Lula eleito: a vitória veio das ruas!
Foto: @_lilly.eh / Comunicação Juntos!

Lula eleito: a vitória veio das ruas!

Balanços e perspectivas preliminares do processo eleitoral

André Doz 27 out 2026, 20:10

Já é clichê dizer que presenciamos algo histórico no mês de outubro de 2026. Os intelectuais burgueses que se apressaram a declarar o fim da história na década de 90 amargam novamente ver o tempo dar razão ao velho Marx: “A história de todas as sociedades até hoje tem sido a história das lutas de classes” (Karl Marx e Friedrich Engels, O Manifesto do Partido Comunista, 1848) . Essa luta não acabou. O motor da história segue girando e demonstrando que podemos vencer. 

O resultado da votação do segundo turno das eleições presidenciais confirmou a primeira vez que um candidato conseguiu virar o resultado negativo do primeiro turno. Dessa que nunca se tratou de uma eleição “normal”. O grau de intervenção eleitoral praticado pela burguesia e pelos setores da extrema-direita nunca foi tão forte no Brasil. Ganhamos mesmo com o imperialismo norteamericano usando suas armas algorítmicas para censurar a esquerda e alavancar figuras como Nikolas Ferreira. Ganhamos mesmo com toda intervenção internacional, que anseia por saquear as riquezas nacionais e com todo tipo de manobra feita pelo fascismo até para impedir o direito ao voto no domingo. 

É necessário compreender o fundamental: como ganhamos. A chave que explica essa vitória do povo brasileiro é também a que abre as portas para a possibilidade de fortalecer a disputa por uma alternativa às formas tradicionais e antiquadas de fazer política, inclusive da própria esquerda. E não, não estou falando apenas sobre comunicação. O elemento fundamental que sempre ficou de fora de toda a análise tradicional, institucionalizada, eleitoreira e pedante foi a capacidade dos movimentos de massas colocarem de ponta cabeça qualquer correlação de forças e criar novas conjunturas. É precisamente esse o ponto fundamental. Entre 4 de outubro e 25 de outubro de 2026, levantou-se no Brasil um movimento massificado, protagonizado e organizado inicialmente pela juventude e pelo Movimento Estudantil (ME), que tomou as ruas de todo o país, derrubou a escala 6×1 e mobilizou efetivamente mais de 10 milhões de votos a mais para Lula. 

Só a luta muda a vida

Não há como fazer qualquer análise séria sobre as eleições sem levar esse elemento ao menos em consideração. Se fizermos um breve balanço do que foi o primeiro turno das eleições, poderíamos dizer que ele seguiu as expectativas conjunturais que estavam postas nos últimos 4 anos, marcado por um certo marasmo, um debate político a frio, que ia esquentando muito a fogo baixo, morno, mas quase nunca quente. Esse havia sido o tom político inclusive proposto pelo próprio governo ao longo dos últimos anos, o qual quero explorar mais à frente. O importante é saber que, tudo no mais constante, a equação tendia a fazer-nos engolir uma derrota amarga. 

A grande mudança está na capacidade de mobilização imensa despertada após o resultado do segundo turno. Saímos de uma inércia auto-imposta para a construção de atos gigantescos, os maiores atos de rua já vistos no Brasil com caráter de mobilização espontânea desde junho de 2013, chegando a ter mobilizações ainda maiores em várias cidades. O impacto do resultado eleitoral do primeiro turno havia sido avassalador (infelizmente creio que não tenha outra palavra para usar aqui): não apenas Flávio estava com 2% e mais de 2 milhões de votos à frente de Lula, como também houve uma expansão numerosa do espaço da extrema-direta no legislativo. O fascismo conseguiu facilmente fazer a maioria em ambas as casas do Congresso Nacional, podendo, agora, facilmente executar impeachments de ministros do STF, mudar a constituição e perseguir e cassar mandatos da esquerda. 

Para uma parcela significativa da população, isso acendeu um alerta máximo. No caso particular, foram os estudantes, universitários e secundaristas, estagiários e jovens trabalhadores, os primeiros a se levantarem. Da madrugada do dia 4 de outubro para o dia 5, milhares de jovens em todo o país já estavam buscando mobilizar grupos de vira voto, já estavam buscando se organizar de todas as maneiras possíveis. Havia uma energia que entrou rapidamente em movimento e expressou a capacidade de mobilizar amplas parcelas até para fora da juventude. Não menos importante, as entidades de base e de representação estudantis (DCEs, grêmios, CAs e DAs), em grande parte, conseguiram atuar para rapidamente transformar toda essa energia nos grandes primeiros atos de ruas –  destacadamente o ato dos estudantes da UFF, que ocupou Niterói já no dia 5 de outubro –  e em assembléias gigantescas nas universidades que deram o tom: é hora de ir para a rua. 

