Ocupar, resistir e habitar!

22/set/2011, 20h33

Contribuição enviada por Felipe Bandeiras (Santarém)

Drummond em meados do século passado costumava dizer que o Brasil é um país caduco e cansado. Passaram-se muitos anos e a frase ainda mantém intacto seu significado. Homens e mulheres tem sua cidadania trancafiada em papéis que envelhecem e mudam de coloração nas gavetas dos governos. Papeis que causam enorme estranheza com a realidade do nosso dia a dia. Nos dias 17 e 18/09 acompanhando uma caravana do juntos! a ocupação Vista Alegre do Juá e Salvação pude observar histórias que acontecem fora das “fábulas das gavetas”, fatos escritos sob chuva, sobre lágrimas, sofrimentos e muita força.

Nesse local são erguidos os barracos e fincadas às lutas por dignidade e direito a moradia, dizia uma senhora que como muitos outros lutam por um lugar para viver com seus filhos. As lonas pretas improvisando paredes e telhados, o chão batido, o sorriso acanhado das crianças, o rosto manchado dos adultos, as mãos de palmas grossas adaptadas ao trabalho pesado, ressaltam o tamanho da dívida do Estado para com aquelas pessoas.

Em Santarém cidade com aproximadamente 290 mil habitantes, cerca de 28 mil famílias não possuem casa própria. Os altos preços dos imóveis e os exorbitantes preços dos aluguéis – devido à assombrosa especulação imobiliária da cidade – fazem do problema habitacional um pesado ônus na vida do trabalhador, que se agrava com a inercia da secretaria de habitação que direciona suas políticas apenas para a construção de condomínios e residenciais de luxo.

Diante desse quadro desordenado de políticas públicas e habitacionais, foi realizado no dia 18/09 O I Seminário do Movimento dos Trabalhadores de luta por Moradia (MTLM), que propunha discutir e apontar encaminhamentos para o Movimento de ocupação das áreas de Salvação e Vista Alegre do Juá. Nas discursões acampadas no evento, foi destacado pelo advogado popular Gleydson Pontes que o fortalecimento da luta por moradia necessita da unidade de todos os lutadores e lamentou a ausência do secretário municipal de habitação, o sr. Humberto Frazão. Isto mostra a total apatia e falta de comprometimento desse governo para com o povo que realmente precisa de políticas de habitação nesta cidade, acrescentou.

Drummond, o poeta das sete faces, à muito tempo diagnosticou nossa enfermidade. Um país absorto as injustiças, não é um país saudável. Basta saber que em até 2003 não existia um ministério específico para tratar dos problemas de habitação no Brasil. Historicamente “nossa terra” foi cunhada aos ricos, e isto os deu poder suficiente para submeter a população aos interesses da classe dominante.

Um caso emblemático que ilustra muito bem as correlações de forças e interesses do governo e sociedade foi a instalação do entreposto da Cargil em Santarém. A obra foi construída sem nenhum estudo ambiental prévio (EIA/RIMA). Apesar das intensas mobilizações dos movimentos ambientais e sociais da região, o governo se mostra pouco disposto em fazer valer as leis que com tanta disposição confere aos pobres. O irônico de toda essa história é que a soja protagoniza o processo de expansão agrícola na Amazônia, que juntamente com a pecuária expulsam milhares de trabalhadores de suas terras, que vem às cidades em busca de moradia e emprego dilatando o lastro de miséria da nossa região.

Termino o texto me apropriando das palavras de Drummond, que sabiamente disse “O Brasil está caduco, coitado”!