Sobre a segurança na USP

Gabriela Ferro 28/jul/2015, 13h01

Saiu nesta semana o resultado de mais uma sindicância, desta vez da Faculdade de Medicina Veterinária, confirmando o estupro de uma estudante ocorrido em 2013. O documento recomenda que o estuprador seja expulso da USP. Também nesta semana a USP anunciou a contratação de um novo plano de segurança baseado em um modelo japonês.

A USP sempre fez de tudo para manter o assunto das violações de direitos humanos congelado dentro da casca de melhor universidade do país. Em 2014, porém, a coisa esquentou e as denúncias transbordaram através das grandes mídias. Zago foi chamado para depor na CPI estadual e, pressionado pelo movimento estudantil, a se responsabilizar enquanto Reitor pelos casos de violência que ocorrem dentro universidade. O reitor fugiu do assunto tanto quanto pode, mas enfim se posicionou nos chamando de “inquisidores”. Pelo jeito, encontrou a melhor forma de tratar esse problema: fugindo dele. As festas estudantis foram proibidas, mas a violência contra as mulheres não. No dia 15 de junho de 2015 mais uma estudante foi estuprada, andando às 18h na praça do relógio. Não estava bêbada.

O tema da violência dentro da universidade sempre foi polêmico. Alguns estudantes e, sobretudo, a direita organizada com a juventude do PSDB, dizem que a PM é solução. Pois bem, a PM está nos campi desde 2011. É preciso dizer que se trata de uma irresponsabilidade com a realidade reivindicar algo que se provou falho. No entanto, assumir que estão errados seria uma derrota ideológica que jamais aceitariam. Esse mesmo grupo, que levanta a pauta da segurança com a postura de quem sabe do que está falando, não moveu um dedo para pressionar a reitoria a expulsar os estupradores e aplaudiu Zago quando nos chamou de “inquisidores”. Por quê? Porque, quem diria, dentre eles estão alguns dos acusados. Devem mesmo saber do que falam e o porquê, para eles, é tão importante agitar de forma simplista a solução para um problema tão complexo.

Agora, o reitor nos prepara uma solução inovadora: um plano de segurança espelhado em um modelo japonês de intensificação da militarização do espaço público. O projeto é ideia de um sujeito chamado José Gregori, ex-ministro do governo FHC que, dentre tantos títulos acumulados, deve ser lembrado por estar contra a revisão da lei da anistia durante a Comissão Nacional da Verdade. Gregori é o atual presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP, colocado neste cargo no mesmo momento em que a reitoria acabou com o USP Diversidades – programa dirigido pela professora Heloísa Buarque, afastada do cargo depois de fazer duras críticas à maneira como a USP tratava o assunto da violência.

Pensar um modelo de segurança eficaz não é tarefa fácil e, por isso, a USP vem errando ano após ano. Fato é que a universidade precisa ouvir os estudantes e todo o acúmulo de grupos como a Frente Feminista da USP para se aproximar de um projeto que funcione. Se Zago é incapaz de ouvir o que as mulheres historicamente estudam e propõe, em nome da manutenção de uma tradição conservadora irracional, de que serve a USP ser considerada a maior “produtora de conhecimento” do país?

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