O Juntos está determinado a conquistar o Asilo a Edward Snowden no Brasil

27/dez/2013, 15h08

Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 2013

“O preço do meu discurso foi meu passaporte, mas eu o pagaria novamente: não serei eu que ignorarei a criminalidade em nome do conforto político. Prefiro virar apátrida a perder minha voz.”

Edward Snowden, Carta Aberta ao Povo do Brasil

 

O Grupo de Trabalho Nacional do Juntos, às vésperas de 2014, através desse comunicado convoca,  em caráter de mobilização permanente, o conjunto de seus militantes, apoiadores e simpatizantes a partirmos para uma nova e decidida etapa na luta pelo Asilo Diplomático e Humanitário a Edward Snowden no Brasil.

 

Ontem, dia 26 de dezembro, tivemos uma importante reunião do Juntos com David Miranda, coordenador da campanha por Asilo para Snowden no Brasil. Durante este encontro, que marca nossa história, elaboramos um conjunto de atividades relacionadas a essa luta. Uma reunião com um significado extraordinário. Está na agenda de todos os camaradas que se referenciam no Juntos empenhar os esforços necessários para termos êxito nesta difícil e necessário empreitada.

 

Quando em meados de 2013 estouraram as denúncias de Edward Snowden, 30 anos, ex-técnico de tecnologia da informação da Agência de Segurança Nacional (NSA, National Security Agency) dos EUA, tomamos como nossa a luta pela sua liberdade. Snowden revelou ao mundo os segredos da diplomacia secreta dos EUA, através de um mega sistema de vigilância eletrônica global, o Prism, que viola a privacidade de bilhões de cidadãos e governos, através do acesso aos servidores das gigantes da internet, como Facebook, Google, Apple, Microsoft, Yahoo, Skype, entre outras.

 

As publicações no The Guardian de Glenn Greenwald, jornalista inglês radicado no Brasil, e Laura Poitras, jornalista estadunidense que reside em Nova Iorque, a partir de farta documentação obtida por Snowden trouxeram a discussão sobre a espionagem à tona. A partir desse momento, Snowden protagonizou uma fuga cinematográfica do Havaí para Hong Kong, de lá para Moscou, onde ficou um mês na área de trânsito internacional do aeroporto Sheremetyevo, até obter asilo por um ano na Rússia. O acordo com o governo russo é de não seguir seu trabalho de denúncia em troca da residência temporária. Esse tempo é crucial para que consigamos obter asilo permanente em algum país do mundo que lhe garante a liberdade para seguir sua vida, com liberdade e privacidade, livre das ameaças do governo Obama e sem as restrições impostas por Putin. Acreditamos que o Brasil é o país que pode garantir isso a Snowden, numa demonstração global de defesa dos Direitos Humanos.

 

Liberdade no século XXI: uma causa do Juntos

 

A defesa da liberdade da internet, da privacidade às informações do cidadão e da máxima transparência dos governos são bandeiras permanentes do Juntos. Na era da informação digital e do mundo conectado em rede essas postulações nunca foram tão importantes. São nosso ponto de contato com a filosofia dos cypherpunks (criptopunks, em tradução livre): “privacidade para os fracos, transparência aos poderosos”. Essa é a chave entre as lutas da juventude indignada no mundo e no Brasil com ativistas como Julian Assange, o criador do Wikileaks.

Desde o vazamento das atrocidades cometidas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, passadas a Assange por Chelsea Manning, a soldado do exército dos EUA submetida a prisão e julgamento de exceção como traidora da pátria por denunciar os abusos de guerra, o Juntos está engajado nessa causa.

 

Manning, Assange, Snowden

 

Três pessoas, Manning, Assange e Snowden pagam com sua própria liberdade pela decisão de denunciarem ao mundo à máquina de vigilância e de guerra dos EUA.

Manning, como dito, está submetida a um julgamento e prisão militar, tendo tido seus direitos legais e humanos violados sistematicamente.

