Por mais arrego e menos degradação!

04/dez/2013, 11h04

Daniela Possebon

Fabiana Lontra

Gabriella Müller[1]

Muito se tem falado ultimamente sobre dois aplicativos de internet e celular que estão fazendo sucesso: o Lulu e o Tubby, ambos com nomes que sugerem divisão de gênero e heteronormatividade (são os nomes em inglês dos famosos personagens que ficaram conhecidos no Brasil como Luluzinha e Bolinha, ambos os donos de clubinhos onde pessoas do outro sexo não podiam entrar). Estes aplicativos têm a finalidade de avaliar parceiros sexuais e seu desempenho num ambiente virtual onde todos os freqüentadores cadastrados têm acesso e podem coletar e/ou trocar opiniões consideradas “positivas” e “negativas”.

Surgido inicialmente, o Lulu se propôs a um espaço virtual onde mulheres avaliassem anonimamente parceiros sexuais masculinos apreciando prós e contras de se relacionarem com os mesmos baseado nas opiniões das demais. Erroneamente alguns entenderam o aplicativo como uma vingança ao que os homens já fazem em diversas outras mídias, não compreendendo que a resposta para a opressão não se faz com mais opressão. O espaço tem servido para degradar ou “encher o ego/honra de macho” dos homens em questão e tem recebido muitos processos, pois expõe fotos dos indivíduos sem autorização dos mesmos além de humilhações públicas – inclusive tendo sito instaurado um inquérito no Ministério Público sobre os aplicativos.

Como era de se esperar, em breve veio a resposta em mesmo gênero, número e grau: o Tubby, aplicativo lançado dia 04/12. Este é a versão masculina que pretende avaliar as mulheres de forma tão degradante ou mais (na própria pré-página do aplicativo uma das “avaliações” ao lado da foto da moça é #engoletudo e a outra #gostadetapas – práticas sexuais normais, que podem ser do gosto ou não da mulher, mas que carregam consigo uma série de preconceitos sobre a expressão da vida sexual feminina).

O problema no caso, além da “guerra de vingança” que não pretende findar tão breve, é que diversas outras mídias têm sido usadas para denegrir mulheres na expressão de sua sexualidade. Vídeos e fotos pornôs, print screens de conversas em redes sociais e outros são utilizados diariamente para envergonhar, perseguir, punir e controlar a sexualidade feminina gerando um sem número de depressões e suicídios dentre as vítimas, como vemos crescer nos noticiários do Brasil e do mundo. Não tomamos este problema como exclusivamente feminino, mas a relação entre as vítimas femininas e masculinas pende extremamente para a vitimização da mulher numa relação de “honra para o macho comedor” e “vergonha para a mulher que dá”.

O aplicativo Tubby pode gerar junto à violência simbólica e moral, violência física, pois expõe a vida sexual da mulher – que na nossa sociedade deve ser escondida, restrita ao ambiente privado (ao contrário da do homem que abrange sem tantos problemas, e até gerando capital social, o ambiente público) – a pessoas que podem utilizá-lo para encontrar parceiras para estupros ou a pessoas as quais a mesma não gostaria de compartilhar sua sexualidade, como familiares ou colegas de trabalho, por exemplo.

Além dos aplicativos reforçarem a opressão de gênero, estigmatizam as relações somente à validade da heteronormatividade, pois homens avaliam parceiras mulheres e mulheres avaliam homens. Relações homossexuais, transexuais, bissexuais e outras, não são consideradas e podem encontrar mais um canal de preconceito nestes. Os aplicativos também seguem uma ordem linear que não considera a dialética das relações onde as pessoas não seguem comportamentos lineares, podem gostar de algumas práticas sexuais com alguns parceiros e com outros não, podem variar seus gostos e práticas ao longo do tempo, ou seja, desconsidera completamente o trânsito saudável da sexualidade, da experimentação e do conhecimento.

Com a opção de retirar previamente seu perfil do Facebook desta berlinda machista, a mulher que o faz ainda é taxada pelo site de ter “arregado”. Se arregar é ter a auto-afirmação, confiança e dignidade de não aceitar mais uma expressão de relações que são vistas como um grande e preconceituoso mercado de carne, sim, somos “arregonas”! Somos pessoas e não mercadoria!

A internet e a comunicação devem ter o máximo de democracia e liberdade, porém, a democracia existe exatamente para que com sua constante avaliação e renovação evite que a liberdade de alguns fira uma massa de demais. O Lulu e o Tubby não acrescentam nenhum avanço, melhoria ou necessidade para o compartilhamento de informação, pelo contrário ressuscitam – e confundem, disfarçado na liberdade da informação – mais preconceito, humilhação e violência.


[1] As três autoras são militante do Juntas – Porto Alegre.

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