Nunca diga isso é natural

02/fev/2011, 20h00

por Israel Dutra*

Estive na região de Vale do Cuiabá, próximo ao distrito de Itaipava, no município de Petrópolis, prestando solidariedade aos atingidos pela tragédia. Antes disso, uma comitiva do PSOL/RJ, encabeçada pelos parlamentares Chico Alencar e Janira Rocha e os dirigentes estaduais Jefferson Moura e Honório Oliveira estiveram visitando a região serrana levando nossa solidariedade. Resolvi escrever algumas linhas, tomado pelo sentimento de presenciar ‘in loco’ tais acontecimentos.
A paisagem maravilhosa fez da Região Serrana do Rio de Janeiro um dos lugares mais lindos do país. Na subida que nos leva para cidades como Teresópolis  encontramos as mais belas formações naturais.
No dia de hoje, contudo, descortinando esse ambiente chegamos ao cenário da pior tragédia da história do nosso país. Nunca estive numa guerra, porém, o cenário que conheci lembra em muito o desolamento e a destruição de um campo de batalha. Nos próximos dias chegaremos próximos a marca de mil mortos, concentrados nos municípios de Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis.
A quinta feira foi de sol a pino, um alívio que já dura três dias. A empoeirada Petrópolis, especialmente o distrito de Itaipava, respira agoniada diante da trégua da chuva. Casas completamente destruídas, carros soterrados pela lama, as igrejas e abrigos municipais convertidos em grandes acampamentos, agitação por todos os lados. Comenta-se de saques e grupos armados para defender-se uns dos outros e buscar manter o pouco que ficou em pé. Nas igrejas, fotos e mais fotos de “desaparecidos” [crianças, na maioria das vezes].
As crianças assustadas buscam restituir algum tipo de consolo nos brinquedos e doações que chegam diariamente. Enfim, o mundo parece ter terminado e tenta recomeçar para os moradores da região serrana.
Em meio ao desespero das buscas dos familiares por corpos, buscando a sobrevivência imediata e preocupados com um futuro repleto de incertezas, fica difícil sequer exercer o questionamento básico:” “Como chegamos até esta situação?”
As autoridades envolvidas, desde as esferas nacionais até as lideranças locais como prefeitos, vereadores e secretários, aderiram às teses “Naturalistas”. Ou seja, a única responsável, por tanta desgraça, seria a própria natureza. Nada mais funcional às redes de corrupção e descaso que controlam o poder político da região e do estado. Para tais ideólogos recentemente convertidos, um terremoto no Haiti e uma enchente na Austrália teriam efeitos parecidos.  Apenas “esquecem” que o terremoto haitiano causou a morte de mais de 300 mil pessoas, enquanto as enchentes na Austrália – as piores dos últimos cinqüenta anos, cobrindo uma extensão de terra maior do que a Inglaterra e a França- tiveram cerca de trinta mortos.
A verdade é incomoda. Mais do que culpar a natureza, de forma a deixar sem sujeito e responsáveis pelos eventos trágicos, devemos buscar as raízes dos acontecimentos. Diferentes processos naturais tem diferentes impactos, se observarmos onde eles acontecem. O fato é que, politicamente, o desastre da Região Serrana desnuda os problemas mais sentidos de um Brasil real, mas que setores da mídia e dos grandes partidos buscam esconder.
Elio Gaspari transcreveu em sua coluna  n’O Globo(17/01/2011), uma reportagem da imprensa de Nova Friburgo, datada de novembro de 2010. Podia- se ler “Após 8 horas de chuva constante na madrugada do dia 21, a população de Nova Friburgo está apreensiva em relação ao início do período de chuvas. (…) O ponto de alagamento mais crítico no município continua sendo o distrito de São Geraldo que, apesar de as obras do PAC  estarem em andamento, em várias ruas ainda sofre com as inundações”. E mais adiante: “De acordo com dados divulgados pela Defesa Civil de Nova Friburgo, de domingo a quinta-feira foram feitas 97 solicitações de vistoria. No domingo, 21 (de novembro), foram registrados mais de 60mm de chuva das 6h às 8h30m. Em outro ponto da cidade o nível de água atingiu 80mm no mesmo período. O distrito de Campo do Coelho foi o que apresentou o maior índice do município, chegando a 90mm”.