Assange está refugiado na Embaixada do Equador em Londres, há mais um ano, fugindo da emboscada armada pelos governos dos EUA e Reino Unido, em parceria com o governo da Suécia, para prendê-lo por crime de estupro em território sueco e deportá-lo para os EUA. Da mesma maneira que cometer um cidadão australiano, cometer um suposto crime em Estocolmo e ser deportado para os EUA é uma incoerência gritante, é correto afirmar que a acusação imposta a Assange é caluniosa e falsa, uma tentativa de desmoralizá-lo frente a opinião pública e obrigá-lo a escolher entre o exílio na Embaixada equatoriana do que ser levado a um julgamento de exceção nos EUA, assim como Manning.

Snowden foi obrigado a fugir deixando família, amigos e sua casa para não ser esmagado pela fúria do império estadunidense. Aqui, a história também se fez ao contrário. Quem defendeu a privacidade dos cidadãos é chamado de inimigo do Estado, traidor e cúmplice do terrorismo. Contudo, como o próprio Snowden afirmou, em entrevista exclusiva ao Fantástico, passados seis meses de suas denúncias, a NSA não apresentou um exemplo de combate ao terrorismo comprometido pelas revelações de Snowden. Ao passo que o mundo todo sabe que as comunicações de bilhões de pessoas são violadas diariamente, sejam elas você, nós, Dilma Rousseff ou Angela Merkel.

 

David Miranda, Juntos e Avaaz

 

David Miranda é um jovem brasileiro que também submeteu sua vida a essa causa. Recentemente esteve na Europa para apurar dados para novas reportagens acerca da espionagem eletrônica. Foi levado a um interrogatório de exceção pela polícia inglesa no aeroporto de Heathrow em Londres. Durante 9 horas, sem direito a advogado, proteção legal e direitos básicos, Miranda foi detido e interrogado sobre suas relações com Snowden, Glenn, as denúncias da NSA. Após esse tempo foi liberado sem nenhuma acusação, mas teve confiscado equipamentos eletrônicos, incluindo telefone celular, laptop, câmera, cartões de memória, DVDs e jogos. Parafraseando Snowden, esse não é um mundo em que estamos dispostos a “apoiar, a construir e a viver”. Por isso, atendemos imediatamente o chamado da equipe do Avaaz e do próprio David para manifestarmos nosso pedido de asilo a Snowden diretamente a presidente Dilma, o que fizemos no último dia 19 em São Paulo.

 

David Miranda é o coordenador da campanha pelo Asilo a Snowden no Brasil. Em parceira com o Avaaz, principal site de petições online do mundo, lançaram abaixo assinado para que Dilma conceda asilo diplomático a Snowden. Até esse momento mais de 70 mil pessoas já são signatárias do documento.

 

Nossas iniciativas nessa pauta são anteriores a 2013

 

Não começamos a lutar pela liberdade de Snowden, Assange, Manning e pela luta de Glenn, Laura e Miranda em dezembro de 2013. Nesse terreno nos reportamos a uma das lutas mais importantes do início do século XX, a luta pelo fim da diplomacia secreta, que manipula interesses às costas da população para atender interesses das grandes corporações.

Como parte do movimento Juntos já estivemos com Honório Oliveira no Equador, trabalhando junto ao comitê daquele país pela liberdade de Julian Assange. Como desdobramento imediato dessa iniciativa um vídeo encabeçado pelo Calle 13 em apoio a Assange rodou o mundo pela internet. Como é sabido, o Equador asila o fundador do Wikileaks na sua Embaixada em Londres.

Antes disso ainda, Tiago Madeira, pelo Grupo de Trabalho Nacional do Juntos, participou dos fóruns de debate com o Democracia Real Ya da Espanha e outras plataformas de luta pela liberdade no mundo, pela internet e por sua atividade presencial. Madeira também esteve em Londres no apoio direto a Assange.

