Machismo na sala

08/nov/2013, 13h33

Cindy Ishida*

Einstein, Picasso, Drummond, Che: da Física ás revoluções, parece que a história é só feita por homens. Sabemos que a realidade não é assim, mas nossa sociedade inviabiliza as mulheres da história e da ciência, e isso se reflete no conteúdo dos currículos. E se pararmos para olhar pros professores, dentro da escola mesmo, vamos ver um padrão bem curioso: quem dá aula de matemática ou física é quase sempre um homem, literatura ou artes quase sempre uma mulher. Nos cursinhos podemos ir um pouco mais longe, quase nunca entra uma mulher pra dar aula.

A escola que era pra ser um lugar para produção de conhecimento e reflexão é, nesse ponto, reprodutora de opressão de gênero sistematizada. Quantas grandes engenheiras estamos perdendo por sermos constantemente discriminadas por nossos professores de exatas?

Fora isso, sofremos todo tipo de violência e assédio que as mulheres adultas sofrem, pois desde muito pequenas nós já somos acusadas de sermos culpadas por qualquer violência que sofremos.

Essa semana foi divulgado esse vídeo e é absurdo o tratamento que algumas pessoas dão ao caso, algumas culpando a menina de 11 anos (ONZE!) de gostar do assédio do professor , afinal ele é homem e tem instintos que não pode controlar.

Eu já ouvi esse mesmo argumento da diretora de uma escola onde estudei, justificando o porque não poderíamos mais usar shorts e blusas decotadas na escola. Esse mesmo argumento é usado todos os dias para transferir a culpa do estuprador para as vítimas, em muitos casos.

Quando nos levantamos contra professores ou colegas que fazem piadas machistas na aula, muitas vezes passamos a ser perseguidas e taxadas de loucas, do mesmo jeito que fazem quando reclamamos de uma encoxada no ônibus ou de uma cantada na rua.

A questão se torna ainda mais urgente quando vemos nas últimas pesquisas que os casos de estupro aumentaram 20% no Brasil, superando os homicídios dolosos. E até o governo federal teve que se manifestar.

Lutar contra o machismo na escola passa por tudo isso, mas não podemos nos intimidar e temos de guiar com o exemplo todas as meninas que também se sentem desconfortáveis com tudo isso.

Queremos uma educação que discuta e desconstrua os estereótipos de gênero. Em que temas sobre orientação sexual sejam considerados como temas transversais, sem tabus ou preconceitos nos currículos. Em que vídeos que sirvam para combater a homofobia nas escolas não sejam vetados. Queremos uma educação não sexista e libertadora para mulheres e homens.

Enquanto estivermos caladas as coisas seguem como estão, quando uma se levanta as outras percebem que não estão sozinhas, quando muitas se levantam podemos mudar a escola, e isso não é pouca coisa.

*Cindy Ishida é do Juntos nas escolas de SP