Com o PT, a direita já está no poder. Por onde mudar?

14/ago/2011, 02h47

Maurício Costa

Não nos falta dinheiro.
Nos sobram ladrões.
Espanha, Maio de 2011

Nas últimas semanas muite gente disse: não voto mais no PT”. Também, as negociatas petista para salvar – novamente – o ministro Pallocci de denúncias de corrupção, chocaram até simpatizantes do petismo. O início vexatório do governo de Dilma as dúvidas que persistiam sobre a “peemedebização” do PT iniciada no governo Lula.

Um início para tucano nenhum botar defeito

O maio brasileiro coroou uma sequência pesada do governo. Para abrir, um corte de R$ 50 bilhões no orçamento e congelamento dos concursos. Depois, aumento de 6% para o salário mínimo e 62% para os parlamentares (só o PSOL foi contra). A usina de Belo Monte foi liberada. Com escândalos do corrupção nas costas do governo – na prefeitura de Campinas, nas obras do PAC, na transposição do Rio São Francisco e, agora com Palocci – Lula negociou a concessão de cargos e a aprovação do novo Código Florestal. E cedeu à bancada evangélica recuando no kit anti-homofobia.

Para o jornalista Mino Carta, apoiador do governo, o PT “esqueceu os trabalhadores”. Em artigo, Mino refere-se ao PT como uma agremiação que “surgida para fazer do trabalho a sua razão de ser, passa a cuidar dos interesses do lado oposto.” E diz que “Antonio Palocci é apenas um exemplo de uma pretensa e lamentável modernidade, transformação que nega o passado digno para mergulhar em um presente que iguala o PT a todos os demais.”

A linguagem da direita que já está no poder

Essa constatação é justa. Contudo, a política “moderna” que consumiu o PT não é ponto de equilíbrio entre interesses opostos, como sugere o jornalista. Ao contrário: o que fez do PT um “partido da ordem” foi o fato de não ter se firmado pelo lado justo dos conflitos. A tempestade neoliberal que varreu o mundo hoje arrasta todos para a crise econômica pegou o PT em cheio. E quando o discurso transformador perde força, se cria uma nova linguagem para justificar a adaptação.

Nesse novo vocabulário dos petistas no poder,

privatização passou a ser “aceleração do crescimento”

usineiros passaram a ser “heróis”

assassinatos de ativistas políticos e ambientais passaram a ser “fatalidades”

salário passou a ser “gasto” e dívida com banqueiros e agiotas “compromisso”

superávit primário e juros altos passaram a ser “leis naturais”

imperialista passou a ser “companheiro”

e denúncia de corrupção no governo é sempre “golpe da direita”

Sintomas de um novo tempo

O voto em Dilma no segundo turno das últimas eleições, embora recheada de exageros de alguns, funcionou para outros, constrangidos com a pauta conservadora, como um fio de esperança em um PT que ainda poderia combater a ameaça reacionária. Mais do que nunca, sem o PSDB no governo e com frágeis iniciativas populares, o governo petista causa. A direita ruralista, capitalista e conservadora está bem assentada no poder.

O que seria o fim de um novo projeto para o país tem também seu lado oposto: há possibilidades do novo. As revoluções que derrubaram os regimes de Egito e Tunísia e incendeiam o mundo árabe; as mobilizações da Europa, como na Grécia e na Espanha; e os atos que transformam o cotidiano das grandes capitais convocados pela Internet mostram sintomas do novo, “fora da nova ordem mundial”.

A conclusão dessa história não está dada. Estamos em um momento onde o medo do retrocesso não pode se sobrepor à vontade da mudança, a uma nova política. Pelo PSOL, fizemos nossa opção: com os “Indignados” que marcham por liberdade e pela verdadeira democracia, para construir uma alternativa nova, real. “Tamo junto”?