Os rostos da resistência

09/fev/2011, 22h29

Um médico, um pesquisador, uma professora, uma estudante e um desempregado contam por que continuarão na Praça da Libertação até que Mubarak se vá.

GEORGINA HIGUERAS | O Cairo 07/02/2011

 

 

Os protestos que sacodem o Egito há duas semanas têm seu ponto nevrálgico na Praça da Libertação, situada no coração do Cairo. Nesse recinto enorme chegaram a se concentrar um milhão de pessoas gritando ‘Mubarak erhad, erhad’ (Mubarak fora, fora!!!). Milhares de manifestantes optaram por acampar na praça,cujas entradas estão protegidas por tanques, que, de acordo com as pessoas devem ficar lá por que o exercito continua sendo a instituição mais respeitada do Egito e é considerada um seguro contra o regime. A cada dia dezenas de milhares de pessoas se aproximam da praça para pedir a saída de Mubarak, reforçar a luta dos acampados e oferecer-lhes comida, roupas e cobertores. Estas são as histórias pessoaias e os motivos de cinco egípcios que garantem que manterão o protesto até que o Egito inicie uma marcha livre do ditador.

»Amr Nagy: “Não quero ir embora do meu país”.

Mohamed Gabel, junto com sua esposa e filho.- C. ÁLVAREZ

Tem 30 anos, é cirurgião, está solteiro e participa da revolta desde que ela se instaurou em 25 de janeiro. Nagy assegura que resistirá na Praça da Libertação até que o presidente Hosni Mubarak deixe o poder. “Este regime está podre.Tomou todas as riquezas do Egito ou as vendeu para outros países e nos deixou na miséria”, afirma. Estudou sete anos de medicina e três anos de especialização. Nagy trabalha no Instituto Nacional de Hematologia e Doenças Tropicais onde cobra 315 libras egípcias (menos de 40 euros) por mês, mas vive dos dois ou três plantões de 24 horas que faz toda semana em dois hospitais privados com os quais obtem um total de 4.000 libras por mês. “Não quero ir embora do meu país. Todos os meus amigos se foram do Egito por que já não é possível viver aqui. Agora Mubarak deve ir para que nós comecemos a ter um futuro melhor”, disse ele. Nagy, junto a dezenas de médicos e enfermeiros, atende os feridos. Só se viu sobrecarregado pelo trabalho na quarta-feira passada, quando um grupo de bandidos apoiadores de Mubarak invadiram a praça e se enfrentaram com os manifestantes. Em dois dias de choques houve 1.500 feridos.

»Ali Wahida: “Com Mubarak não há saída”.

Físico de 33 anos, casado e com uma filha de dois, Wahida trabalha com pesquisas sociais por 1.000 libras egípcias por mês. Sua mulher, como contadora, ganha 200. Ontem foi seu segundo dia na praça, onde permanece por algumas horas, mas pensa em continuar vindo diariamente “Até a vitória”. Disse que está farto da ditadura, que nem sequer o deixam pesquisar e que “O Egito precisa de liberdade e igualdade para que o povo tenha uma vida digna”. Wahida declara que votou nas eleições passadas, cuja fraude massiva levou a oposição a boicotar o segundo turno, feito em dezembro. “Votei em um independente e quando ele ganhou o assento, se uniu ao regime” disse com raiva, por sentir-se enganado. “É urgente melhorar o sistema, a educação e a segurança, com uma polícia que respeite o povo”, assinala. Wahida considera “positivos” os contatos iniciados com a oposição e o vice-presidente Omar Suleimán, mas insiste que para que haja uma transição efetiva, primeiro o presidente deve sair. “Com Mubarak não há saída. Se ele continuar podemos esperar uma matança, o caos o desespero”.

»Nura Gamel: “Vivemos o início de um novo Egito”.

Tem 26 anos e um filho e dois que leva a uma creche. É engenheira mecânica e trabalha como assistente acadêmica na Universidade de Tecnologia Moderna do Cairo. Seu salário é de 1.200 libras por mês. Faz quatro dias que vem à Praça da Libertação com seu marido na primeira hora da manhã para dar o café da manhã aos acampados. Reparte o pão e o iogurte com um sorriso. “Mubarak é um mentiroso e encheu os bolsos às custas do seu povo”, afirma. “Eu apoio todas essas pessoas que lutam por nós, para acabar com esse regime que nunca se interessou conosco. É como se vivêssemos em outro planeta: vão ao seu e não têm nem idéia de como estamos, do que acontece conosco. Não nos ajudam, não nos escutam”, sublinha. Gamel está contente:”Triunfaremos. Vivemos o início de um novo Egito, um Egito livre e aberto para todos”. Apesar de sua vestimenta, assegura que não pertence a Irmandade Muçulmana e que não quer um Egito governado pela Lei Islâmica. “Deve ser secular e dar espaço a todas as religiões”.

»Nurhan Zaki: “Quero Liberdade”.

Tem 18 anos e está no segundo de Farmácia. Está há uma semana acampada na praça com seus irmãos mais velhos sob uma tenda improvisada com plásticos e varas. “Estou aqui por que quero um futuro melhor para o meu país. Quero liberdade e um trabalho quando terminar os estudos. Não nos moverão até que Mubarak se vá”, disse expressando sua fúria contra o regime. Têm mantas para se proteger do frio durante a noite e sua mãe traz comida todos os dias. “Somos pessoas normais, com sonhos possíveis de realizar, com ilusões por cumprir. Lutamos por um Egito novo e ainda que não saibamos como será, saemos que não queremos este”, afirma Zaki, que com seu ardor juvenil está disposta a ficar na praça o tempo que seja necessário para derrubar o regime.

»Mohamed Gabel: “Estou aqui pelo meu filho”.

Tem 29 anos, é advogado mas está há mais de um ano sem trabalho. Vive em Heluan, na periferia do Cairo, a mais ou menos 20 quilometros da cidade. Ontem foi seu primeiro dia na Praça da Libertação, mas continuará lá “até o fim de Mubarak”. Trouxe consigo sua mulher e seu filho, que também permanecerão “por que têm que participar desse momento histórico”. Gabel não tem dúvidas: “Estou aqui pelo meu filho, para que ele tenha um futuro e ele tem que vivê-lo”. Sustenta que não é membro da Irmandade Muçulmana, a principal força ilegal de oposição no Egito ainda que tolerada em alguns períodos da história, e que sua barba é assim por ser um religioso devoto. “Somente a minha barba já foi motivo para que, em 2007, a polícia me prendesse. Me bateu e me insultou. Desde então, me ataca e me coloca na prisão quando quer. Por isso, perdi meu emprego.” Gabel recebe, às vezes, 30 libras por dia descarregando mercadorias. Seus irmãos o ajudam a pagar as 300 libras por mês necessárias para alugar sua casa. “Vamos mudar nosso país. Teremos um governo mais justo, com uma polícia que não torture e um presidente que não roube de seu povo”.