Rodolfo Mohr, em Brasília, esteve com a militância do Juntos em manifestação no Palácio do Itamaraty em Brasília, reivindicando em unidade com o Partido Pirata do Brasil, o Asilo a Snowden à cúpula da diplomacia brasileira. Em março de 2013 na UnB interpelou diretamente o então chanceler brasileiro Antônio Patriota para apoiar o Equador na decisão soberana de abrigar Assange. Demais militantes do Juntos no Distrito Federal manifestaram apoio a Snowden na audiência pública no Senado em que Greenwald falou aos senadores sobre as denúncias de espionagem da NSA.

Há uma semana, Thiago Aguiar entregou diretamente a presidente Dilma, uma máscara de Snowden e o pedido pelo seu asilo. Aguiar representou o Juntos em missão internacional com ativistas da Grécia e da Turquia, no intuito de aumentar os laços dos manifestantes em nível mundial.

Todos nós, militantes do Juntos, construímos o Acampamento Internacional da Juventude Anti-imperialista e Anticapitalista em Buenos Aires, Argentina, no qual uma das resoluções principais foi a luta pela liberdade na internet e de Assange e Manning. Poucos meses depois, Snowden entrou em cena e tornou-se um dos focos de mobilização da juventude em luta da América Latina.

 

Thiago Aguiar, David Miranda, Honório Oliveira e Rodolfo Mohr

Thiago Aguiar, David Miranda, Honório Oliveira e Rodolfo Mohr

 

 Nossas tarefas imediatas

 

Seremos parte da coordenação da campanha que irá tomar o Brasil na busca de sensibilizar a população para pressionar o governo brasileiro a asilar Snowden em nosso país. Queremos mobilizar a sociedade civil, os artistas engajados, os defensores dos Direitos Humanos, os jornalistas comprometidos com a liberdade de expressão, os blogues, professores, estudantes, cidadãs e cidadãos que enxergam a importância da privacidade nos tempos de vigilância eletrônica global.

Honraremos a coragem de todos os envolvidos ampliando a denúncia da “máquina orwelliana” da NSA e da CIA, na definição do juiz federal Richard Leon do Distrito de Colúmbia, no estado de Washington/ que declarou a inconstitucionalidade da espionagem da NSA/CIA.

Precisamos ampliar as ações com presença física da nossa militância e da intervenção urbana que escancare os riscos que os povos sofrem se permanecerem submetidos à espionagem. Toda nossa criatividade deve estar a serviço dessa luta.

Somos, em grande parte, responsáveis pela produção e disseminação da campanha nas redes sociais. Precisamos estar identificados para esse combate. Nossos nomes, fotos e mensagens nas redes sociais precisam da marca da campanha.

Novos momentos e novas revelações não terão hora, nem dia e nem nos avisarão quando aparecerem. Por isso a importância do estado de mobilização e atenção permanente. A qualquer momento podemos ser surpreendidos com novos fatos e precisaremos responder com agilidade e segurança.

Vamos investir tempo, energia e vigor para inverter a roda da dinâmica global. Asilar Snowden no Brasil é dar uma demonstração de força da cidadania e dos povos unidos pelos Direitos Humanos.

Devemos conversar e convencer, ativistas e movimentos engajados nas jornadas de junho, a aderirem à campanha, estimular o caráter colaborativo e de massas que precisamos atingir.

A petição online, a página no facebook e a conta no twitter são os canais oficiais de comunicação da campanha. Devem estar entre nossos favoritos desde já, nas quais devemos alimentar de interação e sugestões diariamente.

Nossa segurança enquanto movimento e pessoas está na publicidade dos fatos. O monitoramento sobre nossas ações será mais ostensivo e deve ser um estímulo à ação. A coragem é contagiosa, já diz o Wikileaks. Respondamos à repressão eletrônica e física com mais movimento e mais ativismo.

Trabalhamos muito para chegar no dia de hoje. Chegamos no ponto de partida. Enfim, começamos.

 

Grupo de Trabalho Nacional do Juntos