As mulheres e a revolução: o exemplo das curdas

Fernanda Piccolo Huggentobler 26/jan/2016, 10h03

Em Kobani – Síria, guerreiras curdas têm assumido um papel fundamental ao ajudarem a defender a cidade independente de um massacre do grupo radical Estado Islâmico (ISIS), que incita a barbárie com base no seu fundamentalismo religioso, que estupra e escraviza as mulheres. O mais importante – e tão pouco falado, principalmente nos grupos de debates, é a forma como essas mulheres curdas estão fazendo revolução.

Elas entenderam que a guerra deve ser enfrentada no coletivo. Formaram uma frente de mulheres para garantir a autodefesa e se integraram às forças de combate. Luta feminina, luta de classe, luta política. Armadas de fuzis e de valentia, elas marcham com os homens na defesa do território, na defesa de seus corpos. No dia 20 de janeiro de 2016, a Fundação Lauro Campos trouxe para Porto Alegre, Melike Yasar, militante curda. Melike disse claramente ao começar sua fala: “Sempre me perguntam qual o papel da mulher da revolução. As mulheres não tem um papel. Elas fazem a revolução. Quem tem um papel são os homens, e, um deles é apoiar a liberdade das mulheres”. Elas não recebem salário e dependem de doações vindas de comunidades internacionais, além do alimento partir da própria população curda. Quando perguntada sobre as diferenças de gênero na guerra, temos como resposta o fato de que uma soldada não imita um pretenso modelo masculino, ela está no seu direito de pegar em armas.

A Unidade de Defesa das Mulheres (YPJ) já conta com nove mil guerrilheiras que garantem a liberdade de ser quem são. Algumas fugindo de casamentos obrigatórios, buscam viver uma vida livre, como mulher, ser capaz de lutar por direitos e, simplesmente, poder viver como pretender. Confirmam que jamais irão permitir que grupos terroristas entrem, mesmo que isso lhe custe a vida. YPJ que está intimamente ligado os Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) que tem cotas de 40% das mulheres, muitas ocupando espaços de poder.

Qualquer bombardeio provoca menos medo nos jihadistas do Estado Islâmico quanto as combatentes curdas, já que se acredita que quando mortos por uma mulher, caem na desgraça do inferno. Já Melike nos lembrou que essa luta não existe há 2 ou 3 anos, são cerca de 40 anos atrás de uma revolução social. Tampouco que a ISIS é o único inimigo, uma vez que estão há décadas lutando por libertação do Curdistão contra o Estado turco (que considera os combatentes como “terroristas”) que retira direitos e persegue militantes curdos, que assim como se rebelam contra os Estados do Irã, Iraque e Síria.

A revolução já refletiu em reformas nas leis, por exemplo, em 2011 o Parlamento curdo aprovou uma nova lei sobre violência doméstica, que reconhece como crime de violência física e psicológica familiar o casamento forçado ou precoce, a mutilação genital feminina, o estupro conjugal e a discriminação na educação. Porém, a lei já tem suas falhas, além de aprovada sem meios concretos para aplicá-la, é necessário mudar todo um sistema, sendo preciso aplicar práticas de sensibilização e levar o conhecimento dessa lei, não formas de quebrá-la. No momento, nem as próprias autoridades garantem a transparência e a independência da justiça: há juízes que propõem aos estupradores casar com suas vítimas, para que elas recuperem sua honra.

Trazendo-nos novas perspectivas, notamos que especialmente numa região tão feudal-patriarcal, mulheres podem emancipar-se. As curdas trazem uma revolução social, acabam com a fantasia sexy ocidental e capitalista, lideram uma luta radical em muitos sentidos, quebram estereótipos como pobres vítimas que estão perdidas e lutam por uma sociedade livre na qual as diferentes comunidades étnicas ou religiosas cooperem. Querem ser mulheres com a alma livre.

Libertando as mulheres já se obtém princípio para a libertação e a democracia populacional.

A luta das mulheres muda o mundo, e certamente, o ascenso das mulheres na luta anticapitalista na Europa, da Primavera das Mulheres contra o PL 5069 do Eduardo Cunha, as argentinas que tomaram as ruas contra os casos de feminícidio no movimento Ni Una A Menos, contribuem para que a revolução das mulheres curdas não seja invisível. A onda de solidariedade internacional dá força para que as revolucionárias curdas sigam como um exemplo de inspiração de luta contra o fundamentalismo religioso, o patriarcarcado, o capitalismo e a repressão do Estado.

Num mundo onde 1% dos mais ricos possuem tanto dinheiro quanto 99% da população no planeta, o modelo curdo mostra caminhos. Caminho de libertação, pois a luta do povo curdo, como disse Melike, é de homens e mulheres. Assim como a luta anticapitalista, por um outro modelo mundial.

As pautas feministas estão interligadas no fortalecimento da luta de classes; na luta anticapitalista e feminista é necessário estarmos Juntas como protagonistas da nossa própria história. Todo apoio ao povo curdo em luta, em especial a estas mulheres combativas, que inspiram milhares de mulheres pelo mundo.