O ano em que ocupamos as ruas e o que virá: na rebelião da juventude por liberdade, seguiremos juntos!

26/dez/2013, 17h54

Thiago Aguiar*

Relembrar e debater as lutas e acontecimentos de 2013 talvez pareça algo banal ou mesmo desnecessário. Afinal, ao longo deste ano, no calor dos acontecimentos, muito foi dito, escrito e refletido em textos, reportagens, análises, publicações nas redes sociais, vídeos no YouTube… A variedade de discursos sobre tudo o que se relacionou às jornadas de junho de 2013, sem dúvida o maior marco político para uma geração de brasileiros, as imagens, os fatos e as opiniões parecem, terminando este que foi o maior ano de nossas vidas, ainda muito próximos. Talvez, na realidade, a impressão que muitos compartilhavam nas últimas semanas, pela intensidade de tudo o que fizemos, expresse realmente a verdade: 2013 é um ano que não termina, ao que acrescentaríamos: um ano que talvez não vá terminar com o fim da última folha do calendário.

As jornadas de junho, quando nas ruas derrotamos governos em todo o país, expressaram o que há algum tempo já sentíamos nos bairros, nas escolas, universidades: o desejo profundo de mudanças radicais em nosso país. O desejo por mais direitos e por chacoalhar este regime político falido que nos afasta da sociedade que queremos, com educação, saúde e transporte de qualidade. Também exigimos liberdades plenas: para manifestar-se e viver em nossos bairros, expressar nossa arte e nossas opiniões, sem sofrer com a repressão; ter direito a nossos corpos, a qualquer forma de amor… De uma forma ou de outra, era isto o que milhões manifestavam quando diziam que tudo aquilo não era só por 20 centavos. Agora, após os assassinatos de Amarildo e de Douglas, os jovens das periferias de São Paulo dão o recado com seus “rolezinhos”: a geração que passou 10 anos ouvindo do governo as promessas do consumo, as infinitas possibilidades do acesso ao mercado, da cidadania parcelada a crediário, não querem mais esperar. São jovens dispostos a mostrar que existem e que estão dispostos a colocar os pés nos templos onde nunca foram aceitos. Que acontecerá quando perceberem que o mesmo muro que os separa de direitos é o muro que os impede do acesso às marcas, grifes e hábitos que tentam vender-lhes como ideais de felicidade, mas que lhe são inacessíveis? Pois a resposta já começa a aparecer! Nas periferias das grandes cidades, grandes movimentos por moradia contestam governos e se mantém numa luta que só deve se fortalecer em 2014. Por outro lado, mais do que nunca, parcelas amplas da sociedade estão convencidas de que é hora de dizer basta: não aceitaremos novos Amarildos. Queremos a desmilitarização das polícias já!

O ano de 2013, que começou com “Fulecos” destruídos e em chamas em diversas capitais, terminou com a ascensão do Bom Senso F.C. e com a indignação frente à lama em que os cartolas transformaram o futebol. E a nossa indignação também foi contra eles: os mesmos que rebaixaram a Portuguesa para a série B para atender a interesses mafiosos, empresariais e do monopólio das comunicações, são os que administram os negócios da Copa. Padrão FIFA para os lucros das empreiteiras e das corporações bilionárias que exploram a paixão popular de um lado; de outro, abandono de reivindicações históricas como a aplicação imediata de 10% do PIB para a educação pública. A direção majoritária da UNE por sua vez, colada às orientações de Aldo Rebelo, o grande gerente a serviço da FIFA no governo, vendeu nosso direito à meia-entrada e convocou a juventude a ser voluntária nos megaeventos! A Copa das Manifestações que o povo jogou nas ruas em junho mostrou que ano que vem as ruas continuarão a ser a maior arquibancada do Brasil!

Em 2013 os indígenas se mobilizaram em todo o país pelo direito a suas terras ancestrais ameaçadas pelos ruralistas aliados do governo do PT, ao mesmo tempo que o governo Dilma é o que menos fez pela reforma agrária desde o governo do ditador Médici. José Eduardo Cardozo foi o ministro que revelou a verdadeira face do governo Dilma para os movimentos sociais: a lei de Organizações Criminosas, proposta por Cardozo e aprovada pelo Congresso em agosto, após as jornadas de junho, e a lei antiterrorista, que tramita no Congresso e deve ser aprovada no primeiro semestre sob medida para evitar novos protestos durante a Copa do Mundo, mostraram que o governo do PT quer derrotar os que se colocam em movimento, considerando quadrilha todos os que se organizam por mais direitos e contra os desmandos da “partidocracia” no Brasil. A “fórmula Cardozo” foi aplicada com rigor contra os protestos pelo leilão de Libra, numa das maiores privatizações da história do Brasil. Nossa luta por democracia e contra a repressão se fortalecerá em 2014, quando se completam 50 anos do golpe militar. Queremos verdade, reparação e justiça! Seguiremos exigindo o fim da Lei da Anistia e punições aos torturadores e assassinos da ditadura!

No mundo, grandes exemplos nos estimularam a seguir adiante. Na Turquia, a juventude que ocupou e resistiu na praça Taksim contra a privatização dos espaços públicos, mostrou que seguem as respostas do povo, dos trabalhadores e da juventude aos efeitos da crise econômica e a um modelo de desenvolvimento que serve para garantir os lucros das corporações e do capital financeiro. No ano em que Marco Feliciano passou a ser considerado, por milhões, sinônimo da intolerância que queremos derrotar no Brasil, veio, do nosso vizinho Uruguai, um grande exemplo. Após a legalização do aborto e do casamento igualitário, veio a importante conquista democrática da legalização da maconha, medida em favor da saúde e da segurança públicas, que servirá para estimular o debate em todo o continente, desmistificar preconceitos e dar um duro golpe no narcotráfico e em seus sócios maiores encastelados no sistema financeiro por onde circulam os bilhões das drogas, nos governos, em palácios legislativos, na Justiça e entre policiais corruptos.

Por último, mas não menos importante, o ex-agente da NSA Edward Snowden chacoalhou o imperialismo estadunidense ao revelar ao mundo os métodos que as agências de espionagem utilizam para interceptar as comunicações de quase todos os cidadãos ao redor do mundo. Snowden mostrou que o Brasil é o país estrangeiro mais espionado pelos Estados Unidos, que a Petrobrás e suas informações valiosíssimas sobre nossas reservas de petróleo, e até mesmo as comunicações de Dilma Roussef em seu gabinete foram interceptadas. Perseguido, obrigado a fugir, Snowden, hoje provisoriamente instalado na Rússia, escreveu uma carta ao povo brasileiro apelando para que nosso país conceda-lhe asilo. Estaremos engajados nesta luta desde os primeiros dias das denúncias de Snowden e seguiremos nela em 2014!

No ano que vem, seguiremos nas ruas, participando de novas lutas, construindo novos junhos! Estaremos com a juventude que, em todo o Brasil, levantou a cabeça em 2013 e quer construir com suas mãos outro país. Por mais direitos e liberdades, vamos com a juventude por novas rebeliões democráticas, novos levantes de luta e de conquista! Seguiremos Juntos!

Assista a Retrospectiva 2013 do Juntos:

 

*Thiago é membro do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos! e Diretor de Direitos Humanos da UNE pela Oposição de Esquerda

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