Algo mudou desde 1904?

07/mar/2014, 15h23

*Thiago Oliveira


Gritos de macaco, preto e outros adjetivos pejorativos que não valem ser citados viraram recorrentes nos campos brasileiros. Arouca, jogador santista que recebeu tais brandos na ultima rodada do campeonato paulista, foi mais um que teve que ouvir mudo os gritos racistas.

E estes casos não acontecem só em jogos dos chamados ‘’grandes’’. Na ultima quarta-feira, no embate entre Veranópolis e Esportivo, valido pelo campeonato gaúcho, o arbitro da partida, Márcio Chagas, saiu do estádio de Bento Gonçalves aos prantos. Isso porque um grupo de animais, -acho que só podemos chamar assim-, além de xingá-lo de forma estúpida durante a partida, amassaram seu carro e jogaram bananas no capo. Em 2005 o árbitro já havia sido vítima de racismo durante jogo do Caxias e Encantado quando o técnico Danilo Mior (Encantado) o chamou de “Negrão coitado”. Na ocasião, Danilo foi expulso por Chagas e punido com  60 dias de suspensão.

fotomarciochagasBananas foram jogadas no capo do carro de Márcio Chagas

Vítima de preconceito em jogo do Cruzeiro pela Libertadores da América, Tinga manifestou-se sobre o caso ocorrido na Serra Gaúcha:

— Todo mundo achou um absurdo o que fizeram comigo. Também vão achar um absurdo o que fizeram com o Márcio. Mas e daí? As punições são brandas, não acontece nada, ninguém leva a culpa. Vai seguir tudo igual.

As palavras do jogador conseguem expressar muito bem o porquê o racismo se perpetua com tanta facilidade no futebol.  Como no caso Tinga, a CBF permanece com sua postura de total apoio aos atletas sem nenhuma punição contra os torcedores. Parece contraditório, mas é assim que Marim e seus discípulos de federações tocam o barco.

Só é assim pela total falta de comprometimento do gestor com os clubes e os problemas dos mesmos. A CBF está com os olhos na seleção brasileira, as equipes são apenas cabos eleitorais para a perpetuação no poder que vem desde João Havelange, passando por Ricardo Teixeira e terminando no guru da ditadura Marim.

Em seu comunicado, Arouca ressalta que a conivência é o principal motivo de atos racistas se reproduzirem:

 – O futebol é um espelho da nossa realidade, e isso não se resume apenas a xingamentos racistas. Continuam matando e morrendo por torcerem por um time diferente do outro. Espero, sinceramente, que casos como esse sejam severamente punidos, pois, enquanto isso não acontecer, nada vai mudar. A impunidade e a conivência das autoridades com as pessoas que fazem esse tipo de coisa são tão graves quanto os próprios atos em si. Somente discursos e promessas não resolvem a falta de educação e de humanidade de alguns.

O racismo não é tratado como se deve devido aos racistas pertencerem, na sua grande maioria, as torcidas organizadas. Estas, sendo bem tratadas pelos mandatários perpetuam os mesmos em seus cargos.

Enquanto os clubes não administrarem de forma incisiva o futebol nacional, com a criação de uma Liga própria, deixando a Confederação tomar conta apenas das milionárias excursões da seleção, nada irá mudar.

aroucaricardosaibunsantosfc

Volante Arouca foi vítima de racismo em Mogi Mirim

O racismo tem de ser tratado como na Europa. Na ultima rodada da Uefa Champions League e Europa League, principais competições interclubes do velho continente, equipes gregas, russas e ucranianas jogaram com estádios vazios ou com capacidade reduzida devido a atos de racismo de seus torcedores.

Equipes como a Lazio, que tem torcida organizada com ares fascistas, já ficaram anos sem disputar torneios continentais devido à postura escabrosa de seus torcedores.

O Brasil tem o exemplo em casa, mais especificamente na história de São Januario. O Vasco da Gama iniciou a luta contra o racismo no futebol brasileiro em 1904. Teve de brigar com a federação carioca para que Candido José de Araujo, mulato e entendedor de futebol, pudesse ser presidente do clube. Nas décadas seguintes, lutou para que atletas negros pudessem vestir a camisa da equipe sendo até expulso do campeonato carioca de 1946.

Parece que nada mudou desde então.  A conivência dos cartolas tem de ser combatida. O futebol tem de ser exemplo de postura ética e social para que seus admiradores tenham uma educação social com auxilio do esporte. Um dos poucos registros de punições a jogadores racistas no futebol brasileiro foi do zagueiro Antônio Carlos,  em 2006 quando defendia o Juventude. O jogador foi suspenso por 120 dias após ter apontado a cor do próprio braço durante uma discussão com o volante gremista Jeovânio, negro.

Segundo pesquisas da Futstas, 40% da formação social de jovens fissurados por futebol vem de seus clubes de coração. Tudo que é cantado, gritado e exaltado pelas torcidas é transmitido como verdadeiro para estes jovens que, por enquanto, estão aprendendo da maneira mais grosseira o significado da palavra racismo

* Thiago Oliveira é militante do Juntos! Campinas