Porto Alegre mostra seus indignados ao mundo

18/out/2011, 14h20

por Rodolfo Mohr*, publicado no Sul 21

Unidos pela Mudança Global foi o lema que uniu cerca de mil cidades em 82 países do mundo. Convocado pelo movimento 15-M, em alusão a 15 de maio de 2011, da Espanha, que na data que dá seu nome iniciou o acampamento na Praça Puerta del Sol em Madri, conseguiu obter apoio em todos os cantos do mundo na luta por Democracia Real, plataforma nascida desse movimento.

No Brasil, aproximadamente 20 cidades tiveram protestos e acampamentos de praça. Para nossa surpresa, Porto Alegre foi a cidade brasileira com a maior mobilização neste dia 15 de outubro. Cerca de 2 mil pessoas marcharam da Redenção à Praça da Matriz. Mais de 500 acamparam e participaram das atividades políticas e culturais. A expectativa de que em São Paulo aconteceria o mais significativo protesto foi frustrada pela forte chuva do sábado e pela hostilidade constante da polícia militar tucana.

Convocado há quatro meses, o protesto mundial foi potencializado pelo movimento Occupy Wall Street, iniciado há três semanas na Praça Zucotti, que fica em frente ao centro do sistema financeiro dos EUA, o mais importante do mundo. O movimento tratou de rebatizar o espaço para Praça da Liberdade – o mesmo significado de Tahrir, a Praça do Cairo local das manifestações que derrubaram Mubarak do poder no Egito. De lá se mundializou a luta dos “99% contra 1”, numa expressão da necessidade da união do povo contra as elites econômica e política.

O ano de 2011 seguramente será lembrado pela posteridade. “A volta das Revoluções” é o tema do Dossiê 7 da Le Monde Diplomatique Brasil, que conseguiu registrar em vários artigos o contexto histórico que construiu este ano. Foi no Magreb, no norte da África, que as primeiras lutas populares, na alvorada do ano, produziram impactos históricos. As Revoluções Democráticas da Tunísia e do Egito derrubaram ditaduras de décadas, abriram uma situação revolucionária na região e tornaram ainda mais difícil a situação dos países que se beneficiavam da aliança com Ben Ali e Mubarak, como os EUA e a União Europeia. Entretanto, toda revolução tem sua contrarrevolução. Kadaffi obteve frear a revolução líbia, que só saiu do impasse e iminente derrota, por intervenção da OTAN, tornando o desfecho do triunfo da queda da Kadaffi mais complexo e menos categórico.

No compasso dos efeitos mais nefastos da crise econômica mundial, a escalada das mobilizações floresceu no verão europeu. A Praça Puerta del Sol em Madri se tornou a casa dos indignados do mundo. De lá contaminou toda a Espanha e o conjunto da Europa indignada. Portugal, Grécia, Itália, os subúrbios londrinos, Bélgica, Alemanha. Nos países mais atingidos pela crise maior são as manifestações.

A chegada desse tipo de protesto em Wall Street mostrou que o movimento dos indignados não foi somente um raio num dia de céu azul. Na edição de 16 de outubro, de anteontem, o jornal El País da Espanha tinha como manchete principal: “O movimentos dos indignados renasce como uma força global”. Existe um antes e depois do 15 de outubro. A ofensiva dos povos sobre seus governos e o sistema financeiro, ainda que difusa e incerta, é possível e se fortaleceu. Ainda que no mundo ocidental não se tenha entrado na questão da disputa real do poder, o caráter massivo, cidadão e agregador dos indignados é de causar calafrios na elites dominantes.

Os indignados reclamam para si a falta de representatividade das instituições, incluindo os partidos políticos. Evidente que alguns excessos acontecem e a crítica aos partidos se universaliza ao ponto de colocar todos no mesmo saco. É ingênuo e equivocado dizer que são todos iguais, esta leitura superficial serve apenas para dividir o campo dos indignados. Entretanto, o rechaço aos partidos é justificada e deve ser acompanhada por todos os indignados, visto que partidos tradicionais ou e outros oriundos no movimento dos trabalhadores governam segundo os interesses do capital financeiro. Contudo, será necessário que as novas formas de manifestação construa entre todos, juntos cidadãos com e sem partido, a plataforma comum da Democracia Real.

Somente uma verdadeira democracia que atenda aos interesses de 99% da população pode permitir que novas forças e atores políticos entrem em cena. No xadrez da política atual somente os ricos podem vencer. Aos de baixo resta a cooptação ou a derrota. Como não nos vendemos, decidimos mudar as regras desse jogo injusto, em que só um lado pode vencer.

Aqui em Porto Alegre e no Brasil estamos fazendo a nossa parte.

* Rodolfo Mohr estuda jornalismo na UFRGS, faz parte do Juntos! e é diretor de Movimentos Sociais da UNE pela oposição.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017