O Movimento Estudantil foi quem acendeu a primeira chama, mas mais que isso, deu o tom do que era necessário fazer diante de uma relativa confusão pós impacto do primeiro turno. Mesmo em condições desfavoráveis e após um período de relativa inércia (relativa, pois, a despeito das direções nacionais, movimentos como a greve na USP mostraram haver disposição de luta), a vanguarda do Movimento Estudantil soube que era necessário apostar na massificação da mobilização popular nas ruas e nas redes como forma de demonstração de força a fim de impulsionar as demais táticas para alcançar os votos necessários para virar. 

Os elementos que explicam essa rápida mobilização da juventude são vários. Durante os últimos 4 anos, houve parcela do ME organizado que insistiu na tese de que a juventude passava por um processo de refluxo. Hoje, acredito que podemos afirmar que esse “refluxo”, que de fato era sentido de maneira generalizada na juventude, era auto-imposto tanto pela direção nacional do ME, que apostava numa agenda conciliatória e desmontava bandeiras capazes de direcionar a mobilização estudantil, como a bandeira do fim do Novo Ensino Médio, quanto pela estratégia conciliatória do próprio governo, que nos últimos 4 anos foi incapaz de apresentar uma agenda de mudanças estruturais para a juventude.

A capacidade rápida de mobilização e organização da juventude é prova de que havia nesse setor uma reserva democrática fundamental, disposta a lutar, mesmo em condições desfavoráveis. Essa capacidade se explica pela experiência anterior de enfrentamento à precarização da educação, que se deu a partir da aposta em processos de luta popular massificados, pela crescente polarização nesse setor, que via em particular o público masculino adotar uma retórica cada vez mais abertamente misógina e LGBTfóbica (em especial contra a população trans), e também pelo que foi a luta pelo fim da escala 6×1 em paralelo com a constante destruição de qualquer horizonte de futuro para si a partir da precarização do trabalho e da capacidade de ascensão social por meio da educação. 

Em última instância, a juventude ecoou algo que vem estourando em todo o mundo: o desejo da “Geração Z” de disputar o futuro. Os jovens brasileiros ecoaram as lutas que vêm se desenvolvendo desde o ano passado, destacadamente explodidas no Nepal e em Bangladesh, mas que vêm se desenvolvendo com força na Albânia, na Índia, na Bélgica, na Espanha e com gigantesca força na França. Todos esses processos têm como ponto convergente a busca dessa geração por novos símbolos que a representem e a vontade de disputar um futuro em meio à precarização, ao encarecimento do custo de vida e à destruição de seu horizonte de futuro. Essa juventude viu o desejo entreguista e subserviente de Flávio para com Trump, que prometia entregar o Brasil para ser o elo de salvação da moribunda hegemonia norteamericana. 

Mas aqui é necessário fazer uma breve crítica, que reforça a importância do movimento popular para mudar a conjuntura e nos dar a vitória eleitoral no segundo turno. A juventude não se levantou necessariamente em defesa do programa do Lula. Há, na realidade, uma dificuldade latente do governo e do petismo em apresentar à juventude um horizonte de futuro concreto. De um lado, saímos em defesa dos nossos direitos adquiridos, mas de outro lado, a juventude se mobilizou pela própria possibilidade de fazer luta pelo futuro, que ficou claro para nós que seria impossível diante de um governo Bolsonaro com maioria absoluta nas instituições da república. 

O resultado do primeiro turno foi um golpe duro, mas inesperado apenas para aqueles que insistem em tentar ver com os olhos tapados pelas mãos. Obviamente que o saldo do governo Lula era superior ao do genocida e presidiário, mas o resultado prático da escolha política de ter como eixo econômico do governo uma política de austeridade materializada no arcabouço fiscal somada a um entendimento de que a correlação de forças para fazer qualquer política se dava única e exclusivamente pela contagem de cadeiras no Congresso Nacional foi o de alimentar uma frustração, de um lado, e uma apatia que não correspondia à realidade vivenciada, do outro. Não deveria surpreender o resultado, em poucas palavras, pois a escolha política do governo foi não entregar o que prometeu e desmobilizar permanentemente sua base social. 

