A Cultura Digital nas Lutas Sociais

10/abr/2011, 00h11

Tiago Madeira
estudante de Ciência da Computação na USP
@tmadeira
madeira@ime.usp.br

Por todo o planeta, a Internet tem se mostrado cada vez mais importante para as mobilizações.

O desenvolvimento da Internet e de novas formas de comunicação modificou bastante a atuação cultural e política dos jovens no mundo todo.

O funcionamento aberto da rede permitiu ampliar o acesso a informação, compartilhando filmes e músicas de forma gratuita, e facilitando a divulgação de produções artísticas independentes. Se antes um pequeno número de empresas decidia aquilo que faria sucesso, agora as possibilidades se expandiram.

Além disso, a troca de informações e mensagens acontece agora em tempo real, permitindo a divulgação de notícias e fatos entre todo o mundo de forma imediata. Esses fatores abrem uma nova possibilidade também à política. Atualmente, diversos acontecimentos vêm demonstrando as potencialidades da internet para a organização social da juventude e de outros setores.

Internet contra ditaduras

O principal exemplo da atualidade é o Egito, onde três dias depois de eclodir nas ruas uma série de manifestações contra o regime do presidente Hosni Mubarak, toda a mídia internacional noticiou o corte da internet no país. A medida, inédita na história, foi tomada a fim de dificultar a comunicação e evitar a organização de novos protestos, que estavam sendo convocados pela rede. Na mesma semana, o governo chinês censurou a palavra “Egito” nos serviços de microblogs sina.com e sohu.com (equivalentes chineses ao Twitter). Quem buscava informações sobre o país, deparava-se com a mensagem “De acordo com a legislação em vigor, os resultados da sua busca não podem ser retornados”. Esses dois acontecimentos não estão isolados: ultimamente temos presenciado uma série de fatos políticos relacionados com a internet, da retirada da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura até a polêmica prisão do editor-chefe do Wikileaks. Por que tanta preocupação com a rede?

A internet oferece ao ativismo social novas ferramentas de intervenção política como campanhas virtuais, troca de mensagens em tempo real, fóruns e grupos de discussão, boletins, manifestos e abaixo-assinados online, sites e blogs das organizações, portais coletivos e agências de informação alternativa. Essas ferramentas, complementares às assembleias, marchas, atos públicos, materiais gráficos, rádios e televisões comunitárias, fotografia, cinema, arte de rua, etc, possibilitam quase sem custo e a qualquer usuário da rede divulgar suas ideias e conseguir adesões.

Outro exemplo de mobilização através do meio digital se deu nas últimas semanas na cidade de São Paulo. Os atos contra o aumento da tarifa de ônibus (ver página 3) reuniram milhares de jovens e grande parte deles compareceu devido à divulgação dos eventos nas redes sociais, como o Twitter e o Facebook. Foi organizado ainda um tuitaço nacional com a palavra de ordem “Quem não tuíta, quer tarifa!”, que ampliou a mobilização pela rede.

Pela democratização da informação

Nesse sentido, devemos aproveitar ao máximo todo o espaço que a internet nos oferece. Porém, a disputa não pode parar por aí. A rede não é apenas uma ferramenta para aumentar a eficácia da comunicação; tampouco é um mecanismo de controle social: a internet é hoje ainda campo de batalha para algumas das lutas mais significativas pelos direitos humanos. Não podemos falar de liberdade de expressão e de direito à informação sem considerarmos as possibilidades que as redes podem oferecer aos cidadãos. Temos que lutar contra a exclusão digital que reproduz as velhas desigualdades que encontramos na sociedade.

Frente a esse alerta, é nossa tarefa também lutar pela apropriação social dessa tecnologia. Precisamos valorizar os espaços onde a produção de conhecimento não está submetida às leis do mercado, proteger seus usuários contra as políticas de controle e de vigilância, combater o uso somente lúdico e superficial do computador e promover uma inclusão digital não voltada para a compra de produtos e serviços de informática, mas à formação de sujeitos políticos e criadores de conteúdo, que participem da construção de uma inteligência coletiva e que busquem a partir dela reverter as relações de poder consolidadas fora da rede.