Até quando os haitianos serão “empurrados” com a barriga?

29/abr/2014, 17h18

Tatiane Ribeiro*

A situação do Haiti, desde o começo dos anos 2000, tem sido capa de muitos jornais. Isso porque eles sofreram catástrofes naturais, porque sua situação política é bastante preocupante, mas, principalmente, porque era preciso justificar as tropas brasileiras em uma das “missões de paz” mais questionáveis da história no país. O Brasil precisava dizer para o seu povo que estava correto mandar o exército para “pacificar o país”, assim como hoje justificam as pacificações das favelas, principalmente no Rio de Janeiro. Me pergunto até se uma coisa não está diretamente ligada à outra. Ou seja: aprender como “pacificar” preto pobre lá fora, pra fazer escola e aplicar por aqui.

Mas hoje a situação é ainda mais desastrosa. Por falta de possibilidades, os haitianos buscam no Brasil uma possibilidade de recomeçar suas vidas. Essa história de que somos um país em desenvolvimento, e toda a propaganda o novo grande polo econômico mundial, surte esse tipo de efeito. Estamos falando de uma população completamente assolada pela fome, porque não conseguem se reerguer depois de vários problemas. Pois bem: eis que eles juntam dinheiro, entram no país pelo Acre e buscam uma forma de recomeçar. Muitos abandonam suas famílias (um pouco nos moldes do que aconteceu com os nordestinos nas décadas de 70 e 80, que buscavam em São Paulo uma melhoria das suas condições), achando que vão encontrar aqui a solução dos seus problemas. Mas eis o que encontram: descaso e empurra-empurra dos seus casos. Parece uma daquelas histórias que ouvimos falar do século XIX ou do começo do século XX. Mas estamos falando dos dias de hoje.

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Foto: Estadão

O governo do Acre, dirigido pelo PT, resolveu que não queria mais esse “enrosco” na sua gestão. E qual a solução? Diante da proximidade das eleições estaduais e federais, pareceu mais lógico empurrar para o PSDB, seu maior inimigo eleitoral. Então, deram passagens para essas pessoas virem para São Paulo, com mais uma promessa de que suas vidas, enfim, seriam melhoradas. Mas, ao chegarem aqui, qual não foi a surpresa desses haitianos ao perceber que o PSDB também não se importa muito com isso? Sem perspectivas, hoje dormem no chão do salão de uma igreja católica no Glicério, centro de São Paulo. E precisam da ajuda de outros para fazer sua única refeição do dia.

Enquanto isso, ao invés de encontrar solução para a vida dessas pessoas, a resposta é culpar o outro. O governo tucano paulista culpa o governo petista acriano, que zomba do governo paulista e assim se segue a questão, sem resposta alguma sobre como fazer com que essas pessoas tenham um mínimo de dignidade.

Vejamos: trata-se de negros pobres. Quem quer esse problema? Quem quer ter que dar conta de 400 negros pobres assim? O governo do Acre diz que já cuida de preto pobre demais, não dá conta mais gente. O paulista diz que não quer negro pobre no seu estado, já basta os que nasceram aqui. Pois bem. Talvez se fossem macacos, como na campanha do Luciano Huck e do Neymar, eles fossem encaminhados diretamente pro zoológico, e esse problema não fosse tão difícil de resolver. Mas estamos falando de seres humanos, que fogem inclusive da cólera (que assola o país e mata mais de 1000 haitianos por ano), e que precisam ser tratados com dignidade.

Mas estamos falando do país que mata negro pobre nas favelas todos os dias. Como esperar que tratem essas pessoas com dignidade? Enquanto PT e PSDB seguem empurrando um pro outro a questão, aparecendo na mídia pra falar do outro, essas pessoas seguem sem itens de higiene básica, sem local para tomar banho e sem nenhuma notícia sobre a tal esperança de uma vida melhor. Até quando?

Nós, do Juntos, queremos exigir dignidade. Parece pouco, mas é o mínimo. Que o governo tucano dê assistência à essas pessoas. E que tratem pretos como nunca trataram: como humanos que merecem tanto respeito quanto os outros!

*Tatiane Ribeiro é do Grupo de Trabalho Estadual do Juntos SP e do Juntos Negros e Negras

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