A importância fundamental do movimento popular está, justamente, na imposição que ele deu ao próprio eixo do governo e da campanha. Sem esperar a campanha, a direção dos partidos da esquerda institucional ou o governo, os levantes gigantescos mudaram a própria forma da corrida presidencial. Tiraram o governo do marasmo da defesa de seus números passados para a defesa de medidas como a tarifa zero (mesmo que apenas no final de semana, que é mais rebaixado que nossa reivindicação de tarifa zero geral, mas abre espaço para o debate) e o fim da escala 6×1. Mais do que isso, as mobilizações continuamente deram o tom da pauta política nacional. Todos os dias havia atos enormes em todas as partes do Brasil, organizados desde os centros das grandes cidades até as periferias e cidades do interior, muitas vezes de forma espontânea, muitas vezes também organizados pela esquerda radical. 

Os atos fortaleceram a moral da esquerda, impulsionaram e foram fundamentais para as estratégias de comunicação que passaram a ser construídas. No início, quando falei que não podíamos creditar a vitória apenas às novas táticas de comunicação, me referia justamente a um entendimento equivocado de que basta ter a melhor técnica comunicativa para poder se sair bem. Sem a explosão das ruas, a mudança de conjuntura e a ação da juventude buscando disputar a noção de futuro, é possível que táticas como o canal do “Exército de Lula” não conseguissem a força que conseguiram. 

Em resumo: as maiores mobilizações da história do Brasil mudaram o jogo. Contra uma máquina poderosíssima, apoiada e financiada pelo capital internacional (em especial dos EUA), que contou com um grau de intervencionismo das big techs talvez inédito em todo o globo, com claras manipulações levadas a cabo pelo TSE comandado por Nunes Marques (indicado ao STF por Jair Bolsonaro) e pelas prefeituras bolsonaristas que tiraram ônibus de circulação no dia da votação, com o apoio de todo o agronegócio, do rentismo, da Faria Lima, das milícias e do crime organizado; contra tudo isso, o poder do povo mobilizado nas ruas conquistou 10 milhões de votos a mais e ganhou as eleições. A população brasileira conseguiu levantar um escudo de contenção ao avanço do fascismo e do imperialismo norteamericano no centro da América do Sul.  

Não há conciliação com quem quer vender nosso futuro: as ruas seguem sendo a saída

Um dos fatores que explica em parte o que levou milhões de pessoas a ocuparem as ruas em todo o Brasil foi a rejeição à proposta de “tesouraço” apresentada por Flávio Bolsonaro. O impacto negativo que a medida inspirada na motosserra de Milei teve foi tão grande que parte considerável da campanha de Flávio foi concentrada em –  literalmente –  mentir sobre sua própria proposta para se defender das críticas. Passaram quase o segundo turno inteiro mentindo que não haveria cortes no Bolsa Família (ainda que a chefe de sua equipe econômica prometesse novas regras de transição), que não haveria congelamento do salário mínimo e BPC, ou que não haveria cortes na saúde, educação e previdência social. Mas a matemática e a prática política de seu maior aliado não mentiam. Flávio pretendia fazer um plano de austeridade à la Milei, que está levando a Argentina à recessão econômica e à deterioração das condições econômicas inéditas ao povo argentino. 

Mal terminamos as eleições, e o que assistimos desde o dia 25 é a chantagem do tal “mercado” por uma sinalização do governo em direção a esse mesmo projeto. O que a Faria Lima, o mercado financeiro e a burguesia brasileira mais querem é o aprofundamento do ajuste neoliberal, o corte profundo dos investimentos sociais do Estado e a manutenção da taxa Selic nas alturas. É a fórmula mágica de transferência trilionária de riqueza para o 0,1% mais rico do país. 

Ainda, mesmo que tenhamos derrotado Flávio, a ação do imperialismo segue com toda a força em nossa região e em nosso país. Trump vem expressando internamente que não aceitará nenhum resultado desfavorável aos republicanos nas eleições, escalando o discurso golpista. Ao mesmo tempo, o interesse norteamericano nas terras raras segue vivo. Para os EUA, conseguir colocar as mãos na exploração mineral brasileira é questão estratégica fundamental na sua guerra comercial contra a China. 

