O racismo mata cinco vezes mais no Nordeste

07/jan/2015, 16h01

*Nina Marina e Carlos Augusto A.

Segundo uma recente pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em nosso país a juventude negra tem 2,5 mais chances de morrer do que a branca. O quadro piora ainda mais aqui no Nordeste, onde o jovem negro tem cinco vezes mais risco de morte, dado apontado pelo Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade de 2014[1]. Essa pesquisa reacende o debate sobre raça e o recorte de classe no Brasil. O racismo é uma ideologia cultural estabelecida para privilegiar pessoas brancas, enquanto classe social que nos explora, e construído para oprimir e prejudicar pessoas negras. Combinado a isso, vivemos atualmente numa dinâmica capitalista, onde o racismo age integralmente com o capitalismo, se fortalecendo e sustentando opressões culturais para melhor explorar.

As divisões de classe e raça ganham ainda mais força em nossa região, onde o nível da desigualdade social só aumenta [2]. Sabemos que a maior parcela vítima da concentração de renda e que se encontra em situação de pobreza é negra. O estado ainda é responsável por reforçar o racismo institucionalizado, empurrando a juventude negra para as margens da sociedade, sem quaisquer perspectivas de políticas públicas. Através de seu aparelho repressivo, as policias militarizadas, com suas práticas ostensivas e repressivas seguem criminalizando e exterminando jovens negros dos subúrbios e do campo. E aliada à ausência do estado, a classe dominante – hegemonicamente branca – de norte a sul insufla todo seu ódio racial e sua xenofobia sem nenhum limite, chegando a pregar discursos separatistas e de limpeza social que excluem o Nordeste do restante do país, lugar esse que serviria para os indesejados. Analisando todo esse misto de combinações não é surpresa que as chances de morticínio da juventude negra sejam maiores em nossa região.

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Campanha “Queremos ver os jovens vivos”.

Os oligopólios da comunicação nordestina também refletem essa violência. Programas sensacionalistas estampam na tela – em pleno meio dia – rostos de supostos criminosos negros acompanhados de discurso de ódio na voz do apresentador. Essa prática “jornalística” não nos deixa analisar as situações mais a fundo e reforçam a ideia de que temos que odiar a nossa cor. Também resulta em uma sociedade que naturaliza a criminalização de pessoas negras. Denuncias são feitas em todo Nordeste com o cunho de que a polícia não investiga crimes e simplesmente os taxa como decorrentes de tráfico de drogas, e não causa quase nenhuma indignação. Em espaços público-privados de nossa região também é possível ver seguranças barrando a entrada de negros nos locais. Algo que é feito sem nenhuma explicação. Mostrando-nos, mais uma vez que querem nos convencer que nosso lugar é à margem da sociedade. Não é. Percebemos ainda uma sabotagem histórica quando se trata de negros nordestinos. Quando vemos as imagens de Castro Alves, por exemplo, caracterizado sempre como homem branco, o que sabemos bem que não é verdade.

Todo esse preconceito e violência jamais devem parecer naturais. São crimes e devem ser investigados e punidos. Continuaremos denunciando casos como os de Amarildo, Claudia e DG, que apesar de não serem nordestinos – nem poderiam, já que tragédias como essas ocorridas no Nordeste ainda são silenciadas pela mídia xenofóbica e ignoradas até mesmo pelo ativismo social – são mais umas vítimas do racismo que mata em todo o mundo. Continuaremos nos indignando, queremos a juventude negra viva!

Assine o manifesto da Anistia Internacional “Queremos ver os jovens vivos” e participe da mobilização para mudar esta realidade > www.anistia.org.br/jovemnegrovivo

*Nina e Carlos são militantes da setorial Juntos! Negras e Negros no Nordeste.

[1] http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/01/nordeste-jovens-negros-tem-5-vezes-mais-chances-de-morrer-2/

[2] http://g1.com.br/economia/noticia/2014/09/desiguldade-aumenta-e-fica-no-mesmo-nivel-de-2011.html

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017