Gordinhas, ocupem as piscinas, os mares e os bares.

16/jan/2014, 14h19

*Babs Grayce

É verão, é aquela estação do ano em que as mulheres em geral se sentem muito oprimidas. O tempo todo somos bombardeadas com informações saudáveis e douradas para que nosso corpo fique perfeito no verão. Você não precisa necessariamente se sentir bem com ele, mas é obrigatório que ele seja perfeito. O que importa é o que parece ser e não o quê é de verdade.

A minha vida toda, eu odiei o verão. Não porquê eu tinha consciência de toda opressão do mundo, mas simplesmente porquê eu sentia todas elas, só não sabia o que era.

Sobre o inverno

Por anos, eu afirmava com todo o orgulho que minha estação preferida era o inverno. Normal, para fugir do frio, temos que esconder toda a nossa pele e curvas embaixo de muita roupa, é quentinho, pode ser sofisticado, mas, sobretudo, é seguro. Nós nos sentimos mais protegidas quando não temos que mostrar nosso corpo. E por que não podemos? A quem incomoda?

O frio é o lugar mais seguro para nos escondermos, no entanto, qual pecado capital formulado pelos deuses da beleza que cometemos que não podemos sair de nosso casulo e suar?

A Beleza

Quero aqui partir de uma verdade nada absoluta e bem manjada entre a maioria de nós: existe um padrão de beleza altíssimo que faz nós, mulheres, gorlindas ou não, algumas ou muitas vezes, vivermos em guerra com o nosso próprio corpo. Não quero falar sobre esse tipo de beleza, porquê ela é falsa.

Eu quero falar da beleza de ser, viver e sentir a vida sem pensar no que os outros estão pensando, sem pensar em qual padrão se encaixar (Existe opção?). Não é fácil, não é da noite para o dia, é um processo, assim como tudo na vida. Digo isso, pois quero falar de um processo que estou passando, o processo de me aceitar, assim como eu sou, assim como eu vivo. Quero escrever sobre a beleza de se descobrir, descobrir seu corpo e seus sabores. Refletir sobre as dores e vê-las como uma etapa que todo mundo, deus grego ou não, passamos.

O Sol.

Óbvio que se minha estação preferida era o inverno, eu tinha alergia a tudo que me lembrava verão: areia, sal, protetor, cloro, cores e Sol. Eu repugnava o sol, por dois motivos: fazia calor, logo, não podia me esconder dentro das minhas roupas escuras e por que para aproveitar o verão tinha que enfrentar o incomodo de procurar roupas de banho e frequentar piscinas e praias.

Eu me sentia extremamente mal com o Sol, já cheguei a trocar o dia pela noite, eu achava que não podia viver em um mundo em que a luz doesse tanto.

Meio que desencanei do inverno, o estação pra ficar doente! E o frio passou a se mostrar cada vez menos acolhedor, mas como eu sou difícil, testei o outono e a primavera como minhas estações preferidas.

Chegou a vez do verão, to experimentando e isso já faz dessa estação um pouquinho mais especial. To experimentando me olhar mais, mostrar minha pele, sentir o calor, contemplar o sol. To aceitando alguns desafios que viver coloca no nosso caminho, to usando biquíni sem crise, mas to me sentindo sozinha.

Piscinas, mares e bares.

Das piscinas que pulei, dos mares que visitei e dos bares que passei, senti falta das gordinhas. A praia é um dos lugares mais opressores que existem, é tipo a concretização de todo o discurso do ‘alcance o corpo perfeito para o verão’. Verão = praia = corpos esculpidos em concreto e banhados de mel. Muitas vezes você vai pro litoral e ouve: posto X é da galera Y. Cadê minha galera?

Onde estamos e por que não estamos aproveitando o verão? É tudo tão bom e saboroso, fico imaginando comidas frescas, estou louca para cozinhar e comer tudo depois, adoro comer, colorir, mostrar as pernas e os ombros há tanto tempo escondidos. To adorando viver.

Mas por que não conseguimos estar nas ruas? A resposta não é difícil, é aquele tal padrão de beleza que é tão difícil de ignorar. Não estamos nos bares, por que a maior parte de nós ainda não se sente a vontade em espaços com aglomerados de pessoas, elas olham e não é fácil ser olhada quando você passa a maior parte do tempo fugindo dos olhares. Mas nesse verão, quero fazer tudo diferente. A partir de mim, quero ser cada vez mais nós.

Não temos um posto na praia, então, por que não ser de todos os postos?

Pegue sua roupa mais colorida, não importa se está na moda ou não, se mostra os braços ou não. Aposente só um pouco a calça Jeans, sinta-se, saia, permita-se. A única coisa que deve importar, nesta e em todas as estações, é você!

A imagem usada no texto é da negahamburguer.

*Babs Grayce é estudante de letras na USP e militante do Juntos! SP

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