Porto Alegre é ocupada por gritos diferentes e uma indignação comum

17/out/2011, 12h50

por Igor Natusch, do Sul 21

O dia 15 de outubro marcou, no mundo todo, uma série de manifestações de apoio ao Occupy Wall Street, espalhando pelo planeta a inconformidade com o sistema financeiro surgida em Nova York. No Brasil, algumas capitais abraçaram a ideia, e Porto Alegre reuniu no sábado (15) centenas de pessoas dispostas a participar da onda histórica e promover a sua própria ocupação. Ainda que a crise financeira não caia sobre o Brasil com a mesma crueldade com que atinge EUA e Europa, motivos para indignação não parecem faltar – e foi desse caldo difuso de revoltas que, unidos em um só evento, os 99% da capital gaúcha tentaram encontrar seus pontos em comum.

A concentração no parque da Redenção começou por volta das 13h, e desde o início era clara a existência de subgrupos. Desde cedo, pessoas com rosto pintado de verde e amarelo e ostentando cartazes contra a corrupção na política brasileira concentravam-se em uma das laterais do Monumento ao Expedicionário. Distribuíam material de divulgação da campanha “Agora Chega”, encampada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Do outro lado, um grupo de pessoas mais identificadas com a esquerda, além de defensores de minorias e integrantes de grupos estudantis. Os dois polos mantinham uma espécie de distância segura, sem maior interação.

Com a chegada dos representantes do Juntos!, movimento que articulou as ações de 15 de outubro em Porto Alegre, a concentração de pessoas ganhou em som – e também um pouquinho de fúria. “Cadê o meu dinheiro? Pago imposto e vai para o bolso do banqueiro”, cantavam os recém-chegados, com a concordância de alguns que lá já estavam, mas enfrentando a silenciosa desaprovação de outros. Mesmo alguns gritos de guerra supostamente comuns a todos, como o que fazia críticas ao senador José Sarney, eram recebidos com pouco ou nenhum entusiasmo pelo setor contrário. A identificação de integrantes do Juntos com entidades de classe, grupos estudantis e mesmo alguns partidos políticos de esquerda era indisfarçada – e, para alguns dos presentes, intolerável.

Um breve confronto de gritos de guerra escancarou a divergência entre os que marchavam contra a corrupção e os que buscavam aliança com os protestos globais. Revoltados com a presença de bandeiras de partidos e sindicatos, manifestantes do “Agora Chega” puxaram um coro de protesto. “O povo unido protesta sem partido”, bradavam. A resposta do outro lado veio na mesma métrica, mudando levemente a estrofe. “O povo unido jamais será vencido”, retrucavam. Alguns, mais desafiadores, diziam que o povo “já tomou partido”. E era preciso apurar os ouvidos para perceber a ligeira mudança na letra, dependendo do lado ao qual se escolhia dar maior atenção. Unidos na mesma massa, mas diferentes na mensagem. Algo que se reproduziria durante toda a manifestação.

A caminhada de 15 de outubro saiu do Monumento ao expedicionário, subiu pela João Pessoa, pegou a Salgado Filho e tomou parte da Borges de Medeiros rumo à Praça da Matriz, no centro do poder gaúcho. Em nenhum momento os diferentes grupos que constituíam o protesto chegaram efetivamente a se misturar. Na frente, a caminhada questionava o sistema financeiro e os próprios pilares do capitalismo; na ponta de trás, a manifestação pedia o fim da corrupção no Brasil. Entre os dois extremos, um grande caldo de reivindicações, todas legítimas, algumas quase divergentes entre si. Máscaras alusivas ao grupo Anonymous dividiam espaço com vassouras e faixas contra a privatização dos Correios ou pedindo a aplicação de 10% do PIB para a educação. Alguns participantes tentavam convencer os que assistiam a se juntar ao ato. “Você aí do lado também é explorado”, cantavam, recebendo olhares curiosos em resposta.

Se alguns foram convencidos e abandonaram tudo para participar da caminhada, é difícil dizer. Mas o fato é que as fileiras da manifestação engrossaram visivelmente enquanto todos se dirigiam à ocupação da Praça da Matriz. Foi uma caminhada relativamente rápida, tendo durado cerca de quarenta minutos – talvez porque o objetivo fosse bem mais o destino final do que o trajeto em si.

Ao chegarem ao ponto final, os manifestantes tomaram conta do Monumento a Júlio de Castilhos, cobrindo-o com uma infinidade de cores e símbolos. Máscaras do Anonymous foram colocadas sobre o rosto de algumas estátuas, enquanto outras eram adornadas com bandeiras do Brasil, Rio Grande do Sul e movimentos sociais. Em um dos poucos momentos de plena convergência, um homem de adesivo do “Agora Chega” puxou o hino nacional, sendo imediatamente seguido pela maioria dos demais, sem maiores distinções. Os diferentes grupos revezavam-se aos pés do monumento, levando cartazes, fazendo fotos. Uma grande lona preta foi estendida, enquanto os primeiros grupos começavam a armar suas barracas para passar a noite no local.

O caráter simbólico do ato de apoio a Occupy Wall Street fica claro na própria intenção dos participantes de Porto Alegre em permanecer apenas uma noite na Praça da Matriz. Em princípio, a mobilização seria encerrada no começo da tarde de domingo (16). Para a noite de vigília, estavam previstas uma série de atividades culturais, incluindo shows de artistas como o músico Tonho Crocco e algumas oficinas. Uma assembléia estava sendo convocada para a confecção de uma lista de objetivos comuns.

Muito mais do que um fim de caminhada, a chegada à Praça da Matriz pode ser um bom começo. Talvez falte clareza a respeito do que os manifestantes querem, mas tanta diferença traz em si algo em comum: um sentimento de insatisfação com os rumos não apenas do Brasil, mas de todo o planeta. Algo está errado – essa foi a mensagem que todos os participantes da ocupação de Porto Alegre transmitiram em uníssono com o resto do mundo, para quem quisesse ver e ouvir. Em seu discurso em Wall Street, o pensador Slavoj Zizek pediu aos presentes que lutassem para que aquela mobilização não se transformasse em uma simples festa, algo de que se lembrar no futuro com um sorriso e nada mais. Cabe às centenas de pessoas que participaram do ato de 15 de outubro fazer com que o evento seja bem mais do que uma ocasião social – e que da indignação coletiva surja, ainda que aos poucos, um caminho em comum.