Ainda no terreno da política, o blog de Nassif denuncia a diminuição orçamentária para o combate ás tragédias no estado do RJ: “Mas não dá pra esconder, que em outubro do ano passado, o governador Sérgio Cabral desviou R$ 24 milhões do FECAM (Fundo Estadual de Conservação do Meio Ambiente), para a contenção de encostas e obras de drenagem e deu para a Fundação Roberto Marinho, conforme poderão relembrar, na reprodução abaixo. Eu fiz a denúncia no blog, no dia 20 de outubro de 2010 e não saiu uma linha na imprensa. Então não venham de hipocrisia. Os mesmos veículos das Organizações Globo que estão cobrando investimentos públicos – o que é emergencial, é claro – escondem que a fundação dos seus patrões, a família Marinho pegou R$ 24 milhões, dados por Cabral, que era para terem sido usados na prevenção de enchentes e contenção de encostas. É tudo lastimável.” (13/01/2011)
No ano passado os desabamentos no Morro do Bumba em Niterói deixaram um rastro de morte até hoje impune. Os desabrigados  vivem em condições precárias num local cedido pela prefeitura.  Todas as previsões alertavam para as possíveis tragédias nas chuvas de janeiro. A irresponsabilidade do governo estadual foi tamanha que o Rio de Janeiro teve menos de 1% do orçamento previsto do Programa de Prevenção de Desastres executado.
Outro problema é o sucateamento da Defesa Civil.  As verbas para este setor são diminutas bem como o salário pago aos servidores.  Isso sem falar no pequeno contingente de pessoal se comparado com as demandas crescentes.
O problema habitacional também é estrutural. O déficit de moradias em todo o país se expressa de forma mais violenta nas construções que as grandes cidades e as periferias tem nas encostas dos morros.  Enquanto as empreiteiras, a especulação imobiliária e as grandes construtoras comemoram o PAC e os caminhos abertos pelos projetos que visam a Copa do Mundo e as Olimpíadas, parte expressiva da população urbana reside em condições precárias e/ou perigosas, nas áreas de risco.
Poderíamos discorrer longamente sobre outros temas como causas diretas da tragédia: a corrupção, o clientelismo, o descaso do poder público com os mais pobres. Contudo, o saldo é que a tragédia macula o projeto triunfalista de Cabral e Dilma para o estado do Rio de Janeiro. A idéia de expansão nacional tem no estado fluminense seu laboratório, a partir do tripé Pré-Sal, Copa/Olimpíadas e “Pacificação das Favelas”. A rapidez da execução das obras da Copa, do “corredor olímpico” não se verificou em nenhuma área de risco; os recursos oriundos dos avanços da Petrobrás não chegaram em tempo às vítimas da região Serrana; o contingente do exército que ocupou no final de 2010 o complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro é dez vezes maior do que a presença de agentes do estado na reconstrução das cidades destruídas. Por quê?
Culpar a natureza não resolve. “Nunca antes na história de nosso país” a omissão dos governantes custou tantas vidas.  A única chance de reversão deste quadro desolador vem da consciência do povo.
A gigantesca corrente de solidariedade que a população de todo o país construiu é uma grande lição. Rodoviários de Niterói que abdicaram da sua cesta básica mensal para doá-las integralmente. Voluntários de todas as partes do Brasil, que deixaram suas vidas para trás, e atuam como psicólogos, dentistas, médicos, enfermeiros, marceneiros, separando lixo, doações, varrendo ruas. Funcionárias das creches que lutam para manter as crianças com as mínimas condições. Enfim, o povo brasileiro demonstrou unidade e força na solidariedade concreta.
O passo seguinte é transformar esta energia em cobrança organizada perante os agentes públicos. Encaminhar uma agenda que passe pela imediata implementação de um plano emergencial de obras públicas, construção de moradias e geração de empregos; combinar este plano com um investimento massivo nas políticas de prevenção de tragédias e enchentes e de remoção das áreas de risco. E mais que isso, Cabral como governador do Estado deve ser responsabilizado pela situação de caos social que o RJ está passando.
Confiar nas mãos solidárias dos trabalhadores é desconfiar do que aparenta ser “natural”; é momento de organizar a luta por mudanças políticas estruturais, única garantia para evitarmos novas tragédias.
* Professor de Sociologia e membro da Direção Nacional do PSOL