O marco da nossa vitória no Brasil de fato transformou-se num ponto de apoio para todos os povos do mundo que estão enfrentando o imperialismo e o fascismo. Mas é necessário sermos realistas e compreendermos que ambos seguirão, mesmo após as eleições. As big techs, comandadas por trilionários e bilionários aliados dos fascistas, em especial do imperialismo de Trump, seguirão utilizando seus algoritmos para a disputa de consciência. O imperialismo dos EUA seguirá buscando expropriar as riquezas brasileiras através de seus representantes entreguistas no Brasil, não apenas as terras raras, mas eles tentarão pilhar de nós o que puderem para expandir sua riqueza. Nossa luta anti-imperialista e em defesa da soberania nacional seguirá com vigência máxima, e deveremos apostar na solidariedade internacional como ponto de apoio. 

A luta que garantiu a vitória, portanto, não pode acabar agora. Diante de nós, há um cenário extremamente desafiador. A extrema-direita e a direita conquistaram a maioria no Senado e na Câmara, e vão fazer de tudo para aplicar esse mesmo projeto econômico defendido pelo rentismo, também como uma forma de pressionar o governo e minar sua popularidade. Como já falamos anteriormente, parte do que explica o resultado negativo do primeiro turno foi a opção do Governo Lula III em adotar a austeridade econômica como eixo econômico de seu governo. 

A eventual continuidade dessa política não apenas seria ruim, seria um desastre de proporções tão grandes que ameaçaria até mesmo a possibilidade de Lula terminar o mandato. Economistas como David Deccache já vem alertando que a manutenção do Arcabouço Fiscal para 2027 obrigatoriamente exigiria o fim dos pisos constitucionais da saúde e da educação. Ou seja, a manutenção dessa política econômica pode obrigar o governo a seguir exatamente o caminho econômico que foi amplamente rejeitado pelas urnas e pelas pessoas que ocuparam as ruas.

Não há como saber qual será o caminho adotado pelo petismo. Se de um lado Lula fala na live do Janones que sabe que deverá encontrar uma nova forma de governar que leve em conta a mobilização popular, por outro lado, a mídia petista já defende que o “ajuste fiscal não deve ser tabu” , defendendo o nome de Galípolo para o Ministério da Fazenda, presidente do Banco Central indicado por Lula que deu fim à guerra contra os juros altos e manteve a Selic nas alturas. O que resta a nós, que fomos às ruas, é seguir lutando. 

Se de um lado houve derrotas fortes no campo legislativo, por outro, também a esquerda radical saiu fortalecida desse processo eleitoral. Sâmia Bomfim foi a terceira parlamentar mais bem votada de SP com mais de meio milhão de votos, Fernanda Melchionna e Glauber Braga foram reeleitos, e Fábio Félix e Jones Manoel conseguiram se eleger pelo DF e Pernambuco, respectivamente, como os deputados federais mais bem votados de seus Estados, para não falar de votações históricas feitas por candidatos a federal e estadual abertamente comunistas e ecossocialistas em todo o país. Ainda, houve uma crescente exponencial de filiações ao PSOL no segundo turno. O partido que foi linha de frente na proposição e na luta pelo fim da escala 6×1 ganhou um lugar de destaque incontestável e hoje se postula como uma força de relevância nacional capaz de imprimir uma agenda política própria. A própria iniciativa da Bancada da Esquerda Radical apresentou um manifesto econômico que apresenta uma alternativa real e concreta, à esquerda do atual norte econômico do governo. 

A força das ruas mostrou que é possível mudar a correlação de forças na sociedade através da luta social e da organização. Que essa imensa vitória que tivemos no domingo nos dê uma lição: é possível mobilizar e mudar as coisas, a luta muda a vida! Agora, acredito que devemos construir uma agenda positiva através da força mobilizada nas ruas, que consiga apresentar projetos alternativos como o apresentado pela Esquerda Radical, e o primeiro passo deverá ser o de lutar pelo fim do arcabouço fiscal. A construção desse campo, que consiga unificar setores da esquerda que buscam construir uma alternativa radical ao sistema capitalista, pode e deve ser um polo de reagrupamento da esquerda revolucionária com capacidade de influência de massas, rompendo com o isolacionismo em que boa parte dos revolucionários do país se encontram. 

Apenas assim, confiando na nossa força de mobilização, apostando na rua e construindo uma alternativa que seja capaz de apresentar um novo projeto de esquerda, conseguiremos derrotar de vez o fascismo, que não está morto. Mas a arma para derrotá-lo nós temos: é pelas ruas.


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