Festival SWU: a (in)sustentabilidade das multinacionais

18/jan/2011, 18h19

O festival musical SWU, realizado em Itu no mês passado, posou de ser o novo Woodstock. O sonho acabou?

por Mariana Riscali

Show de Jimmy Hendrix e a multidão no Festival Woodstock

15, 16 e 17 de agosto de 1969: no interior dos Estados Unidos 300 mil jovens sem ingressos para o Festival de Woodstock ocupam a fazenda onde se realizava o festival e o transformam em um histórico momento de contracultura e mobilização política por direitos sociais e contra a Guerra do Vietnã, que assolava o país.

9, 10 e 11 de outubro de 2010: no interior de São Pau­lo acontece o Festival SWU. Divulgado como um “novo Woodstock”, o festival foi propagandeado como um grande es­paço de artes, música e sustentabilidade, sob um pretenso discurso de conscien­tização ecológica. No entanto o que se viu, diferentemente do histórico ato de 1969, foi um festival marcado pela eliti­zação e pela presença de grandes empre­sas multinacionais.

Com altos preços nas entradas para os shows e no camping preparado pela organização, o SWU tornou-se um espaço restrito aos que podiam arcar com os custos do festival. O tal discurso da sustentabilidade evidenciou-se como nada mais que uma jogada de marketing dos patrocinadores do festival: Coca-co­la, Nestlé, Oi e Heineken, que estampa­vam por todos os cantos do festival seus logotipos em grandes painéis e “obras de arte” da sociedade de consumo. Como defender a sustentabilidade partindo das grandes corporações que representam a estrutura de um sistema tão destrutivo – ambiental e socialmente – como o sis­tema capitalista?

“Starts With You” ou “Começa com Você” era o slogan: faça sua parte! Mais uma expressão do discurso indi­vidualista – tão marcante nas gerações at­uais – tentando convencer os jovens que a transformação, hoje, depende apenas da ação individual de cada um.

SWU: “obra de arte” da Heineken e Roda Gigante da Nestlé

Apesar disso, o SWU também teve sua boa contradição: foi o palco da primeira apresentação no Brasil da ban­da Rage Against The Machine (RATM). Em um show marcante, a crítica social e o engajamento da banda norte-america­na estiveram em contraste com a ideolo­gia do festival. Conclamando a multidão a não se conformar e a lutar, a banda deixou o seu recado. Dedicaram a músi­ca “People of the Sun” ao MST e o ato do guitarrista Tom Morello ao vestir um boné do mesmo movimento resultou em censura na transmissão ao vivo que vinha sendo realizada pelo canal Multi­show, vinculado à Rede Globo. Outro momento inesquecível foi a execução do Hino da Internacional Socialista, um símbolo histórico da luta socialista mun­dial.

A força militante da música do RATM também inspirou o momento de maior tensão do show: talvez como fagulha da contestação e rebeldia que embalaram o festival de 1969, muitos jo­vens invadiram a área VIP montada pe­los organizadores do evento. O som do show foi cortado por duas vezes, bem como a transmissão televisiva. Não pega bem para os patrocinadores a ligação de sua imagem à de jovens em luta.

O show continuou. Ao fim, o refrão da música Freedom: “Sua revolta é um dom!” funcionou como uma convocação para que o inconformismo daquela noite não se perdesse no mar do consumismo e das propagandas das corporações. E nossa tarefa é transformar essa revolta em luta coletiva por uma outra socie­dade!

Rage Against The Machine: engajamento e crítica social pela música!

Em um show histórico, uma das banda mais rebeldes da atualidade faz música anticapitalista e defende o MST

O Rage Against The Machine é uma banda norte-americana que sur­giu no ano de 1991 e ficou famosa não apenas pelo ritmo pesado, que mistura hip-hop, rock, funk, punk, reggae e heavy-metal, mas também por fazer da sua música uma forma de engajamento e militância. Seus temas estão sempre marcados por uma forte crítica à socie­dade capitalista, à desigualdade e ao im­perialismo norte-americano, bem como ao papel da mídia como reprodutora desse sistema. A banda é envolvida em diversas lutas sociais e já realizou mui­tas apresentações polêmicas, como na gravação do clipe “Sleep Now in The Fire”, dirigido por Michael Moore, onde se apresentaram em frente à Bolsa de Va­lores de Nova York, gerando um grande tumulto que forçou a Bolsa a fechar uma hora antes, com os integrantes da banda acabando presos.

O RATM arrebata admiradores por cada canto do mundo, tornando uma das maiores e mais importantes bandas de rock da década de 1990. A re­sposta para esse sucesso é o fato de que suas músicas podem ser consideradas expressões da indignação da juventude nos dias atuais. Em nossa geração, mar­cada pelo neoliberalismo, pela sociedade do consumo e pelo individualismo, as letras do RATM expressam a voz e a re­volta de milhares de pessoas que não se conformaram com esse sistema. O nas­cimento da banda ocorre no momento da eclosão dos movimentos anti-globali­zação, responsáveis por ações em todo o mundo – de Seattle a Gênova, passando pelos Fóruns Sociais Mundiais – e é tam­bém a expressão de uma conjuntura de retomada das lutas anti-capitalistas. O RATM é um exemplo de arte militante, ao mostrar que é possível uti­lizar a cultura e a música como instru­mentos de crítica e luta social!

Site oficial do Rage Against The Ma­chine: http://www.ratm.com