Da moda a globeleza: mulher negra e sua identidade apagada

22/nov/2013, 16h25

Laila Resende*

A Revista Bula lançou recentemente uma pesquisa que objetiva identificar quais as 10 mulheres famosas mais belas dos últimos cem anos.

De acordo com a revista, para se chegar ao resultado, foi feito uma compilação de reportagem e listas publicadas em jornais, cinema e personalidade iconográficas. A revista assinala que a lista é passível de questionamento, no entanto ela destaca que tais mulheres são referencias explicitas da beleza feminina no século 20.

O que chama atenção nessa listagem não é o fato das mulheres eleitas terem, de acordo com a própria Bula, resistidos ao tempo e as máquinas de fabricarem modelos, mas é que todas, eu disse, todas, seguem o mesmo padrão de beleza: brancas, magras e extremidades delicadas, ou seja, um padrão eurocêntrico. A lista demonstra a predileção de um padrão de beleza socialmente criado (e reproduzido) durante séculos.

Não houve entre elas nenhuma representação de mulher negra, mas o porque disso é fácil de identificar.

É custoso citar 5 negras bonitas e famosas nos últimos cem anos. E sabem por que? Porque a mulher negra cabe o lugar da invisibilidade. Para a mulher negra não existe espaço na mídia como um todo, a menos que ela ocupe um lugar de subalternidade. Infelizmente, nos dias de hoje, a mulher negra ainda é vista como a Mulata Exportação, a mulata Globeleza (vejam bem, eu disse Globeleza e não Menina Fantástico, que foi outro concurso criado pela mesma emissora de TV), ela ainda carrega clichês como a sensualidade nata, o gingado natural às pessoas de cor. O lugar forjado para as mulheres negras na mídia é o protagonismo do racismo e do sexismo.   As referencias iconográficas relacionadas à figura de tais mulheres ainda aludem à marginalidade.

No dia 07 de novembro, uns grupos de 40 mulheres negras fizeram um protesto na Zona Portuária, em frente ao Píer Mauá, local da primeira noite de desfile do Fashion Rio.

O ato se deu devido à escassez de model@s negr@s nos casting de desfiles e a consequência foi a assinatura de um termo de compromisso por parte da empresa realizadora do evento e a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, que recomenda a cota de 10% de modelos negr@s nos desfiles. Porcentagem ainda ínfima se for pensar na parcela negra da população

O fato de existir ainda uma mídia excludente quanto a padrões de beleza diferentes daqueles estabelecidos e propagandeados pelas mesmas significa minimamente que a luta contra o racismo ainda tem muito que avançar na medida em que, ele inviabiliza a construção da identidade da mulher negra, fere sua autoestima e perpetua o racismo a partir do momento em que defende claramente o padrão de beleza branco, a prova disso está nos cinemas, nas novelas, no seriados. E dessa forma ela ajuda a incutir a inferiorização da mulher negra na sociedade.

No dia 20 de novembro comemora-se o dia nacional da consciência negra. O dia que rememora a luta de resistência do povo negro no nosso país. Nos dias atuais, a nossa luta por resistência se dá para que as mulheres negras saiam da invisibilidade e assumam o papel de protagonista da sua própria história e transformadora de sua realidade.

 Laila Resende é estudante de Psicologia e militante do Juntos! MG