permanecem à sombra de um deus romano. Todos possuem um passado, contudo, o passado do povo negro segue sendo negado, como se não fosse parte da construção do país.

A construção da imagem do negro a partir da educação tem como fim a redução da auto-estima, uma maneira de inibir aspirações como quem diz: esse é teu lugar na sociedade. As conseqüências deste tipo de educação são ruins tanto para negros quanto para não negros. De um lado os negros são ensinados a aceitar a sina de uma sociedade em que nasceram para serem explorados, com ou sem correntes nos braços. Do outro é naturalizada a marginalização da população negra, ou seja, perpetuação do racismo.

Fica evidente que precisamos de outro modelo de educação. Um modelo que esteja comprometido com a igualdade e emancipação dos indivíduos. As cotas em universidades podem ajudar nesse processo, contudo, não podemos esquecer que a acadêmica comete os mesmos, e até piores, erros que a escola básica, uma vez que estão sob a mesma lógica. Cabe a nós ocupar, resistir e afirmar nossa cor, cultura e história como forma de pressionar as estruturas que sustentam essa educação conservadora.  Fazer com que cada dia seja dia de Zumbi.

*Guly Marchant é estudante de jornalismo na UFGRS, militante do Juntos! Negros e Negras e do Juntos! RS