Enegrecer o feminismo: pela emancipação de todas as mulheres

Caroline Coelho Vilar 01/out/2015, 16h06

A importância de enegrecer o feminismo é para muito além do debate acerca da opressão sobre as mulheres. É ter o feminismo como um instrumento de luta na desconstrução também das reminiscências coloniais que permanecem vivas e estão em constante manutenção ainda no cenário atual, tornando o peso e as marcas das correntes da escravidão, que acorrentaram, objetificaram e mataram as mulheres negras, impossíveis de serem esquecidas ou secundarizadas. As diferenças que os efeitos das opressões e explorações sofridas tiveram, e ainda tem, na identidade feminina das mulheres negras, tornam a luta dessas mulheres ainda mais árdua, uma vez que o racismo e o machismo estão estruturados no histórico de mercantilização e exploração do corpo da mulher negra, o hipersexualizado e objetificado. E é o mesmo histórico o responsável pela condição atual dessas mulheres, que são majoritariamente periféricas, ocupando os subempregos, sendo a grande parte das vítimas de feminicídio e violência sexual.

É a bagagem dupla de opressão e a condição atual da mulher negra que a coloca como prioridade dentro da luta feminista. Reconhecer que não há perspectiva de avanço para a luta das mulheres em meio a um governo que segue invisibilizando as pautas feministas é também reconhecer que diariamente morrem nas periferias Cláudias e Dandaras e que isso infelizmente seguirá acontecendo. E pior, seguindo inexistentes aos olhos do Estado e sem reconhecimento nenhum do governo, pois além da completa ausência de políticas públicas específicas para o avanço da luta das mulheres, em especial das mulheres negras, o que é imposto atualmente é uma série de ataques, com suas respectivas consequências – como a terceirização, a restrição das pensões por morte, a agenda Brasil, a alta da inflação e a série de demissões – que atingem substancialmente essas mulheres, que estão inseridas em grande parte nos subempregos de forma mais vulnerável a demissões, as deixando à deriva e sem garantia nenhuma dos seus direitos.

A necessidade de compreender a importância de lutar pela liberdade das mulheres negras é primordial dentro de uma luta tão séria quanto o feminismo. Devemos buscar a emancipação de todas as mulheres, mas principalmente das que estão a margem até mesmo dos debates feministas. Da grande maioria que ocupam as periferias, que ainda servem de objetos e ainda resistem contra o racismo, além do machismo, em seu cotidiano.

A luta feminista deve unir mulheres pelo gênero, mas também, e essencialmente, pela classe. O empoderamento e fortalecimento da identidade negra não deve estar nas vitrines, como hoje em dia, servindo ao capitalismo. Deve ser ordem do dia como bandeira principal de luta e resistência, sendo prioridade no debate acerca da liberdade sobre nossos corpos. Continuemos a exigir que nós, mulheres negras, sejamos ouvidas, respeitadas e que existamos! E, para isso, o feminismo deve ser nosso aliado.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017