Marcha da Maconha em Feira de Santana: seguir na luta contra a Guerra às Drogas

27/nov/2015, 08h47

A guerra às drogas matou Davi Fiúza

Nos últimos meses, vimos nossos vizinhos avançarem na pauta antiproibicionista, mas o primeiro a dar o pau foi o Uruguai em 2013 com a legalização e o cultivo e o primeiro a assumir o controle total da cadeia de produção! Depois, nesse ano, o México que deu os primeiros passos para a legalização da maconha ao permitir que 4 militantes cultivem a ganja. No Chile, foi aprovado um projeto que permitirá aos usuários maiores de idade o cultivo domiciliar de até seis plantas. No Brasil, a pauta ainda está em discussão no Supremo Tribunal Federal, mas nossa chama de esperança não se apaga, e um reflexo disso são as nossas marchas pelo país afora que mobilizaram milhares pessoas. Em maio, por exemplo, 20 mil marcharam em São Paulo.

Agora chegou a nossa vez nessa roda! No dia 29 de novembro, estaremos marchando juntos pela primeira vez em Feira de Santana, a Princesinha do Sertão, contra a guerra às drogas e o genocídio da juventude negra! Que nossa marcha impulsione a luta antiproibicionista!

A liberdade individual pelo uso da maconha deve ser apenas nosso trampolim inicial, pois os efeitos negativos de sua proibição e de outras drogas atinge a toda população. A guerra às drogas, na verdade, é uma guerra declarada às pessoas. E sabe porquê? Você, por acaso, já viu algum policial ameaçar um lindo pé de maconha ou atirando em sacos de cocaína? Ou já viu alguma investigação sobre um helicóptero recheado de pasta de coca que pertence ao Dep. Aécio Neves? Sem dúvidas sua resposta seria que nunca viu nada igual!

Pois bem, essa guerra tem inimigos bem declarados, apesar de a mídia coloca-los sob uma cortina de fumaça. Em 2006, foi promulgada uma nova lei de drogas e, com ela, passou-se a ser proibida a prisão de usuários de drogas, permanecendo a prisão restrita aos traficantes. No entanto, não existe definição alguma da quantidade para delimitar quem é traficante e quem não é. Um helicóptero com meia tonelada de coca pode ser nada se o dono não for preto e pobre. Essa diferença no tratamento tem como raiz a sociedade de classes e o racismo, um filtro étnico e social da justiça burguesa.

O filtro seleciona quem vive e quem morre, e quem morre, em sua maioria, está na periferia, bem longe dos corredores do Senado ou da Câmara dos Deputados, e sua ligação com traficantes de colarinho branco nunca foi encontrada! Perdemos Davi Fiúza, os 12 jovens assassinados no Cabula, em Valéria, Peri-Peri, em Feira de Santana. Somos o estado que aparece em primeiro na lista de homicídios, com 5.450 mortes em 2014. A guerra às drogas na verdade é uma guerra aos jovens pretos, pobres.

Além de a guerra ser direcionada à pobreza, ela também seleciona o tipo de droga a ser criminalizada. Temos a indústria cervejeira e a do tabaco operando livremente em nosso mercado, apesar de estarem no topo da lista de drogas mais consumidas e que mais matam e causam dependência na nação, sem contar com a indústria farmacêutica, que tem a Empresa Roche como representante da venda do rivotril, um ansiolítico a base de clonazepam que é uma das substâncias mais consumidas no Brasil entre os 166 princípios ativos de remédios tarja preta. Para Souza Cruz, Ambev, Roche e afins, não é lucrativo que outras drogas passem a ser lícitas e entrem em competição com o cigarro, cerveja e ansiolíticos.

Estamos levantando alguns dados consequentes da política falida das guerras às drogas, mas o debate não se acaba aqui. Vemos o número de mulheres negras presas por tráfico, o número de mortes da juventude preta e pobre incessantemente aumentando a cada ano e fechamos os olhos para experiências de redução de danos com a ganja em outros países.

Efeitos da disputa pelo lucro rebatem em diversas áreas. Por isso, convidamos para continuar o debate e marcharmos juntos. Só assim, nossa primeira Marcha da Maconha se juntará a esse crescer da mobilização pela legalização da cannabis.

Gritaremos contra a política genocida do Estado, contra a morte de todos os Davi Fiúza, dos jovens do Cabula, construindo um diálogo também com quem não é usuário mas que se sensibiliza pela pauta uma vez que entende as graves consequências da proibição.

Nossa mobilização antiproibicionista deve avançar!

Até domingo!

Por Carolina Ramos Heleno

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Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017